Sem qualquer intuito de classificação de quem é melhor, vale a pena ouvir estes dois fados e compará-los naquilo em que são semelhantes: um (ou algum) acompanhamento ao piano. O primeiro, cantado por Amália e retirado do álbum "Busto" é acompanhado por Alain Oulman; o segundo, do disco "Aqui está-se sossegado", é cantado por Camané e acompanhado por Mário Laginha. O exercício, para quem lhe encontrar algum interesse, é ouvir o piano, mesmo que num caso haja um conjunto de guitarras também e no segundo ele seja o único instrumento.
Confesso que não conhecia esta música ou, se a conhecia, não a fixara. Ouvi-a no outro dia em casa de amigos e achei-a bonita. Não sei se esta interpretação da Maria João e do Mário Laginha é mais bonita do que o original e, confesso, não tive curiosidade em comprovar. O youtube é algo bizarro - cantora e músico suspensos, o que não é uma metáfora totalmente descabida para a música em questão, cuja beleza e serenidade nos deixam também suspensos.
Há sempre por trás das letras uma certa aura de mistério: quem é Beatriz? Existiu mesmo, ou é apenas um nome que rima com triz e com feliz e com giz e com bis? O que ia na mente do Chico Buarque - ou sobretudo no coração - quando fez estes versos? O que seria para ele uma mulher de louça ou de éter?
Não sei se é perigoso ser feliz. Sei que é perigoso tentar, porque nunca sabemos se tentamos da forma certa. Me leva para sempre Beatriz; me ensina a não andar com os pés no chão.
JdB
Beatriz
Olha Será que ela é moça Será que ela é triste Será que é o contrário Será que é pintura O rosto da atriz Se ela dança no sétimo céu Se ela acredita que é outro país E se ela só decora o seu papel E se eu pudesse entrar na sua vida Olha Será que é de louça Será que é de éter Será que é loucura Será que é cenário A casa da atriz Se ela mora num arranha-céu E se as paredes são feitas de giz E se ela chora num quarto de hotel E se eu pudesse entrar na sua vida Sim, me leva pra sempre, Beatriz Me ensina a não andar com os pés no chão Para sempre é sempre por um triz Aí, diz quantos desastres tem na minha mão Diz se é perigoso a gente ser feliz Olha Será que é uma estrela Será que é mentira Será que é comédia Será que é divina A vida da atriz Se ela um dia despencar do céu E se os pagantes exigirem bis E se o arcanjo passar o chapéu E se eu pudesse entrar na sua vida