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05 abril 2024

O fado, canção de vencidos

Estranho Fulgor 

Deu-me Deus bodas vermelhas
E palavras como abelhas
Esquecendo-se de mim
Deu-me a paz de alguns minutos
E palavras como frutos
Esquecendo-se de mim 

Deu-me as ideias formosas
E palavras como rosas
Esquecendo-se de mim
Deu-me a voz que persuade
Muito mais do que a verdade
Esquecendo-se de mim 

Mas um dia, veio a dor
Veio o castigo sem fim
Veio esse estranho fulgor
Apartando o bem do mal
E vi que Deus afinal
Já se lembrava de mim

Pedro Homem de Mello

10 janeiro 2020

Duas Últimas *



Escada Sem Corrimão

É uma escada em caracol
E que não tem corrimão
Vai a caminho do Sol
Mas nunca passa do chão

Os degraus quanto mais altos
Mais estragados estão
Nem sustos nem sobressaltos
Servem sequer de lição

Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração

Sobe-se numa corrida
Corre-se perigos em vão
Adivinhaste... é a vida
A escada sem corrimão

David Mourão Ferreira

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* sugestão enviada por mão amiga


28 novembro 2019

Duas Últimas

Sem qualquer intuito de classificação de quem é melhor, vale a pena ouvir estes dois fados e compará-los naquilo em que são semelhantes: um (ou algum) acompanhamento ao piano. O primeiro, cantado por Amália e retirado do álbum "Busto" é acompanhado por Alain Oulman; o segundo, do disco "Aqui está-se sossegado", é cantado por Camané e acompanhado por Mário Laginha. O exercício, para quem lhe encontrar algum interesse, é ouvir o piano, mesmo que num caso haja um conjunto de guitarras também e no segundo ele seja o único instrumento.

JdB  





09 outubro 2017

Duas Últimas

Tomei contacto com os letristas de fado com mais atenção e pormenor aquando da preparação da minha tese de mestrado. Li o que se escrevia até ao advento da censura, em 1925, li o que passou a escrever-se quando Amália Rodrigues lançou o álbum Busto, em 1967. Entre uma data e outra aquilo que Daniel Gouveia e Francisco Mendes chamaram a idade de ouro dos letristas. Em três sextilhas ou numa quadra glosada em décimas há uma história que se conta, um destino que se canta. Quem compunha tudo isto era gente pouco letrada, marinheiros, motoristas de praça, presidiários, empregados de escritório.

Deixo-vos com a Casa da Mariquinhas, do novo álbum de Camané que canta Marceneiro. Independentemente de se gostar do fadista, tomem atenção à letra, a alguns pormenores, a algumas preciosidades, como a expressão "quadros de gosto magano". Eram grandes poetas, digam lá o que disserem...

JdB

28 janeiro 2016

O Fado, Canção de Vencidos

Esquecendo os primórdios e o tempo do piano, Amália introduziu o saxofone num disco. Penso que terá sido "acto único" e, quanto a mim, poderia nem sequer ter havido. Depois foi Alain Oulman a compor e a acompanhar a artista ao piano, também. Agora é o contrabaixo e, um destes dias, vi a Ana Moura cantar acompanhada à bateria. Dizem que são novos caminhos, novas sonoridades, novas experiências. Dizem que querem tirar o fado de um gueto, dar-lhe nova roupagem, torná-lo música do mundo. Não sou melómano nem académico na matéria. Mas questiono-me se ainda saberemos definir fado.  

Deixo-vos com Camané, no fado Meia-noite, composto por Filipe Pinto, com letra de David Mourão-Ferreira. E deixo-vos com  Taku, no mesmo fado Meia-noite. Tudo isto é fado?

JdB




06 agosto 2015

"O Fado, canção de vencidos"

José António Sabrosa compôs este Pintadinho. Durante toda a minha vida o ouvi cantado por Maria Teresa de Noronha, com versos de Rita Mariano de Carvalho. Ontem, por puro acaso, ouvi uma versão cantada por Camané, com versos de Manuela de Freitas, cuja primeira quadra me interessa em termos de tese de mestrado.

Oiçam os dois e digam de vossa justiça.

JdB



19 novembro 2013

Duas últimas

O aforismo romano mens sana in corpore sano revela um desejo de consonância entre o corpo e a mente. Neste desejo está subjacente um equilíbrio entre aquilo que em nós é palpável e o que não é. Talvez possamos, por isso, ler esta frase como algo de intrinsecamente egoísta: o meu corpo está são se a minha mente estiver sã; ou, inversamente, a minha mente está sã se o meu corpo o estiver também.   

