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terça-feira, 29 de maio de 2018

Do sublime

Muitos à volta da mesa da sala de aula disseram o mesmo: até frequentarem aquele seminário específico a palavra sublime não fazia parte do vocabulário, embora (digo eu) todos usassem expressões mais vulgares como bonito, muito bonito, maravilhoso... Mas o desafio era encontrarem o sublime nos edifícios. Quais eram, para nós, exemplos de edifícios sublimes [segundo a concepção descrita em "Do Sublime"(do qual retiro um pequeníssimo excerto*), atribuído a Dionísio Longino (séc. I)]. 

Seguem abaixo, alguns edifícios / obras que naquela sala, naquele dia se consideraram sublimes. Sobre os motivos falarei um dia destes.

* "[...] Quase por natureza, a nossa alma, diante daquilo que é verdadeiramente Sublime, eleva-se e, levada por uma orgulhosa exaltação, enche-se de uma alegria soberba, como se ela própria tivesse gerado o que ouviu [...]"

JdB

Av. 9 de Julho (Buenos Aires)

Metéora (Grécia central)

Capela Bruder Klaus (Mechernich, Alemanha)

Ruínas do Convento do Carmo (Lisboa)

Somerset House (Londres)

Igreja de S. Domingos (Lisboa)

Catedral de S. Pedro (Vaticano)

Ópera (Ljubljana)

Opéra (Paris)

Piazza Navona (Roma)

Igreja da Sagrada Família (Barcelona)

Terreiro do Paço (Lisboa)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Disto, mas também de outros devaneios

Celebrou-se, no passado dia 15 de Fevereiro, o dia internacional da criança com cancro. Foi dia de artigos em jornais, de visita do Presidente da República, de uma ou outra notícia. E foi dia - por isso aqui estou - de fixar aspectos soltos da temática e de os trazer à vossa partilha.

***

A 16 de Setembro de 2008, vivia eu uns intensos dois meses no Zimbabwe, foi-me dada a oportunidade de visitar um grande hospital de Harare. Não sei se percorri corredores, se subi escadas ou se atravessei portas. Sei, isso sim, que desci até uma espécie de inferno que se intitulava, mesmo que não se intitulasse assim, ala das crianças com cancro. Uma ala destas é sempre uma visão de uma espécie de inferno, seja no Zimbabwe, onde nada se construía a partir de nada, ou do Canadá, onde há tudo para se fazer muito, desde que ao alcance do génio e da vontade humanas. Talvez no inferno estejam só os pecadores que não quiseram arrepender-se. Ali, naquela como noutras alas de outros países, o inferno advém da injustiça mais cruel - crianças com doenças que eram vistas como de velhos. Em África, tudo isto assume uma proporção que torna as nossas queixas sobre os hospitais portugueses uma obscenidade de burguesismo.

Fica o link (http://adeus-ate-ao-meu-regresso.blogspot.pt/2008/09/sade-que-no-se-deseja.html) para o caso de alguém querer começar o dia com a visão que nos faz desejar ser ceguinhos (olhar ceguinho de choro, dizia o José Régio num das mais bonitas frases da poesia portuguesa) mas também com a visão que nos faz querer fazer algo mais pelo nosso próximo

(é verdade que o nosso próximo é sempre o mais próximo, mas por vezes devia ser alguém próximo mas desconhecido, que nos tire da zona de conforto)

Em querendo começar o dia com um outro nó no estômago, vejam o video abaixo, que me mandaram caprichosamente no dia 15 de Fevereiro, sobre o inferno que eu vi. Mas também sobre a Kidzcan, a Acreditar do Zimbabwe, de cuja responsável recebi um abraço forte enquanto ela me dizia que eu era um anjo, não se lembrando que não sou, mas que tenho, e que por isso é que lhe dava aquele abraço chorado e sentido. 




O assunto não se esgota aqui, e por isso continuo mais ligeiro. Dia 15 de Fevereiro tive o grato prazer de ouvir Ângelo Felgueiras, o homem que foi ao Pólo Sul, que lá pôs uma bandeira da Acreditar e que  nos deu um cheque bom e generoso. Falou aos nossos amigos que venceram a luta contra o cancro, elogiou a tenacidade deles (diminuindo a sua própria) e contou aspectos da viagem. E aqui é que as estradas se bifurcam: enquanto as pessoas normais (sim, isso) lhe perguntam pormenores práticos - como é puxar um trenó, quantos quilos disto ou daquilo, como cumpriam necessidades fisiológicas, eu só quero saber em que pensou ele no deserto gelado, se o deserto - o gelado ou o outro - é, de facto o local de encontro com Deus (não sei se ele é crente), o que significa imensidão, como se faz para estar em casa, ainda que longe de casa...

