As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
17 dezembro 2014
Diário de uma astróloga – [93] – 14 de Dezembro de 2014
Depois de muito trabalho de introspecção, avançada
no caminho do auto conhecimento … pude então falar com os cavalos.
Os trânsitos de
Plutão em conjunção aos planetas e ângulos natais são, possivelmente, os mais
fortes da nossa vida. Plutão apesar de fisicamente ser pequeno e longínquo,
astrologicamente é fortíssimo. A sua órbita à volta do Sol é lenta, 248 anos,
de modo que os efeitos de um trânsito de Plutão a um planeta ou ângulo natais podem
demorar 2 a 3 anos.
Os três pontos
mais sensíveis do horóscopo são o Sol, a Lua e o Ascendente. O aspecto mais
potente é a conjunção. No meu caso, Plutão nunca poderá fazer uma conjunção ao
Sol ou à Lua a não ser que viva até aos 200 anos. Em compensação tenho tido
Plutão a pairar a 1 grau ou exacto sobre o Ascendente desde 2013 e aqui
continuará até ao fim de 2015.
Um trânsito de
Plutão pede transformação dessa área de vida. A sua função é a de desenterrar
material escondido na psique, trazê-lo à luz do dia com o objectivo de nos
tornarmos uma nova pessoa, uma pessoa mais inteira, mais sã, alguém de quem nós
gostamos. Tem um efeito de limpeza profunda e serve para se chegar bem ao
fundo, ao local onde a sujidade (material sombra) está entranhada, dói.
Plutão no
Ascendente diz: “Transforma a cara que mostras
ao mundo, transforma a forma como vês o mundo, transforma o teu caminho”.
E fiz as coisas
fáceis: um novo site, uma forma mais directa de escrever, o projecto de um
livro.
E fiz coisas
difíceis: trabalho de introspecção, de auto-conhecimento.
Mas o Universo
continuava a mandar-me mensagens muito claras e literais de que nem tudo estava
limpo. A pele da minha cara continuava a apresentar material enterrado sobre a
forma de quistos. Quando saravam deixavam a uma marca para me lembrarem das
minhas imperfeições.
Um amigo, JL,
aconselhou-me uma terapia com cavalos. Gostei da ideia, gostei do local, gostei
do facilitador Pedro Amado Gomes, empreendedor da “Led by Horses” e, durante 7
semanas, eu na minha expressão mais simples, sem truques, sem bluffs, sem
conversa, sem acessórios, por assim dizer nua, estive em ligação espiritual com
o Obélix, o Ulisses, a La Lune e, no último dia, com a Samarra. Ensinaram-me
muito e aqui deixo o meu agradecimento público aos meus sábios semelhantes de
quatro patas. Vale a pena todo este caminho doloroso de auto-conhecimento
porque, na verdade, pude com o meu espírito falar com cavalos.
Foi uma experiência
transformativa (plutoniana), mas, também, nas duas últimas sessões, uma
experiência de beatitude (neptuniana), porque entretanto Neptuno fez uma conjunção ao
meu Júpiter natal, regente natural de Sagitário. Com o Sol ainda em Sagitário
presto, homenagem à fundadora da Quinta do Cavalo Kiron e também criadora do Método
Kiron® - terapia e coaching assistido por equinos, Nathalie Durel.
Se algum dos meus
leitores estiver interessado em aprender a falar com cavalos, entre em contacto
com Pedro@ledby horses.pt.
Luiza Azancot
16 dezembro 2014
Duas Últimas
O Natal está quase aí, falta pouco mais de uma semana. Talvez faça sentido começar a passar no estabelecimento algumas músicas que me ficaram mais no ouvido. Walking in a Winter Wonderland faz parte do meu imaginário. Durante alguns anos, o presépio e a árvore de Natal - até se ter abatido este adorno natalício ao efectivo - eram feitos lá em casa ao som do mesmo disco de músicas da época. O disco parece ter-se extraviado e já não me recordo quem cantava esta música.
Deixo-vos com a mesma música e duas interpretações diferentes - Michael Bublé e Dean Martin, ambos artistas apreciados pelo editor e dono do estabelecimento.
Ainda é cedo para desejar um Santo Natal, mas já podemos ir fazendo uma espécie de estágio de altitude...
JdB
15 dezembro 2014
Vai um gin do Peter’s?
Em época de Natal, solidariedade, bondade pura e simples,
é o que melhor acorda o espírito natalício, até porque há menos desvios com a
corrida aos presentes, mais contida pela crise. Mesmo a falta de espaço nas
casas também sugere contenção.
Entrando no espírito da quadra, aqui vão 3 presentes
simbólicos, como 3 votos para o Novo Ano que se aproxima:
Ser mais próximo do
próximo, sobretudo dos “diferentes” e sós
O prémio Goya para a Melhor Curta-Metragem de 2014,
distinguiu o filme de animação «CORDAS», que conta a história de uma menina
amorosa, de um orfanato, que elegeu para seu melhor amigo o novo colega de
classe, com paralisia cerebral.
10 minutos deliciosos, onde se torna palpável quanto um
olhar amigo faz toda a diferença.
Bem à maneira dos contos clássicos, aposta-se num símbolo forte e
expressivo, que serve de fio condutor à narrativa. Aqui, a função é
desempenhada por uma corda grossa e flexível, que cumpre em pleno a sua vocação
de ligar elementos distantes. Os menos prováveis.
Para os
humanos, dotados do dom da memória, a ligação sugerida pela corda sugere a união
de tempos diferentes, superando facilmente a barreira temporal… Por isso, 20
anos depois, ainda e sempre se poderá “sentir” a presença que já partiu para o
céu. Claro que a fé abre logo esta perspectiva; mas curiosamente, as vias da amizade
e do amor profundo inspiram e sustentem a mesmíssima convicção, daquelas que
mais desafiam os cépticos por natureza! Nisso, amor e fé convergem em pleno,
espontaneamente, se houver espontaneidade nestas matérias…
Todos iguais no principal, mas tão diferentes no “acessório”, embora frequentemente o acessório possa ter muito maior visibilidade e preponderância a nível epidérmico que a dimensão mais escondido e subtil da identidade humana. Esse é o desafio de «CORDAS», num testemunho tocante de generosidade e humanidade, pela voz dos mais novos.