O que aconteceria se levássemos este aforismo a uma certa descentralização de nós próprios e o recitássemos de outra forma: o meu corpo está são se a tua mente estiver; ou, de uma forma talvez mais correcta, a minha mente está sã se o teu corpo estiver. A mudança de pronome possessivo - ou a conjugação de dois pronomes possessivos, meu/minha, teu/tua - abre uma perspectiva diferente, estende o próprio corpo para além dos nosso limites físicos. A nossa saúde mental ou física já não depende exclusivamente do nosso corpo/mente, mas do corpo/mente de outros. A um ideal individualista conseguiremos opor, com este novo fraseado, um ideal mais gregário?

Sejamos mais audazes e alarguemos este conceito a um universo (quase) ilimitado. Se entendermos que a condição de saúde do nosso corpo/mente está dependente da existência (aparentemente saudável) de algo que nos é extrínseco, conseguiremos então deduzir que nem tudo depende do que está dentro de nós. Logo, construímos relações de inseparabilidade óbvias que derivam de uma semântica livre: não consigo viver sem oxigénio; talvez mesmo não consigo viver sem ti. Ou ainda, não conseguiria viver sem os meus filhos, mas, também, ser-me-ia impossível viver sem os meus cachimbos ou sem a proximidade do mar. Esta condição de inseparabilidade estende-se em possibilidades imensas e permite que estabeleçamos famílias artificiais construídas por pessoas, famílias, lugares, coisas. De que não conseguiríamos abdicar? O que nos é imprescindível para viver? Que famílias artificias são as nossas?

***

Deixo-vos com dois fados, em cujas letras é forçoso atentar-se. Não chega ouvir, apreciar a voz ou a música. É preciso entender as palavras que são colocadas umas atrás das outras, como se a sequência certa fosse aquela, muito embora as combinações fossem quase infinitas.

JdB



27 novembro 2012

Duas últimas

Regressei ontem de manhã do Funchal. Não me lembro de alguma vez ter estado numa localidade sob alerta vermelho, meteorologicamente falando. O facto é que a ilha permaneceu, desde sábado até ontem, parece-me, debaixo de olho da Protecção Civil. Várias pessoas se interessaram, se preocuparam, me recomendaram que não saísse de casa. Sábado à hora de almoço o Pingo Doce estava a abarrotar de gente - talvez estivessem a fazer stock para a tempestade...

No Funchal - ou pelo menos no local onde estive - o alerta vermelho foi um exagero. Talvez apenas uma precaução. No domingo, em resposta à pergunta "e o tempo?", respondi que o clima estava outonal para os nossos standards. Na véspera choveu ininterruptamente durante muito tempo, o que é algo que enerva os madeirenses, talvez lembrados das últimas trágicas cheias. Para nós, continentais sem os riscos dos ilhéus, nada daquilo era muito grave.

A fotografia que postei ontem dá a dimensão do alerta vermelho. Na Fajã dos Padres, próximo do Cabo Girão, não se via vivalma - mas apenas porque chovia. O mar estava cavado, grosso, mas já vi pior na baía de Cascais. Enfim... Não estou a desvalorizar as preocupações, apenas a pensar que o que é vermelho lá não é necessariamente vermelho cá...  

***  

Arredado desde há algum tempo das minhas obrigações de parceiro no Duas Últimas, regresso com fado, desta vez com os irmãos Moutinho. O Camané é presença regular neste blogue, não como visitante, mas como pessoa que se deixa visitar. Os irmãos nunca por cá passaram.

Não sei se as opiniões se dividem quanto a quem é melhor, passe a subjectividade da expressão. Sem desprimor por ninguém, o Camané é o meu fadista (homem) preferido da actualidade. Mas, confesso, não conheço suficientemente bem a discografia dos irmãos para ter uma opinião definida. 

Disponibilizo três fados, para quem os quiser ouvir. Dois deles - o do Pedro e o do Camané - foram escolhidos por causa das letras, embora sejam estilos totalmente diferentes. Do Hélder encontrei pouco, pelo que vai o que me pareceu mais interessante.

JdB






28 novembro 2011

Património imaterial da Humanidade

O Fado nasceu um dia, 
quando o vento mal bulia 
e o céu o mar prolongava, 
na amurada dum veleiro, 
no peito dum marinheiro 
que, estando triste, cantava, 
que, estando triste, cantava. 

Ai, que lindeza tamanha, 
meu chão , meu monte, meu vale, 
de folhas, flores, frutas de oiro, 
vê se vês terras de Espanha, 
areias de Portugal, 
olhar ceguinho de choro. 

