segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O diálogo

(...)
- Sabe que mais?
- Diga…
- Há muito tempo que vivo do sexo. E, como deve calcular, não é com o meu marido…
- Quer especificar?
- Sim.
- Diga, então.
- Desde há um ano que trabalho na Lanterna Vermelha…
- Lanterna Vermelha? O que é isso?
- Como posso explicar-lhe… é aquilo que se chamaria uma casa de senhoras.
- Sim, já percebo. Continue.
- Fui contratado para lá trabalhar, como lhe disse.
- E gosta?
- Podemos falar de várias dimensões.
- Quais?
- A financeira, a sociológica.
- Fale-me da segunda.
- Pois muito bem. Sabe, durante muitos meses fui mais do que a pessoa que está aqui a falar consigo, e isso já é, só por si, um aspecto interessante.
- Como assim?
- Olhe, durante vários meses fui a Honória, uma moçambicana que recebera o pai crivado de balas e sem uso para o afecto de que precisava; fui a Joana, cuja simetria física perfeita excitava alguns clientes e a Georgette, que tinha das cartas de amor uma visão própria e carregada de mentira. Fui ainda Esperanza Morales que, vinda de Pipinas, na Argentina, dançava nua ao som de tangos dolentes, e Carmelinda, natural de Bencatel, cujo sotaque cerrado provocava desvairos e olhos revirados num conde falido. Fui ainda a Gervásia, uma beirã que tirava o palhaço do sério, assim como fui a Solange e a Rosário, encantando jogadores de futebol falhados ou homens sombrios de uma qualquer repartição de Finanças. Fui ainda, entre outras, a Yuni Siyu, uma chinesa que fazia do trapézio uma volúpia circense.
- Estou impressionado.
- E pode ficar que não é para menos.
- Quer continuar?
- Claro, porque não quero ficar na explicação de quem fui ao longo destes meses; quero falar-lhe, também, da visão sociológica dos clientes.
- Diga então.
- Podia falar-lhe do tal conde falido que só queria ouvir alentejano cerrado enquanto revirava saudosamente um bocado de cortiça no bolso do casaco; podia falar-lhe no Sr. Marcolino, um anão com desejos de alpinismo e que escalou uma escultura em forma de mulher; talvez valesse a pena referir o Martim Moniz, Miranda da parte da mãe, que se iniciou nas artes do prazer trazido pela mão de um avô; gostava que lhe falasse no Dr. Guimarães e Costa que se encantou, não pelas curvas sensuais de uma rapariga, mas pela sua arte no jogo do crapaud? Ai, havia tanto para lhe contar…
- E diga-me: na verdade, o que a traz por cá?
- A bem dizer não sei. Uma vontade imensa de falar deste assunto, sei lá eu. Foi uma vida muito intensa, sabe? Muitos personagens, muitos clientes, muito erotismo, muito afecto, muito asco, talvez... Muitas vidas dentro da mesma vida. Como será que aguentamos tanto personagem a conviver no mais íntimo de nós?
- Eu percebo.
- Dá-me a absolvição, senhor Padre?
- Está arrependida?

(...)

Conheço-os bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

4 comentários:

Anónimo disse...

Que saudades da Lanterna e das suas "habitantes"! Gosto da dúvida que fica no ar ... grande questão metafísica esta do arrependimento por estes motivos. bjs. pcp

cris disse...

JdB,

A inspiração aos poucos está a voltar....
Esta lanterna não é Vermelha é Mágica.

Notei um pequeno lapso, fui contratado ou fui contratada?

A crise está mesmo para ficar, pois uma "piquena" viveu por tantas.

Boa inspiração e abra lá as portas da Lanterna, pois todos temos saudades.

Não se deve dar lamirés e a luz continuar apagada...

até para a semana...

Luísa A. disse...

Bom, João, por mim, a Lanterna Vermelha pode ficar apagada. Mas também acho interessantes as vidas que se desenrolam dentro das ditas «lanternas». Há qualquer coisa que, na minha visão (míope, esclareço), aproxima essas mulheres dos homens do mar: uma espécie de «código de honra», muito «sui generis», que me leva a respeitá-las, apesar de não respeitar o seu modo de vida. Lembro-me de me contarem o caso de uma delas que, depois de uns anos de serviço do lado da frente do balcão de uma «lanterna» qualquer, casou com o dono de um talho - homem de algumas posses, portanto. Ainda assim, fez questão de manter a sua independência financeira e continuou a trabalhar na «lanterna», embora, a partir de então, sempre e só do lado de trás do balcão. A «lanterna» não ficava no meu bairro. Mas à mulher e ao seu homem do talho, seria um gosto tê-los como vizinhos. ;-)

ANA CC disse...

AINDA BEM QUE NÃO SOU SÓ EU A PEDIR PARA VOLTAR.TENHO SAUDADES DE TUDO.

Acerca de mim

Arquivo do blogue