segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Vai um gin do Peter’s?


Há uns anos, num concurso que animou as opiniões públicas europeias, cada país elegeu a personalidade que considerava mais marcante na história pátria. A maioria dos eleitos foram heróis recentes, entre o final do século XIX e o XX. À parte da curta memória que o concurso evidenciou, pondo a nu a ignorância sobre o património histórico de cada nação, houve resultados imprevistos e bem interessantes, que deram dores de cabeça aos actuais governantes, apostados nessa ignorância das populações para obterem uma proeminência que não vem da meritocracia mas da falta de concorrência. Isto é, contavam ser favorecidos pela ausência das grandes figuras do passado, e nunca em ser suplantados pelos seus arqui-rivais. Tiveram azar…

Por exemplo, em Portugal, o escrutínio popular elegeu Salazar com uma vantagem muito destacada, seguindo-se Cunhal e em terceiro o salvador dos judeus na Segunda Guerra, ao preço da sua carreira pessoal, dramaticamente cerceada por Salazar – Aristides de Sousa Mendes.

Na Grã-Bretanha, o primeiro lugar coube ao político mais excêntrico, aguerrido, radical, contraditório, acutilante, inventivo, discernido (embora com algumas dissonâncias) e corajoso do século passado: Winston Churchill (1874-1965). Diferentíssimo de qualquer outro líder do seu tempo. Aliás, o rol de adjectivos – dos melhores, aos menos recomendáveis – seria interminável, na tentativa de abarcar o vasto espectro da sua riqueza psicológica. Como bem observava um dos seus múltiplos biógrafos (S.Haffner), Churchill era um governante barroco, de visão e actuação abrangentes, atípico para uma época crescentemente tecnocrata, moldada segundos os consensos pragmáticos dos vários especialistas da política parcelar.
                

Pelo punho de um alemão radicado em Londres, desde 1938, para fugir às perseguições nazis, chegou-nos uma biografia refrescante do célebre político do charuto e do V da Vitória, em versão sucinta e bem documentada. O livro(1) de Sebastian Haffner foi publicado em Portugal, integrado na colecção do jornal Expresso (em 2011): «A minha vida deu um livro», merecendo prefácio do historiador português Rui Ramos.  

Note-se que há grandes obras sobre Churchill, a começar pela sua autobiografia e continuando no trabalho notável do seu biógrafo oficial, o famoso historiador britânico de ascendência judia – Martin Gilbert.

A versão abreviada de Haffner beneficia do facto de nos dar uma boa radiografia da figura multifacetada do biografado, percorrendo os momentos importantes da sua vida, com o cuidado cirúrgico de quem consegue concentrar-se no essencial. Um esforço nada simples, que redunda numa edição de bolso, despretensiosa e empolgante, fusionando, na perfeição, as originalidades inimitáveis de Churchill com a catadupa de acontecimentos marcantes de que foi contemporâneo e, não poucas vezes, protagonista. Mesmo nos longos anos de interregno no poder, o seu activismo voluntarioso fê-lo deixar marcas indeléveis no rumo da política britânica, com uma intensidade que só a distância cronológica permite descortinar com nitidez. Nem mesmo a agudeza de percepção de Winston soube antever totalmente o alcance da sua influência sobre o presente e sobre as gerações vindouras.

Um dos traços mais curiosos da vida atribulada e grande, a vários níveis, do herói mais popular da Grã-Bretanha é a sua educação: um rotundo fracasso. E se os britânicos se esmeram por dar uma educação primorosa aos mais novos, sobretudo aos futuros governantes! Nada faria prever que um aluno medíocre e quase analfabeto, aos 17 anos, compensasse com um autodidatismo incrivelmente talentoso e esforçado, o tempo perdido na escola e no liceu. A ponto de se converter num dos escritores mais lidos da época (com obra publicada aos 25 anos: «The River War: An Historical Account of the Reconquest of the Soudan», 1899), com qualidade literária e vários outros méritos, que lhe valeram o Nobel da Literatura, em 1953 (altura em que a Academia sueca era de uma exigência, que deixou de se vislumbrar a partir do final dos anos 80). Uma proeza inimaginável e dificilmente previsível para qualquer um dos seus professores, com motivos de peso para o considerarem uma perfeita nulidade. 

Inimaginável também que uma personalidade tão positiva e enérgica arrastasse a enorme frustração de nunca ter sido reconhecido, ou sequer apreciado, pelo ídolo da adolescência: o pai, Lord Randolf Churchill, que morreu prematuramente aos 40 e poucos anos. Nem Winston (que não era falho de imaginação) imaginava que iria ultrapassar, a passos de gigante, a fama política alcançada pelo pai!