Todos iguais no principal, mas tão diferentes no “acessório”, embora frequentemente o acessório possa ter muito maior visibilidade e preponderância a nível epidérmico que a dimensão mais escondido e subtil da identidade humana. Esse é o desafio de «CORDAS», num testemunho tocante de generosidade e humanidade, pela voz dos mais novos.
Maior criatividade para virar as
dificuldades a nosso favor
A propósito da tradição dos
presentes para os mais novos, no Natal, que vem da distribuição generosa de
surpresas com que S.Nicolau (Santa Klauss na versão disseminada nos EUA) cobria
as criancinhas, vem a história da Lego, que é a prova da capacidade humana de
ir mais longe, precisamente, por necessidade de superar a crise. Quando um
operário dinamarquês se viu no desemprego, no início do século XX, lembrou-se
de inventor um brinquedo útil, pedagógico para os mais novos, permitindo-lhes
construir a partir de módulos adaptáveis a tipo de construções muito
diferentes, segundo a imaginação de cada pequenino. Assim nasceu o lego
Mais ajuda concreta, porque muita
gente precisa
José Mujica não será um dos nomes mais conhecidos entre os portugueses, mas
a sua história merece ser contada.
Segundo dá conta o site Europa Press, o presidente uruguaio falava ao jornalista quando foi abordado por um sem-abrigo que, em lágrimas, lhe pediu uma moeda. Conhecido pelos seus atos de generosidade para com os mais desprotegidos, ‘Pepe’, como é conhecido, disse que não tinha, mas que o ajudaria sob uma condição: que o senhor parasse de chorar.
De um momento para o outro, surpreendendo quem lá estava para o entrevistar, Mujica tira a carteira de um bolso, e oferece uma nota de 100 pesos, ao seu interlocutor. O gesto comoveu ainda mais este homem que lhe agradeceu efusivamente gritando “que seja presidente para sempre”.
De referir que, segundo noticiado por diversos órgãos de comunicação social, o presidente uruguaio doa mensalmente 90% da remuneração que aufere a obras de caridade.
Segundo dá conta o site Europa Press, o presidente uruguaio falava ao jornalista quando foi abordado por um sem-abrigo que, em lágrimas, lhe pediu uma moeda. Conhecido pelos seus atos de generosidade para com os mais desprotegidos, ‘Pepe’, como é conhecido, disse que não tinha, mas que o ajudaria sob uma condição: que o senhor parasse de chorar.
De um momento para o outro, surpreendendo quem lá estava para o entrevistar, Mujica tira a carteira de um bolso, e oferece uma nota de 100 pesos, ao seu interlocutor. O gesto comoveu ainda mais este homem que lhe agradeceu efusivamente gritando “que seja presidente para sempre”.
De referir que, segundo noticiado por diversos órgãos de comunicação social, o presidente uruguaio doa mensalmente 90% da remuneração que aufere a obras de caridade.
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico,
para daqui a 2 semanas)
14 dezembro 2014
III Domingo do Advento
Evangelho
de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. Foi este o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram, de Jerusalém, sacerdotes e levitas, para lhe perguntarem: «Quem és tu?». Ele confessou a verdade e não negou; ele confessou: «Eu não sou o Messias». Eles perguntaram-lhe: «Então, quem és tu? És Elias?». «Não sou», respondeu ele. «És o Profeta?». Ele respondeu: «Não». Disseram-lhe então: «Quem és tu? Para podermos dar uma resposta àqueles que nos enviaram, que dizes de ti mesmo?». Ele declarou: «Eu sou a voz do que clama no deserto: ‘Endireitai o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías». Entre os enviados havia fariseus que lhe perguntaram: «Então, porque baptizas, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?». João respondeu-lhes: «Eu baptizo na água, mas no meio de vós está Alguém que não conheceis: Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias». Tudo isto se passou em Betânia, além do Jordão, onde João estava a baptizar.
***
Dar testemunho da Luz
Cada
um de nós, à maneira de João Batista, é chamado a dar testemunho da neste mundo
da vinda de Jesus Cristo, a ser Advento. E isso convence mais do que muitos
discursos. Um só gesto de caridade em Cristo, um só lampejo da autêntica caridade
cristã, realiza o advento, faz acontecer Natal no mundo. Sim, neste sentido,
nós podemos dizer aquilo que ouvimos exprimir tantas vezes nestes dias: que
seja Natal sempre! E pode ser Natal todos os dias, desde que demos testemunho
da Luz como dava João Batista, desde que essa Luz brilhe em nós! “Endireitai os
caminhos do Senhor”! Esta frase, que João Batista foi buscar a Isaías, é também
para nós. Porque, entre nós e Cristo, o que há? Muito entulho que se juntou;
mas, se nós arredarmos isso tudo, tornar-se-á mais visível e mais clara a
Verdade do Evangelho. É preciso afastar os obstáculos que nos separam de
Cristo, trocar os caminhos tortuosos por estradas largas e abertas, direitas,
entre nós e Cristo, e Cristo e nós; para isso, é necessário abrirmos o coração!
Por isso o tempo de Advento se veste de roxo, a cor da penitência, a cor da
conversão. Se isso acontecesse, se o nosso caminho e a nossa vida se
endireitassem, ficassem planos, largos, direitos, então a Luz de Jesus Cristo
brilharia com muito mais intensidade.
D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no
Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 21-22
13 dezembro 2014
Pensamentos Impensados
Espirrito...santinho
Roupa suja lava-se em casa; quando não há dinheiro, sequer, para o detergente, lava-se na praça pública.
