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05 dezembro 2024

Duas Últimas

Fui convidado para um jantar de anos, que se realizará antes do Natal. Depois de várias indicações sobre local, hora, menu, o que se passa a seguir e onde, recebi um último pedido: vamos ter em minha casa um pianista no escritório ao lado da sala, sem altifalantes, para não nos perturbar. Desafiava-vos a escolherem, desde já, uma música para ele tocar, de forma a que ele fique com um repertório ao nosso gosto.

O pedido só aparentemente é simples mas, no fundo, é como aquela pergunta difícil: se houvesse um fogo em tua casa e só pudesses retirar uma coisa, o que tirarias? Conheço milhares de músicas, pelo que a escolha era desafiante. Pensei no As time goes by, do filme Casablanca. Pensei em muitas outras a que associo momentos marcantes da minha vida. Acabei por escolher um dos tangos mais bonitos de Carlos Gardel e umas das músicas mais bonitas alguma vez compostas. 

Deixo-vos com El dia que me quieras, numa versão instrumental. Espero que apreciem tanto como eu. Estou muito curioso em saber as músicas que compõem a lista.

JdB

09 abril 2020

Duas Últimas

Não percebendo imediatamente o que são os primeiros minutos deste youtube, construo uma história que, presumo, não fugirá muito da realidade - ou daquilo que me apetece seja a realidade... Então é assim, como diriam os jovens:

1) sorteiam uma rapariga;
2) depois sorteiam um par para a rapariga; pode acontecer, como parece, que não se conheçam...
3) depois sorteiam um tango

Ora, dançar o tango não é dançar uma valsa inglesa (de que sou fã...). Digo eu, do alto da minha ignorância. Parece que há improvisos, passes criados no momento. Não me parece que nenhum dos dois seja um dançarino fantástico (mais ele do que ela, mesmo assim). Não obstante, não tropeçam, não se pisam, não caem no chão - afigura-se-me tudo uma proeza...

Espero que gostem.

JdB   

07 agosto 2019

Duas Últimas

Este post é uma manancial de dimensões verdadeiras e contraditórias: um esquimó pode cantar o fado? Uma menina de 7 anos consegue cantar o La Boheme do Aznavour? Saberá um português cantar adequadamente as vésperas  de Rachmaninov ou um escocês atirar-se ao fandango?

Taisia Finenkova e Dmitry Astafjev dançam um tango. Não têm nome argentino (ou mesmo uruguaio, para alimentar uma discussão). Não sei se o fazem bem, talvez o façam com garbo e eu seja apenas influenciado pelos nomes, que me soam a uma espécie de contradição em termos.

Por último, mas não menos importante. O nome do tango chama-se el gordo triste. Questiono-me de onde lhe virá essa tristeza? É pré-obesidade ou pós? Nasceu assim ou tornou-se assim? Olho para mim e sei o que digo: nem todo o gordo é triste, nem todo o magro é elegante. A única coisa que sei é que o Verão está estranho - e eu sigo a tendência.

JdB

30 maio 2017

Textos dos dias que correm

Os ladrões do presente

«Enquanto olhava alternadamente pelas duas grandes janelas que davam para o passado e para o futuro, os ladrões entraram imperturbáveis no quarto e roubaram-me totalmente o presente.»

Segundo um antigo apólogo rabínico, um dia Deus enviou o anjo Gabriel com o dom da eternidade para oferecer à humanidade. Depois de uma longa exploração, o anjo regressou apertando ainda nas mãos aquele dom.

E explicou ao Senhor: «Não encontrei nenhum homem que me escutasse, porque todos tinham um pé no passado e outro no futuro, ou não tinham um presente para se deterem e ouvirem-me».

É verdade, como dizia Santo Agostinho, que o presente, quando é dito, já se tornou passado, enquanto antes é somente um futuro a realizar-se. E todavia a vida é precisamente um contínuo presente, e tinha razão a poetisa italiana Margherita Guidacci (1921-1992) quando, em 1967, fazia a intensa confissão que acima confiámos aos nossos leitores.

São muitos os ladrões do presente que se aproveitam das nossas distrações para nos roubarem o instante em que vivemos. Há a nostalgia do passado que nos faz olhar para trás com melancolia, como acontece à mulher de Lot ou como aconteceu com o famoso escritor francês Marcel Proust, dedicado só à «procura do tempo perdido».

Quem assim vive torna-se uma pessoa de arrependimento permanente, conservadora, lamentadora, deprimida, convicta de que a idade de ouro só existe atrás de si.