Polémico e paradoxal é o menos que se pode dizer de Winston, a somar recordes em todas as áreas onde actuou: o único deputado britânico que mudou, não uma, mas duas vezes de partido… e resistiu, politicamente; o único deputado a ser violentamente apupado no parlamento, pela defesa romântica da frágil posição do futuro rei Eduardo VIII, quando este se apaixonou por uma estrangeira (americana) que já ia no segundo divórcio; o único a prever, com todo o realismo, a ferocidade do nazismo e a demência perigosa de Adolph Hitler; o único a diagnosticar, com genialidade mas nenhuma utilidade (foi afastado do poder no início do conflito), logo em 1914, as novidades e os desafios bélicos da I Guerra, gizando a melhor estratégia para o que poderia ter sido uma vitória rápida do Império britânico; o precursor do tanque de guerra, em 1914, denominando-o por navio de terra; o Primeiro-Ministro que ascendeu ao cargo com mais idade – aos 65 anos – e numa época de muito mais rápido envelhecimento do que a actual; o político com o discurso mais cativante, original, poético e idealista, onde a promessa de «sangue, suor e lágrimas» foi apenas a ponta do iceberg; o único jornalista com intervenção militar épica, em pleno palco de guerra (na África do Sul), conseguindo o feito extraordinário de salvar sozinho um comboio britânico sequestrado pelos revoltosos (boers), quebrando pontualmente a onda vitoriosa dos adversários; etc.

Vale a pena relembrar algumas das tiradas superiores de Churchill, menos citadas, e que são de uma sabedoria e beleza difíceis de igualar:
- (Aos ingleses, após a Batalha de Inglaterra, em 1940) «Vosso foi o coração de leão; a mim apenas competiu a tarefa de rugir
- (A animar as hostes, após revés) «It's only at night that the stars shine.» (Só quando a noite cai, se vislumbram as estrelas cintilantes no céu.)
- (Desencorajando o ajustes de contas contra os apoiantes de Chamberlain, em 1940) «Se lançarmos uma disputa entre o passado e o presente, descobriremos que perdemos o futuro

Churchill seria o que hoje denominamos por hiperdotado, desinteressando-se olimpicamente pelo regime geral de educação, onde a maioria é serenamente formatada. Nos padrões actuais, seria também um hiperactivo e um workahoolic com produtividade astronómica. Até as rasteiras que lhe pregaram, na política, tiveram em Winston uma única resposta (salvo uma ou duas infelizes excepções): um trabalho irrepreensível e de excelência. Chega a ser cómico, por exemplo, o ardil usado pelo Primeiro-Ministro Baldwin, em 1926, para o desviar (com sucesso) do núcleo duro do poder, incumbindo-o de redigir um jornal do governo. Escusado será dizer que o «British Gazette» alcançou tal sucesso editorial, que rapidamente se tornou rentável, disparando para uma tiragem de 2 milhões de exemplares, em apenas dez dias! Ironicamente, arruinou a reputação política de Churchill, tal a superabundância de intrigas e ataques verrinosos publicados no dito periódico, claramente num estilo estranho à fleuma britânica, que, apesar de tudo, se deliciou a lê-lo! Aliás, os artigos de Winston na imprensa diária eram dos mais lidos em todo o mundo, durante a década de trinta, apesar de corresponder, exactamente, ao seu período de maior afastamento dos cargos públicos. Ironia das ironias, terá sido esse trabalho de bastidores junto da opinião pública, sem qualquer reconhecimento visível, que favoreceu a sua ascensão ao mais alto cargo do Estado inglês, em 1940, com mais do que idade para se retirar! 

Se há pessoa que prova quanto o curso dos acontecimentos acaba por ser surpreendente, até mesmo para o próprio, é Churchill.
Se há pessoa que prova quanto a atitude de vida se sobrepõe às circunstâncias, mesmo às mais hostis, é Churchill.
Se há pessoa que prova quanto cada minuto merece ser saboreado com empenho, é Churchill.

Por isso vale bem a pena conhecer, ou relembrar, o tumulto de aventuras e desventuras que foram os seus contagiantes 90 anos de vivência intensa. A sua biografia podia intitular-se Uma Vida Para a História. Pensando bem, que outra coisa é a História, senão pessoas? No fundo, cada ser humano faz parte integrante da memória da Humanidade, pois é irrepetível, como Churchill mostra à evidência.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
______________
(1) Haffner, Sebastian, «Winston Churchill», Colecção A minha vida deu um livro, Expresso, 2011 (edição original de 1967, Hamburg), Prefácio de Rui Ramos.   


2 comentários:

Anónimo disse...

A propósito do que escreveu "ao preço da sua carreira profissional dramaticamente cerceada por Salazar-Aristides de Sousa Mendes" sugiro-lhe que leia o livro do Embaixador Carlos Fernandes - O cônsul Aristides de Sousa Mendes, a Verdade e a Mentira.
SdB(I)

Anónimo disse...

Muito obrigada pela sugestão de leitura, que seguirei com o maior gosto. MZ

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