Culinária
Bacalhau albardado, em inglês, é dress cod.
Escrevinhadores
Quem nunca pensou, que atire o primeiro livro.
Ginásticas
Há um exercício muscular que vai de Herodes a pilates.
Irrequietos
Os hiper-activos têm Código Energético.
Bancos vs. banca
Os bancos foram bem gerados mas mal geridos.
Juízo final
Como será o encontro, no Céu, de um homem que morreu com 20 anos e do seu filho que morreu com 90?
Desculpem qualquer coisinha
![]() |
| À venda na Livraria Férin (mas também por contacto com o dono deste estabelecimento) |
No Natal é costume trocarem-se presentes, e muitas vezes não há ideias para o que se oferecer, seja porque não se quer gastar muito dinheiro, porque é só uma amabilidade, porque não há a intenção de subornar, etc. Deixo-vos uma sugestão: ofereçam o livreco PENSAMENTOS IMPENSADOS, que acabou de sair; é barato e, seguramente, mais divertido do que a mensagem de Natal de Cavaco Silva.
SdB (I)
12 dezembro 2014
A dactilógrafa *
* texto publicado originalmente em 26.10.2009
Há quem chore de tristeza, há quem chore de alegria. Por vezes é a visão de algo superiormente bonito que nos provoca lágrimas corridas; outras vezes é uma ternura, um encantamento muito próprio, sei lá eu, que nos embacia os olhos. Foi este enternecimento, inexplicável à luz de uma lógica impessoal, que fez Gonçalo chorar, com a boca muito aberta para que lhe entrasse o ar que faltava. Porque Filomena, no quarto ao lado, se despia para ele com um vagar perturbador.
***
Há quem chore de tristeza, há quem chore de alegria. Por vezes é a visão de algo superiormente bonito que nos provoca lágrimas corridas; outras vezes é uma ternura, um encantamento muito próprio, sei lá eu, que nos embacia os olhos. Foi este enternecimento, inexplicável à luz de uma lógica impessoal, que fez Gonçalo chorar, com a boca muito aberta para que lhe entrasse o ar que faltava. Porque Filomena, no quarto ao lado, se despia para ele com um vagar perturbador.
É normal o desejo carnal perante uma nudez que se revela gradualmente – e pela primeira vez - numa proximidade inquietante. Mas o homem, professor de filosofia num liceu dos arredores, não o sentiu em exclusivo. O amor que devotava a Filomena, administrativa no mesmo estabelecimento de ensino, era de uma intensidade tão própria, que chorou. Muitos não perceberiam esta sensação de exaltação que esmaga um coração que teima em bater a descompasso.
Filomena sentia-se observada através de espelhos de portas, algo que não a incomodava. Devagar, como se o mundo dependesse disso, desapertou os botões da camisa. A lentidão era devoradora, mas ela acreditava no cerimonial, no tempo próprio, na habituação dos sentidos à transcendência de uma mulher, jovem e bonita, despojada dos artefactos que cobrem o seu corpo nu.
Gonçalo espiava, sufocado, a mulher por quem se apaixonara. E via mais uma peça de roupa que tombava no chão. E Filomena desnudava-se, rodando o corpo num misto de pudor e provocação para atrasar a revelação total. O professor passara a fase da lágrima de ternura, explodindo por dentro num vulcão de desejos ardentes. Fechou os olhos, no desespero da criança que tem de esperar pela guloseima longínqua. Quando os abriu, Filomena tinha um cabelo longo e ruivo que lhe tapava o peito, e sentara-se de lado numa cadeira, revelando umas costas tentadoras.
Passados alguns minutos, a rapariga levantou-se de forma calculada e ergueu os braços para apanhar o cabelo. Olhou para o namorado, que lhe revelara Platão e Espinosa, e numa voz…
Podemos ficar por aqui, D. Odete? Estou cansado.
Vítor Guilherme olhou para as mãos, deformadas por artroses que o impediam, há anos, de exercer autonomamente o seu trabalho de escritor, e recostou-se. Ao seu lado, Odete Ramires, que casara como costureira para enviuvar como dactilógrafa, cobriu a máquina de escrever eléctrica com um oleado acinzentado. Arrumou a cadeira com cuidado e silêncio e despediu-se numa voz que revelava educação e ódio:
Até amanhã, Sr. Guilherme. Estimo as suas melhoras.
Já na rua, enfrentando um fim de tarde tristemente frio, Odete Ramires, reformada de emoções, sentou-se numa pastelaria para um bolo seco e um galão escuro. A artrose do autor debilitado era-lhe indiferente; os dedos carcomidos pela dor, também; invejou-lhe, com raiva, a imaginação e o facto de o escritor ter outra vida dentro da própria vida. Quando pensou no Gonçalo e na Filomena, em corpos desnudos amando-se no remanso de uma meia-luz, levou a mão ao pescoço, escondendo um camafeu e sufocando um desejo.
Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.
JdB
11 dezembro 2014
Poemas dos dias que correm
A paz sem vencedor e
sem vencidos
|
Dai-nos Senhor a paz
que vos pedimos
A paz sem vencedor e
sem vencidos
Que o tempo que nos
deste seja um novo
Recomeço de esperança e
de justiça.
Dai-nos Senhor a paz
que vos pedimos
A paz sem vencedor e
sem vencidos
Erguei o nosso ser à
transparência
Para podermos ler
melhor a vida
Para entendermos vosso
mandamento
Para que venha a nós o
vosso reino
Dai-nos
A paz sem vencedor e
sem vencidos
Fazei Senhor que a paz
seja de todos
Dai-nos a paz que nasce
da verdade
Dai-nos a paz que nasce
da justiça
Dai-nos a paz chamada
liberdade
Dai-nos Senhor paz que
vos pedimos
A paz sem vencedor e
sem vencidos
Sophia de Mello Breyner
Andresen
Dual (1972)
|
10 dezembro 2014
Dos olhos sobre o Natal
![]() |
| Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão |
Imaginemo-nos, gente díspar de sensibilidade e de gosto, de idade e estádio de vida, a olhar em simultâneo para uma grade de madeira, destas que se usam para a separação de espaços ajardinados ou como ajuda ao crescimento vertical das heras. Um olhará para as ripas de madeira que compõem a retícula; outro olhará para os espaços vazios que o material deixou a descoberto; outro ainda olhará para tudo - seja porque tem visão do conjunto, seja porque os olhos atravessam a matéria na procura de uma qualquer lonjura.