Nota final: ontem, eu e mais 15 colegas escrevemos a nossa definição de sublime e demos alguns exemplos de coisas sublimes.  Os exemplos dos meus colegas foram todos tangíveis: a música dos Pink Floyd, o começo do livro Lolita, o quadro deste ou daquele pintor, neve no campo ao amanhecer. Eu - sempre eu, com esta mania da originalidade - fui o único que dei um exemplo intangível de sublimidade: duas pessoas que se entendem perfeitamente numa multidão, sem trocar uma palavra. 

Devaneios...

JdB

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Da desracionalização

Fotografia de Alfred Eisenstaedt

Pressupostos:

(i) A ideia de suspensão da incredulidade tem 200 anos: em havendo um interesse humano e uma semelhança com a verdade num conto fantástico, o leitor ignoraria a implausibilidade da narrativa. 

(ii) Numa conversa que aborda temas da igreja católica, e perante a crítica continuada de um dos participantes, o conferencista diz-lhe: sabe o que me parece que lhe falta? Paixão!

(iii) Afirma Pseudo-Longino (século I): o Sublime não conduz os seus ouvintes à persuasão, mas à exaltação, porque a eliminação imprevisível por ele provocada prevalece sempre sobre tudo o que convence ou agrada.

***

Destes três pressupostos se poderia dizer, numa abordagem repentista, que o seu conjunto intersecção é vazio. De facto parecem ser desconexos e, no entanto, não o são, pois abordam o mesmo tema: a necessidade de desracionalização (sim, sim, a palavra não deve existir) de parte da nossa vida. Schiller, o filósofo alemão que escreveu abundantemente sobre o Belo e o Agradável, achava que as pessoas demasiadamente racionais ou lógicas perdiam a capacidade de ver o Sublime. 

Visto por um certo ângulo, há uma total similitude entre pertencer à Igreja Católica e ler um romance. O que é esse ângulo, esse menor múltiplo comum que liga dois aspectos tão diferentes da história do mundo ou de cada um de nós? A resposta está na suspensão da incredulidade que, é por seu lado, o princípio da desracionalização. Assim sendo,  os pressupostos (i), (ii) e (iii), não só não são disjuntos como se intersectam fortemente.

Suspender a incredulidade é, repito, ignorar a implausibilidade da narrativa; é acreditar que aquilo é verdade, mesmo sabendo que não poderia ter acontecido (ou nós não concebemos possível com o nosso mindset); é deixar-se arrebatar pelo inverosímil, pelo encanto de uma história ou pela forma como ela é contada; é querer ser o herói, ansiar pelo castigo justo do vilão, rir como a criança que ri naquela história, sofrer com os que sofrem, sentir no corpo ou no espírito as dores que são de outrem. Mas suspender a incredulidade é também deixar-se invadir pela sensação de uma descoberta, pela visão do que era até então desconhecido.

O olhar excessivamente racional ou lógico tem tradução num gesto físico concreto, observável a olhos nus: é o olhar que, por demasiado próximo do objecto, detecta facilmente a imperfeição do contorno de uma letra impressa, uma mancha dissonante nos olhos de uma criança pintada a óleo, a implausibilidade de uma paixão que nasce numa franja negligente da violinista. É o olhar que, por demasiado próximo do objecto, vê a inutilidade do incenso que se queima numa cerimónia religiosa, a soturnidade de um coro de Bach a cantar a paixão de Cristo, a incoerência imperdoável e demolidora daqueles que pregam o que não fazem ou o fazem num léxico despropositado. Um olhar excessivamente próximo detecta a pequena falha que desfeia, o pequeno defeito que corrompe, o pequeno desvio que elimina. Não vê o conjunto, o global, a floresta onde tudo acontece. Fixa a árvore, talvez o arbusto, seguramente a erva daninha.

Suspender a incredulidade na leitura de um romance, ou suspender a incredulidade na nossa história com a Igreja Católica é pormo-nos à distância certa, acreditar na plausibilidade do implausível, aceitar o rito como agregador de uma multidão heterogénea, não descurar a importância dos pormenores, acreditar na busca de uma perfeição humanamente incerta. Suspender a incredulidade é deixarmo-nos arrebatar pela paixão ou pela exaltação, abrindo espaço para a entrada do Sublime.
   
JdB       

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