Mas há também o frenesim do futuro que torna a pessoa sempre tensa, exaltada, frenética, febrilmente atraída para um "depois" que lhe escapa das mãos, refugiando-se entre o nevoeiro da utopia.

Torna-se por isso importante «compreender esta hora», como dizia Jesus aos seus ouvintes, amar o instante em que Deus nos coloca continuamente, na expetativa do instante único, perfeito e definitivo da eternidade.


Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
Publicado em 26.05.2017


13 setembro 2016

Duas Últimas

O tango, disse alguém, es un piensamento triste que se baila.

Nos campeonatos do mundo da especialidade, a Argentina levou a melhor, sagrando-se campeã em 2016. 

Deixo-vos com os campeões mundiais (não domino este certame, que tem, parece-me, uma versão de pista e outra de palco) e com outra prestação igualmente notável.

Gozem, quem gostar de tango bem dançado e bem cantado.

JdB




06 maio 2014

Duas últimas

Domingo de tarde fui com família e amigos ver o Estoril - Belenenses, tendo ambas as equipas empatado a um golo. Penso que à equipa de Belém, numa angústia de descida de divisão, só a vitória interessava. Estiveram perto: a ganhar por um a zero, e a jogar contra dez, falharam um penalty e a desmoralização invadiu e minou o garbo azul. Num instante estavam empatados, reduzidos também a dez unidades, na iminência de sofrer mais um. 

Dois factores importantes me impedem de classificar o futebol jogado: não percebo nada da poda e sou muito amigo de alguns adeptos do clube do Restelo. Restou-me, durante os noventa minutos em que estive cara al sol a ver vinte e dois cavalheiros atrás de uma bola, fixar os aspectos sociológicos de uma partida de futebol: as transfigurações dos espectadores, o palavreado, as instruções que se gritam para campo numa esperança vã de obediência do médio-ala, a gesticulação, a partilha de opiniões e, por fim, a irmandade no infortúnio e a concordância na irritação. Os insultos variaram, proferidos entre gente que me é próxima, entre o ca**** e o mentecaptos

De noite jantei (também) com brasileiros, e falou-se da Argentina, das rivalidades vizinhas, da presidente da república, do facto de não valer muito a pena ir agora a Buenos Aires que tudo está pela hora da morte. Falei de tangos - e tive saudades de tangos, un sentimiento triste que se baila.

Deixo-vos com uma milonga e um tango. Apreciem e digam-me se não é a melhor música do mundo. Se é para dizerem que não, mais vale estarem sossegadinhos no vosso silêncio.

JdB

     


02 março 2011

Mi Buenos Aires Querido

Começo esta mini-micro-crónica sobre Buenos Aires com um cliché e um vídeo.

Cliché: Argentina, o país dos tangos.

Vídeo: País dos tangos? Assim seja. Posto aqui um abaixo para ser a banda sonora do texto.



Depois de uma viagem que, entre sair de casa e chegar, durou mais de 24 horas, 15 das quais passadas a tentar ver um filme num ecrã do tamanho do meu passaporte com o queixo apoiado nos joelhos, chego finalmente a Buenos Aires. Pensei que ainda teria uma semana calma e pacata antes de começar a segunda parte da viagem em 'modo descoberta', mas o trânsito da cidade fez com que a aventura começasse logo. Aqui, se existem regras de trânsito (o que não tenho a certeza), estas não se aplicam aos taxistas nem aos condutores de autocarros. Nenhum dos dois usa piscas, buzinam para informar que vão mudar de faixa. Quem tiver o azar de não se desviar a tempo é abalroado. As passadeiras têm como fim dar aos peões um sítio onde pode acontecer um atropelamento em massa, assim o impacto de um autocarro ou táxi é dividido por várias pessoas, e os ferimentos são menores.

Quanto à cidade em si, ia para lá com expectativas muito elevadas por tudo o que tinha lido e me tinham contado. Sim, em algumas zonas da cidade podíamos estar a passear por Madrid, Londres ou Paris. E sim, ali os bifes escrevem-se com B grande. Até ter entrado num restaurante chamado La Cabrera só tinha comido bifes com problemas de crescimento, ou anões, não sei bem. Nesse jantar suspeito que tenha comido o meu peso em Bife de Chorizo...

Penso que Buenos Aires terá sido a cidade maior onde já estive, o que implica muitas viagens de autocarro. E aqui levantou-se o primeiro problema. Cada percurso custa 1.25 pesos, e não se pode pagar com uma nota. Na Argentina inteira existe um problema grave de falta de moedas, portanto cada vez que nos calhava a sorte grande de termos um troco com moedas tínhamos de as guardar com a vida. Na pior das hipóteses, pode pedir-se a alguém se troca uma nota. Fiz isto uma vez e uma senhora trocou-me uma nota de 5 pesos por quatro moedas de 1 peso. Até nisto não há almoços grátis.