***
Passei o fim de semana com gente por quem tenho uma amizade pouco superior a uma década, mas bastante partilhada. Num dos dias, numa conversa composta por um trio totalmente masculino, falámos inevitavelmente do Natal: o que vai ser, como se sente, que desejos. Em todos, talvez, uma mesma vontade pouco consentânea com a alegria, quase obrigatória, da época - que se passasse do dia 23 para o dia 27, sem passar pela partida e sem pagar os dois contos. E reforça-se o dia 27, porque a 26 ainda há papéis coloridos de embrulho a atapetar os sofás.
O sentimento daquela conversa, sei-o bem, não se confina àquela gente específica. Outros amigos, com idade semelhante à minha, o revelaram também. É um sentimento generalizado, portanto, pelo menos numa classe de pessoas / idades. Gente a rondar os cinquenta e muitos / sessenta, e que ainda não é avô, algo que, estou convicto, faz toda a diferença.
O que aconteceu para nos termos tornado assim? O Natal é sobretudo, ou exclusivamente, uma festa das crianças, uma época de magia que os nossos olhos racionais e adultos mataram? Ou será, também, que o olhar para a grade ou para os interstícios - metáfora com que abri este pensamento - nos condiciona? Isto é, uns olham para as existências enquanto outros atentam nas ausências? Alega-se o cansaço da idade pouco compatível com as gritarias, as saudades dos ausentes, a confusão das refeições contínuas, a evidência das famílias que se afastaram, os afectos periféricos que ainda não se consolidaram, as tensões latentes, as desilusões ou as vidas menos folgadas, a difícil gestão das famílias alargadas. Aquilo com que vivemos relativamente bem quase todo o anos assume, na época natalícia, uma intensidade que nos esmaga.
Conseguimos resolver isto, em nome do nosso sossego interior e da felicidade dos que nos rodeiam? Sim, embora pareça desafiante. Tudo muda, repito, quando surge um neto, porque os nossos olhos reganham essa dimensão de magia e fantasia que potencia a alegria e os olhos sorridentes. Até lá é fazer o melhor possível, assumir a nossa condição de cristãos para quem o lugar geométrico do Amor é o menino Jesus deitado numas palhinhas. Tudo seria mais fácil se a totalidade dos nossos sentidos se focasse no presépio, nessa simplicidade divina que tudo vence e face à qual tudo é ridiculamente acessório e marginal. Mas isso...
JdB
Conseguimos resolver isto, em nome do nosso sossego interior e da felicidade dos que nos rodeiam? Sim, embora pareça desafiante. Tudo muda, repito, quando surge um neto, porque os nossos olhos reganham essa dimensão de magia e fantasia que potencia a alegria e os olhos sorridentes. Até lá é fazer o melhor possível, assumir a nossa condição de cristãos para quem o lugar geométrico do Amor é o menino Jesus deitado numas palhinhas. Tudo seria mais fácil se a totalidade dos nossos sentidos se focasse no presépio, nessa simplicidade divina que tudo vence e face à qual tudo é ridiculamente acessório e marginal. Mas isso...
JdB
09 dezembro 2014
Duas Últimas
Sou católico e tenho uma devoção tardia e errática por Fátima. Ontem, ao jantar, falaram-me neste youtube. Referiram inclusivamente o estilo que é atribuído por graça: sacro-pop. Depois, porque não gosto de postar nada que seja desrespeitoso, indaguei junto dos comensais se poderia divulgar esta música sem ofender sensibilidades. Garantiram-me que sim.
À hora a que escrevo este post não vi nem ouvi a música. Imagino o que é, até porque conheço o estilo das pessoas que cantam. Mas não sei mais nada, e prefiro assim, até porque poderia ter um rebate de consciência. Em condições normais, mesmo atendendo ao respeito que estes cantores me merecem como seres humanos e profissionais, faria um ou outro comentário, quiçá mais jocoso, ou apenas mais analista. Como se trata de Fátima vou coibir-me.
Peço desculpa, se por acaso firo alguma sensibilidade. Aqui vai então.
JdB
À hora a que escrevo este post não vi nem ouvi a música. Imagino o que é, até porque conheço o estilo das pessoas que cantam. Mas não sei mais nada, e prefiro assim, até porque poderia ter um rebate de consciência. Em condições normais, mesmo atendendo ao respeito que estes cantores me merecem como seres humanos e profissionais, faria um ou outro comentário, quiçá mais jocoso, ou apenas mais analista. Como se trata de Fátima vou coibir-me.
Peço desculpa, se por acaso firo alguma sensibilidade. Aqui vai então.
JdB
08 dezembro 2014
Solenidade da Imaculada Conceição

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
o Anjo Gabriel foi enviado por Deus
a uma cidade da Galileia chamada Nazaré,
a uma Virgem desposada com um homem chamado José.
O nome da Virgem era Maria.
Tendo entrado onde ela estava, disse o anjo:
«Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo».
Ela ficou perturbada com estas palavras
e pensava que saudação seria aquela.
Disse-lhe o Anjo:
«Não temas, Maria,
porque encontraste graça diante de Deus.
Conceberás e darás à luz um Filho,
a quem porás o nome de Jesus.
Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo.
O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David;
reinará eternamente sobre a casa de Jacob
e o seu reinado não terá fim».
Maria disse ao Anjo:
«Como será isto, se eu não conheço homem?»
O Anjo respondeu-lhe:
«O Espírito Santo virá sobre ti
e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra.