(...)


Fado Português (José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo')











05 fevereiro 2011

Agradecimento

Almoçamos juntos volta e meia. Sentamo-nos sempre na cave do mesmo restaurante, e ele faz-me a fineza de me deixar voltado para a sala, porque a simpatia e a educação se vêem nestes detalhes. Falamos de tudo e de nada, deixando que, apesar da negritude de algumas fases da vida, brilhe sempre uma luzinha que nos mostra o caminho: pode ser a bondade, a fé, a ética, a não cedência.

Juntámo-nos por alturas do Natal, num dia gelado e ventoso. A mesma cave, a mesma conversa fluida, a mesma luzinha a subsistir malgré tout. Dei-lhe a Luz do Mundo (conversas com Bento XVI) e ele ofertou-me um envelope com um logotipo que me foi familiar. Afinal não era uma proposta de admissão de pessoal, mas dois bilhetes para o primeiro de uma série de espectáculos do Camané no S. Luís. Caramba! Como se agradece isto?

Lá fui, 5ªfeira. Um espectáculo bom, sóbrio, bonito, superiormente bem acompanhado, com um jogo de luzes equilibrado, tudo isto a suportar - sem desprimor por ninguém - o meu fadista de eleição nos tempos que correm. Casa cheia e vários bis.

Deixo-vos com o magnífico Fado Livre, uma letra curiosíssima cujo autor não fui pesquisar. E agora silêncio, que canta o Camané.




JdB

21 novembro 2008

uma canção de amor



lembras-te?

lembras-te do dia em que fintei a segurança, naquele jeito gingão e latino que herdei, talvez, da bisavó brasileira, para ir aos bastidores, no final do primeiro espectáculo teu que vi, para te apertar a mão, enquanto tu e a tua banda despiam, literalmente, os fatos que haviam envergado, durante a vossa actuação? fumavas um cigarro, ficaste admirado, mas deixaste-me entrar no teu camarim, templo - ou lá o que era..

lembras-te de um dia de meu aniversário, em que, findo o jantar familiar, numa tasquinha do nosso bairro alto, arrastei a família para o teatro são luiz, só para te ver e lhes mostrar porque razão falava tantas vezes de ti? cantava o grande carlos do carmo, quando entrámos; depois a ana moura; pouco mais tarde entraste tu, de mãos nos bolsos e esse ar displicente com que te defendes do que cantas. homenageavam o 'zé da guiné', figura mítica do bairro alto dos anos 80, que lutava contra a pobreza, a doença e o esquecimento - miserável trindade..

lembras-te de quando comprei bilhetes para dois dias consecutivos do teu espectáculo, outra vez no belíssimo teatro são luiz, porque, para mim, uma vez nunca foi medida para nada, quanto mais quando a vontade é desmedida?

lembras-te de, momentos antes de um espectáculo teu, na aula magna, nos termos cruzado, algures por aquelas bandas - tu empunhando um cabide com o fato com que irias actuar; eu, caminhando e falando de ti a uma querida amiga - e de me teres cumprimentado com um "boa noite"? as pessoas, outros passantes de ocasião, repararam e comentaram. quem seria eu, para merecer a tua saudação?

lembras-te da "pequena" actuação, em directo e com direito a uma pequena conversa com o público, para uma rádio de província, algures numa vila dos arredores de lisboa? eu sentado, por lá, com uma companhia circunstancial, sem perceber que "o fado do adeus" que cantavas era já também o meu próprio fado, anúncio de tempestades por vir?

lembras-te das viagens de quase 300 km para cada lado, em que eu, sózinho e perdido nos meus pensamentos de chumbo, levava os teus discos (tinhas 3 editados, por esses dias) e ouvia-os inteirinhos, compulsivamente, enquanto me ardia o coração?

lembras-te de cantares, num certo verão incendiado, nas ruínas do convento do carmo, para uma plateia que, por cima desse ar de agosto, olhava directamente as estrelas? e de eu pensar para comigo que há momentos perfeitos, que nunca mais esqueceremos?

lembras-te de eu, enquanto jantava com um par de muito queridos amigos, algures por alfama, ter começado uma discussão (quase séria, quase a sério) com o empregado de mesa que teimava em desvalorizar-te, quando comparado com a, para ele incomparável, "senhora dona amália", e de eu, ofendido, retorquir com voz grossa - para deleite dos meus amigos que assistiam estupefactos a uma cena improvável?

lembras-te, camané?

eu lembro-me.

gi

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