Uma coisa que reparei na semana que lá passei foi que em Buenos Aires existem dois deuses: o Carlos Gardel e o Maradona. Existem posters, pinturas e fotografias dos dois espalhados por toda a cidade. Se passarmos a pé pela zona do estádio do Boca Juniors, em cada parede temos o Maradona a chutar uma bola de futebol. Se formos a um restaurante ou a uma casa de tangos mais típicos temos o Carlos Gardel, sempre de chapéu, a olhar para a clientela com um ar melancólico. Não fui a uma casa de tango per se, mas sim a um armazém que tinha uma banda a tocar, populares com mais ou menos jeito a dançar e, nalguns dias, aulas gratuitas. E lá estava ele, com uma fotografia que ocupava quase uma parede inteira.

As primeiras vezes que passeei em Buenos Aires reparei que muitos homens se cumprimentavam de beijinho. Homens dos 8 aos 80 anos. Explicou-me alguém que vive lá que é costume que dois amigos se cumprimentem de beijinho e não de aperto-de-mão, sem que isto tenha qualquer tipo de conotação. Enfim, curiosidades...

Agora que a música chegou ao fim, posso realmente afirmar: Mi Buenos Aires Querido!

SdB (III)

07 dezembro 2010

Coisas Para Brincar

A maioria das crianças são todas iguais no que toca a jogos. Eles brincam com carros, pistolas, aos índios contra cowboys, polícias e ladrões. Elas brincam com serviços de chá de plástico, bonecas e vestidos, aos pais e às mães. Neste aspecto, são pouco originais.

Mas existe uma minoria. Esses sim, são diferentes. Lembro-me de um professor contar que, aos 13 anos, construíra um foguetão às escondidas dos pais e fugira de casa para o lançar na praia. Aos 13 anos, o meu expoente máximo no campo da engenharia era fazer torradas.

Existe também o caso de um senhor chamado Daniel Barenboim. Não sei ao certo a sua história, mas vou tomar a liberdade de criar um cenário hipotético.

A criança Barenboim nasceu e cresceu. O primeiro brinquedo que pediu aos pais foi um piano. E os pais puseram-lhe à disposição uma pianola velha, desafinada e suja. Ao contrário da maioria das crianças que, quando se deparam com um piano, o martelam com uma cara mais furiosa que curiosa, o pequeno Daniel tocava nas teclas uma a uma, e ficava a olhar para o ar, escutando o som que ia saindo.

Aprendeu a tocar e, eventualmente, percebeu que só um piano não lhe chegava. Decidiu enveredar pela carreira de maestro. Assim podia brincar com dezenas de instrumentos ao mesmo tempo! Foi evoluindo na carreira até chegar à Orquestra Filarmónica de Berlim.

E com este brinquedo, todas as brincadeiras com que sonhara durante a vida tornaram-se possíveis. Era maestro da orquestra. Depois de ensaiar os espectáculos obrigatórios podia fazer o que lhe apetecesse. Isto é o equivalente a um piloto que acaba por chegar à Ferrari, na Fórmula 1, mas cujo divertimento não se esgota nos circuitos. Depois das corridas e dos contra-relógios pode levar o carro para casa para continuar a andar nele.

Esta abordagem de brincadeira que o pequeno Daniel tinha em relação à música transportou-a até ser o ancião Daniel, já de cabelos brancos e idade respeitável. E deu-nos pérolas como as seguintes:



É sabido que entre a legião de milhares de leitores do blogue, talvez mesmo milhões, está a nata dos intelectuais e artistas, tanto a nível nacional como internacional. Há, por isso, uma forte possibilidade do próprio ler as três linhas que escrevi sobre ele. Se não gostar, então perdón Maestro!

SdB (III)

23 julho 2008

"El tango es un pensamiento triste que se baila"

Quem me conhece sabe do meu gosto por música clássica, por fado, por algum jazz. Quem me conhece melhor sabe da minha "paixão" por tangos, que entendo ser uma forma superior de música. Superior a quê? perguntarão alguns. Superior a nada de especial - apenas superior.
Fica aqui um vídeo delicioso (3'38'', para os que têm uma agenda apertada) mesmo que a delícia se situe no domínio do possidónio ou do lugar comum: o olhar apaixonado ou deslumbrado, a pequena multidão que se aproxima, o homem que tira o chapéu como que à passagem de algo que é maior do que ele, a senhora de touca de bilros, o balcão que pára de aviar bebidas.
Não percam!

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