Por isso, o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus.
E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice
e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril;
porque a Deus nada é impossível».
Maria disse então:
«Eis a escrava do Senhor;
faça-se em mim segundo a tua palavra».
07 dezembro 2014
II Domingo do Advento
Evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo segundo São Marcos
Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Está escrito no profeta Isaías: «Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, que preparará o teu caminho. Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». Apareceu João Baptista no deserto, a proclamar um baptismo de penitência para remissão dos pecados. Acorria a ele toda a gente da região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém e eram baptizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. João vestia-se de pêlos de camelo, com um cinto de cabedal em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. E, na sua pregação, dizia: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu baptizo-vos na água, mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo».
“Viagem até ao deserto”
Se
queremos aprender alguma coisa com a passagem do Evangelho deste domingo,
teremos de ir ao deserto como João Batista para ouvir a sua pregação. Mas como
é que vamos ao deserto? Se estamos aqui, nas nossas terras, em igrejas cheias
de gente? Fazendo deserto, ou seja, dando a atenção toda. Porque, no deserto,
só pode haver atenção: olhamos para a terra e é terra, olhamos para o céu e é
céu… não há distracções no deserto! No deserto há apenas concentração e
expectativa. É isso que nós devemos fazer: concentrar-nos na expectativa da
vinda do Senhor.
Jesus
Cristo ultrapassa-nos sempre como ultrapassava João Batista! Ele é aquele
“diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das
suas sandálias”. Esta é uma expressão muito sugestiva, para dizer que é tão
maior, é tão outro! E nós, se calhar, a pensar que já conhecemos Jesus Cristo,
que já sabemos o que há para saber… não sabemos nada! Estamos sempre a
aprender, porque Ele é sempre maior e surpreende-nos sempre.
D.
Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a
Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 15-16.
06 dezembro 2014
Pensamentos Impensados
Na tasca
Avias copos?
Leituras
Folhear um livro não é fácil, só se for com ajudas de cuspo.
Normas da UE
Vendia aquários com todas as garantias; até tinha garantia à prova de água.
Low profile
Fotografias do vírus do Ébola não se tornam virais.
Assentos
Bancos? Só se forem nos transporte públicos.
Jogos
O que fazem nos recreios da prisão de Évora? Brincam aos polícias e ladrões?
Dislexia
Às pessoas com dificuldades de relacionamento sugere-se que comprem latas com 2 dedos de conserva.
SdB (I)
05 dezembro 2014
Largo da Boa-Hora (republicado)
Texto publicado originalmente em 4 de Fevereiro de 2009.
***
Imagino cada um de nós como um rio. Começamos em recôndita nascente, como um pequenino e titubeante fio de água, e vamos percorrendo o nosso curso até à foz, onde, já transformados em torrente caudalosa, nos fundiremos com o mar, com o eterno.
Ao longo da viagem acolhemos afluentes que connosco se confundem e se unificam, e geramos efluentes que seguem o seu destino de rios novos.
Todo o curso, da nascente até à foz, é movimento, passagem, caminho. Cada marco da jornada tem a expectativa da chegada, a vivência da estada e a memória da ultrapassagem.
Não há eclusa ou barragem que detenha o rio para sempre; não há planície suficiente que espraie as águas, aquietando-as e fixando-as à terra. Não. Todos os rios correm para o mar e lá chegarão, aconteça que acontecer.
Paisagem após paisagem, iremos desfilando até ao encontro com esse mar imenso, belo e poderoso que nos espera e que, ao colorir-nos de azul, nos fará confundir com o céu quando formos olhados do horizonte.
Ser rio é, pois, ser movimento e vida. É viajar, cumprir um curso, um itinerário.
Sabendo o que então sabemos, o que me parece é que de nada serve, em nada altera fazermos a viagem contrariados, desconfiados, maledicentes. A viagem é para desfrutar, toda ela, é para gozar, apreciar, ir passando com ânimo, optimismo e muita curiosidade e expectativa.
Desde incertezas em que somos regato, até à serenidade de quando formos estuário, iremos percorrer paisagens tão diversas, tão inesperadas. Umas belas, outras nem por isso, umas valiosas, outras vulgares, umas excepcionais, outras comuns, umas alegres e outras tristes, ora luminosas, ora sombrias, calmas ou agitadas, serenas e dóceis ou perigosas e violentas, sob penhascos aterradores ou correndo ao lado de planícies tranquilizadoras, terras e lugares de civilização e companhia. O desfile será variado, pleno e completo.
Nesta viagem, tudo nos vai aparecer, surgir na volta de cada curva, e de nada serve tentar adivinhar ou antever o que vai surgir, porque a natureza dita uma variedade e alternância surpreendentes.
Quando proponho, por atitude, o desfrute, é porque estou convencido de que só quando formos estuário compreenderemos a unidade, o sentido pleno, global, da viagem percorrida. Só no estuário tudo fará o seu sentido definitivo, e se fará luz sobre o desconhecimento, a angústia e o medo, esse espectro que tantas vezes nos acompanha e ensombra.
Acredito que a clarividência é atributo do estuário. Quando olharmos o mar que nos espera, surgirão, natural e tranquilamente, o conhecimento, a verdade.
Vamos, pois, como rio, percorrer o tempo e o espaço, desfrutando, e não nos consumindo a tentar compreender o que é para ser conhecido, revelado, quando formos estuário, e não antes.
Mas, além do desfrute, tenhamos presente, a cada tempo e paisagem, que eles são irrepetíveis: nunca mais voltaremos a passar por cada parcela que passámos.
Esta irrepetibilidade, este facto de o presente se converter em passado (imediata, constante e sistematicamente), do tudo durar nada, exige que não adormeçamos, perdendo nesse sono o que vai passando, deixando de viver com sofreguidão cada milha do trajecto que vai sendo o presente.
Até porque a mãe natureza, quando desenhou sabiamente o nosso leito, criou espaços e tempo que contemplam todas as variantes contidas entre os extremos de sermos águas calmas em doce e suave movimento e sermos enxurradas. Como rio, teremos troços de estada e troços de precipitação e voragem. Todos são para passar com aproveitamento e benefício.
Os de serenidade são os reflexivos, os tranquilos, de descanso, de paz – os perdulários chamam-lhe monotonia e aborrecimento. Os de enxurrada são de emoções, exaltações, paixões, arrebatamentos, coragem, desafio – os perdulários chama-lhe loucura.
Parafraseando, cada jogo tem a sua beleza. Há que jogá-los todos e consumir a beleza de cada um.
Toda esta dinâmica do rio que ficciono sermos, com o seu movimento contínuo, de seguimento para a foz, de ultrapassagem, está sujeita a leis inexoráveis, que nos cumpre interiorizar e viver em conformidade, porque são as leis da nossa ficcionada essência, da qual destaco duas na formulação popular que diz muito e que é sábia: “ águas passadas não movem moinhos”, e “a água do rio não passa duas vezes por debaixo da mesma ponte”.
Ruminar o passado, ou reeditar edições da vida que já foi consumida, são tentações e fraquezas de mau resultado, com custos e perdas várias, de que não é menor a perda da paisagem que passa durante esses exercícios, com o desvio do olhar para essa que jamais se poderá rever.
O passado, no seu bom e mau, forma o caudal do rio que em cada dia somos, é volume, é massa, que influi, acrescenta e se incorpora como a água da chuva e nos faz rios maiores e mais cheios, mas não é mais destrinçável: segue viagem com o todo, diluído, absorvido.
Por outro lado, isto de ser rio tem também as suas vantagens, cuja verificação científica nos conforta e anima nas horas de maior desânimo. Senão vejamos.
Os rios, por muitas que sejam as secas, por muitas barreiras que lhes coloquem, por muito agredidos pela poluição, por muita canga que suportem, passam sempre, sobrevivem sempre, chegam sempre à foz. A força e persistência dos rios são invencíveis. Podem quase sucumbir tornando-se regatos, ribeiros, mas resistem sempre, retomam sempre caudal e vencem sempre, passam qualquer barreira ou dificuldade e cumprem-se, chegando ao mar. Mesmo que, por vicissitudes e desgraças várias de percurso, nos tornemos em fios de água, chegará o momento em que as águas passarão as dificuldades, retomarão e engrossarão o caudal.
A outra vantagem, é que os rios não têm idade, não têm velhice, não descontinuam a vida por se sentirem chegar ao estuário, na iminência da foz. Os rios são-no sempre e orgulhosamente até ao confronto derradeiro com o mar que abraçam e para o qual correm.
Ora, sendo nós rios, que nos importa o curso vencido, as milhas percorridas ou que faltam percorrer? O que importa é, até à derradeira preia-mar que selará a fusão com o mar, correr, viver, banhar, resplandecer, sonhar e encantar.
Sim, encantamento, porque só nos rios existem as tágides que nos iluminam e inspiram, levando-nos para as dimensões poéticas que são as verdadeiras.
Sejamos rios.
ATM
04 dezembro 2014
Das fasquias altas
![]() |
| Imagem tirada da net |
Nada fez mais pelos obsessivos do que a expressão fasquia alta. Percebi esta ideia muito depois de ter entendido, com dose igual de fascínio e terror, o que eram obsessões: pela pontualidade, pela limpeza, pela arrumação, pelo controlo das agendas ou das vidas alheias. Falo de trivialidades no que concerne à salvação das almas, não me refiro a taradices ou coisas quejandas, puníveis pela lei ou pelos bons costumes.
Antes de haver a noção de fasquia alta, as pessoas eram obsessivas por isto ou por aquilo. Depois, num dia de particular felicidade para o equilíbrio das sociedades, alguém inventou o conceito e disse: eu, obcecado pela limpeza? De todo, tenho é a fasquia muito alta, sou pessoa para dar muita importância a isso. Quem diz a fasquia alta para a limpeza diz a fasquia alta para a pontualidade: não sou nada obcecado, tenho é um grande respeito pelas pessoas - a fasquia está muito alta.
Uma obsessão é uma obsessão, não é uma fasquia. As nossas manias não são provas de salto em altura ou à vara. Dentro de nós não existe o rolamento ventral versus o fossbury flop. A indignação por três minutos de atraso quando se vai almoçar com alguém, ou um pano esfregado num fórmica onde se descortinam dedadas vagas não são respeito ou higiene - são maluquices que nos invadem o cérebro e as mãos e a boca e o estômago. Estas maluquices são perniciosas ao equilíbrio das vidas? Não. Antes isso do que a droga ou, como me disseram um dia, uma infecção urinária.
Eu sei quais são as minhas obsessões. São tão doentias como outras com que convivo diariamente, isto é, não fazem uma mossa desmedida. Tudo em mim se atira para dizer que ah, e tal, a fasquia alta. Infelizmente, estou numa fase que se situa no grau acima do excesso ponderal, pelo que a fasquia alta e o editor deste estabelecimento são, no fundo, impossibilidades, incoerências, ajustes impensáveis, casamentos nulos. Fasquia alta, para mim, é uma vara de alumínio ao nível dos artelhos.
Talvez por isso, e só por isso, eu reconheça as minhas obsessões. Faço tudo, menos saltar para chegar à fasquia.
JdB
03 dezembro 2014
Diário de uma astróloga – [92] – 3 de Dezembro de 2014
Interstellar – A resposta a uma interrogação
astrológica
Já me tinham
aconselhado o filme Interstellar. Fui, gostei e tive a surpresa de ouvir pela
boca de Anne Hathaway a resposta a uma pergunta que aparece persistentemente
nas minhas consultas astrológicas.
“E o amor, vê-se na minha carta?”
Uma vez que
não consigo ver amor, respondo assim:
“Vejo compatibilidade entre duas pessoas,
épocas de vida em que uma pessoa se sente mais atraente e tem maior
possibilidade de se apaixonar. Posso perceber as necessidades sexuais de cada
um. Vejo como o estilo de comunicação pode influenciar positiva ou
negativamente uma ligação existente.” Enfim, tudo isto são aspectos do
domínio dos relacionamentos mas não de AMOR.
A minha
explicação sobre porque é que não vejo Amor é sempre pouco precisa, e anda à
volta da frase “o amor é demasiado sublime”.
Mas, nos meus momentos de reflexão tenho pensado porque é que o amor escapa
aos olhos da astróloga, para além do de existirem vários tipos de amor: o amor
incondicional dos pais para com os filhos, o amor terno mas não incondicional
dos avós para com os netos, o amor paixão, o amor adolescente mas não menos
apaixonado, o amor à pátria, o amor a Deus…
etc.
E depois fui
ver o filme Interstellar. Anne Hathaway
interpreta a bióloga Amelia Brand e, a um certo ponto, diz “O amor é a única coisa
que nós somos capazes de apreender que transcende tempo e espaço”. (Love is the one thing we are capable
of perceiving that transcends time and space.)
Aqui está a
resposta à minha interrogação. A nossa representação dos astros é
bidimensional; a carta do céu compõe-se dos elementos “espaço” (local de
nascimento) e “tempo” (data e hora de nascimento). Apesar de usarmos a carta
para interpretar elementos do passado e antever o futuro, estamos limitados na
sua representação por algo que ultrapassa, (transcende) estas duas dimensões –
O AMOR. Eu amo mas não consigo
representá-lo simbolicamente.
A próxima vez
que um cliente perguntar “vê amor na minha carta?” vou citar Amelia Brand e
explicar que, por enquanto não sou capaz de ultrapassar a barreira das duas
dimensões… até aprender a desenhar uma carta do céu num tesseracto
e evoluir para
conseguir viver num ambiente semelhante à estante multidimensional que Cooper usava para transcender tempo e
espaço e comunicar com a sua filha.
Até lá
aconselho que ame, ame muito com o seu coração e com a sua alma (outra coisa
que não consigo ver na carta) em vez de fazer perguntas sobre o amor.
Luiza Azancot
02 dezembro 2014
Duas Últimas
Regresso de Burgos por estrada, viagem longa sob
condições climatéricas pouco agradáveis, recomendando rápida chegada ao abrigo
caseiro.
Mas algo me faz voltar a sair: os ingressos para os Brit
Floyd, que comprara com entusiasmo há já uns bons dias, tocando nesse
mesmíssima noite no longínquo Pavilhão Atlântico (agora promovido a Arena).
Eles recriam os Pink Floyd, e satisfazem-me nessa missão
(quase) impossível, nas vozes ou na instrumentação. Isto digo eu, que sou um conhecedor sofrível
e com um grau de exigência mediano. E sabemos que “quem não tem cão caça com
gato”.
Uma coisa vos asseguro: foram mais de 2 horas de olhos
semi cerrados, a procurar acompanhar cada detalhe, voltando a curtir um grupo genial.
Escolhi estas 2 músicas, ambas fazendo parte do
reportório dessa noite, de 2 álbuns absolutamente incontornáveis do rock, que
espero sinceramente vos agradem tanto como a mim.
fq
fq
01 dezembro 2014
Vai um gin do Peter’s?
Em Paris, tem estado a
decorrer uma experiência publicitária extraordinária, que permite a qualquer
transeunte abrir uma simples portiinhola e ver, em directo, o que se está a
passar noutras cidades europeias. Rectângulos grandes, que são uma porta isolada
sem parede, estão montados em ruas das imediações do Louvre. Roda-se a maçaneta
e descobre-se um ecrã do tamanho de uma pessoa, onde correm, em tempo real, as
imagens do dia-a-dia de Bruxelas, Milão, Estugarda, Genebra e Barcelona. Desse
outro lado do ecrã, a uns milhares de kms de distância, as pessoas interpelam o
incauto de Paris, falando e brincando com aquele desconhecido, como se fosse um
novo turista acabado de chegar ao seu país. São portas interactivas que, na publicidade originalíssima
chamada EUROPE IS JUST NEXT DOOR, promovem
a ligação ferroviária e social entre cidades da UE. Tudo parece ficar mais
próximo:
NATAL SOLIDÁRIO NUM MONUMENTO IMPERDÍVEL DE LISBOA
Até pela visita ao antigo
Convento dos Cardaes(1), a 5
minutos do Príncipe Real, vale a pena descer a Rua do Século, até ao número
123. No gin de 7 de Julho, no elenco do património lisboeta menos conhecido e
menos acessível, vinha este Convento, que resistiu quase intacto ao terramoto
de 1755, mantendo uma capela magnífica forrada a azulejos holandeses, de Jan Van Oort,
muita talha dourada, embutidos em mármore e arte sacra variadíssima.
ENTRADA:
PERSPECTIVAS DA CAPELA PRINCIPAL:
Ao longo
da casa, em inúmeros nichos e na parte do Museu descobrimos retábulos, pinturas
do século XVII e XVIII, painéis de azulejaria e imagens lindas, como a de Nossa
Senhora do Loreto ou a do Menino Jesus Infante.
AZULEJARIA POR TODO O CONVENTO:
Fundado em 1681, por
D. Luísa de Távora, para as Carmelitas Descalças, em 1878 converteu-se num
asilo de cegas, sustentado pela Associação de Nª. Sra. Consoladora dos Aflitos,
ainda hoje no activo. Passando a ficar à guarda de uma ordem religiosa
vocacionada para a assistência aos doentes pobres, vieram depois a juntar-se outros
deficientes profundos. Hoje, abriga 35 acolhidas, totalmente dependentes do
cuidado constante das Irmãs e dos inúmeros voluntários que ali colaboram. Com
esforço, a obra empenha-se em ser fiel à sua missão filantrópica. A sua história
atribulada inclui a prisão das monjas, em 1910, na onda de perseguição
religiosa que se seguiu à implantação da República. Mas só ficaram retidas por
dois dias, pois as autoridades não conseguiam travar os protestos clamorosos
das doentes cegas, que choravam desesperadamente pela perda das suas
protectoras. Uma reivindicação espontânea bem persuasiva e justa, que acabou
por ter um final feliz…
A Venda de Natal do Convento, já com boa
tradição desde há uns anos, é uma altura privilegiada para a angariação de
fundos para ajudar ao sustento da casa. Este ano, de 21 de Novembro a 21 de
Dezembro, recebem os visitantes para chá e scones nas salas antigas do 1º
andar, com tectos de masseira em caixotões e painéis de azulejo decorativos nas
paredes. O refeitório principal ainda conserva as mesas de sucupira vermelha,
decorado com “albarradas” simples e pinturas seiscentistas, anteriores à
própria construção do convento (vindas de um outro mosteiro):
Nos claustros, esbarramos com uma panóplia imensa de presentes, originais e
a bom preço, bem alinhados em mesas decorativas, que ajudam a festejar a quadra.
Finalmente, na loja
da Casa, junto à entrada, acumulam-se as especialidades confeccionadas no
Convento, entre compotas, geleias,
chutneys, vinagres, piri piris, biscoitos de limão e outras surpresas óptimas.
Tudo delicioso e, sobretudo, utilíssimo. Que o digam as “meninas”, como lhes
chama carinhosamente a Irmã Ana Maria, partilhando na net um bocadinho destas
vidas tão arredadas do rebuliço das ruas de Lisboa, que mal acreditamos
existirem.
No testemunho da Irmã:
Para
nós e para as meninas, muitas delas no Convento desde muito novas, o
contríbuto (de gente generosa) tem sido fundamental. Estamos certos que sente(m),
como nós, a alegria do papel transformador que tem desempenhado nestas vidas!
A Assunção, "menina
Assunção" como era chamada,
faleceu este ano depois de viver 80 anos no Convento.
Entrou com 6 anos. Não conheceu outra casa, nem outra família. Era cega total
e tinha um atraso de desenvolvimento. Contudo, aprendeu Braille,
tarefas da vida diária, fazia muito bem malhas
e crochet e aqui viveu sempre, todos os dias da sua vida.
Esteve 80 anos connosco!
faleceu este ano depois de viver 80 anos no Convento.
Entrou com 6 anos. Não conheceu outra casa, nem outra família. Era cega total
e tinha um atraso de desenvolvimento. Contudo, aprendeu Braille,
tarefas da vida diária, fazia muito bem malhas
e crochet e aqui viveu sempre, todos os dias da sua vida.
Esteve 80 anos connosco!
O
Convento é um conjunto de histórias de vida às quais queremos dar um fim feliz.
Perdemos duas meninas este ano mas gánhamos duas outras - são irmãs, ambas com
atraso de desenvolvimento grave, pai esquizofrénico e cuja mãe faleceu em Maio
passado. Fazem agora parte da Família do Convento, exigindo um enorme
investimento afectivo e de recursos, da parte dos que aqui trabalham e dos
voluntários.
A D. e a S. vêm de uma família de classe
média,
mãe professora e pai ex-funcionário da TAP,
reformado compulsivamente em virtude da esquizofrenia.
Já durante a doença da mãe estas meninas
perderam muito dos hábitos de vida quotidiana,
ficaram entregues a elas mesmas. O nosso desafio foi recebê-las,
criar-lhes confiança, dar-lhes amor e atenção
- fazê-las sentirem-se parte da nossa família e, proporcionar-lhes
- uma nova vida - ir à piscina, dar passeios, fazer ginástica,
música e teatro...para quem não saía da cama é uma diferença abissal.
Estão há três meses nesta Família!
mãe professora e pai ex-funcionário da TAP,
reformado compulsivamente em virtude da esquizofrenia.
Já durante a doença da mãe estas meninas
perderam muito dos hábitos de vida quotidiana,
ficaram entregues a elas mesmas. O nosso desafio foi recebê-las,
criar-lhes confiança, dar-lhes amor e atenção
- fazê-las sentirem-se parte da nossa família e, proporcionar-lhes
- uma nova vida - ir à piscina, dar passeios, fazer ginástica,
música e teatro...para quem não saía da cama é uma diferença abissal.
Estão há três meses nesta Família!
Estas não são "histórias". São a
realidade dura e comovente das vidas das meninas que, graças a si, podem agora
ter uma nova vida connosco. A vida no Convento requer muito investimento para
tornar possível o acompanhamento e todas as atividades necessárias e
aconselháveis ao desenvolvimento de cada uma. Terminamos agradecendo-lhe pelo
seu esforço generoso e queremos que sinta a gratidão de quantos aqui trabalham,
voluntários e profissionais e, muito especialmente, a gratidão das 35
meninas/mulheres que aqui vivem.
Na contagem decrescente para o Natal, todas as
formas de aproximação aos outros vêm ainda mais a propósito. Desde as portas
interactivas e divertidas de Paris, às diversas vendas de Natal solidárias,
como a dos Cardaes, muitos sítios giros esperam por nós.
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico,
para daqui a 2 semanas)
_____________
(1) www.conventodoscardaes.com,
www.facebook.com/conventodoscardaeslisboa.
Rua do
Século nº123, Lisboa, no quarteirão que faz esquina com a R. Eduardo Coelho, dando acesso à entrada lateral
pelo nº1.
Tel.: 213
427 525. Email: conventodoscardais@net.vodafone.pt
ORATÓRIOS E NICHOS POR TODA A CASA:
MAQUINETAS E IMAGENS COM VALOR
ARTÍSTICO:
DOÇARIA CONVENTUAL:
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Acerca de mim
- JdB
- Estoril, Portugal

















