segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Vai um gin do Peter’s?


Nietzsche(1)  que, entre genial e louco, deixou reflexões interpelativas, muitas de carga bem negativa, mas outras lapidares e algumas até positivas, das que associamos ao melhor da vida, exaltou a música. Referindo-se à vida, o filósofo alemão fez uma observação na senda de Dostoievski, quando este sublinhou a importância da beleza para a salvação do mundo. Na expressão do filósofo, privilegia-se antes uma das expressões artísticas, talvez a mais subtil, afirmando: «Sem a música, a vida seria um erro.». Na mesma linha, afirma ainda: «E aqueles que foram vistos a dançar foram julgados loucos por aqueles que não podiam escutar a música.» Note-se que Nietzsche morreu louco…


Com a quantidade incrível de óptimos compositores de língua alemã, percebe-se, sem dificuldade, a convicção do filósofo. Aliás, bastava Bach ou Mozart para fazer jus ao papel maior da música no crescimento do ser humano e no progresso da humanidade.

Dois casos paradigmáticos, ocorridos há uns anos, nos E.U.A., dão uma ideia inequívoca do impacto fortíssimo da obra de Mozart no comportamento humano e até nas aptidões mentais.

Primeiro caso: um estudo de uma das reputadas universidades americanas fez uma experiência com estudantes de matemática, sujeitando metade do grupo a ouvir Mozart antes do exame, enquanto a outra era privada da audição. O desfecho foi notável – as melhores provas pertenciam à metade que ouvira a música. Mais alunos foram submetidos à mesmo experiência, com resultados idênticos. Assim, a conclusão da investigação considerava que a música luminosa do austríaco favoreceria o pensamento matemático. Aliás, é comum afirmar outro tanto de Bach, embora não conheça experiências académicas que comprovem esta tese.

Segundo caso: um centro comercial da Califórnia debatia-se com problemas financeiros provocados pelas constantes vagas de assaltos e má frequência do espaço. Pensaram em aumentar a segurança, mas a solução não lhes agradava inteiramente, pois a presença de agentes armados também afectava o ambiente alegre e descontraído que se pretende nestes locais. A dada altura, resolveram ensaiar uma solução mais ousada de um dos gestores e incluir no repertório da música de fundo do espaço comercial, Mozart. Em especial, durante o horário de maior ocorrência de roubos. Nem queriam acreditar no efeito fulgurante da nova opção musical: não só as hordas de meliantes e marginais se mudaram para outras paragens, por sua livre iniciativa, como os clientes com maior poder de compra aumentaram em número e em consumo. Quem diria que o austríaco favorecia tanto o negócio!


 George Steiner – pensador judeu de referência, na actualidade, sempre audacioso e vanguardista nas suas análises interessantíssimas da história – chega a responsabilizar os artistas e os filósofos pela influência póstuma da sua obra sobre as gerações que lhes sucedem. E concretiza, achando explicável (e culpabilizante) que a música de Wagner ou a filosofia elitista de Nietzsche tenham sido tão apreciadas pela elite nazi… e por isso tão perversas para o povo judeu, entre muitas outras vítimas do nazismo. Uma reflexão que faz pensar…

Apetece citar o alerta do próprio Nietzsche, que provavelmente se lhe aplica em primeira instância, apesar da sua preocupação em desmascarar tudo o que entendia ser preconceito: «Acautela-te quando lutares com monstros, para que não te tornes um!» Uma observação polémica, mas aplicável a alguns, parecendo ter contornos auto-biográficos. Felizmente, está longe de corresponder a muitos (talvez à maioria) das grandes figuras do passado. Quanta gente generosa e extraordinária ficou para a posteridade, por ter sabido viver em contra-corrente, enfrentando monstros que em nada afectaram o seu carácter magnânimo. Ao invés, a luta por causas impopulares elevou-os e ajudou a elevar o mundo, como provaram Gandhi ou Tagore ou Mandela, para apenas citar três. 

Felizmente que, no longo prazo (e sobretudo no longo prazo), o mal acaba por ter menos alcance que o bem, embora os alerta de Nietzsche – tão consciente do peso do mal – também sejam bem oportunos, nalgumas circunstâncias.


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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 (1) Friederich Nietzsche (1844-1900), morreu isolado, tendo vivido os últimos tempos entre a casa da mãe e clínicas de doentes mentais. É dele a frase algo auto-explicativa: «Se as minhas loucuras tivessem explicações, não seriam loucuras.». Há quem advogue (sem se conhecer qualquer evidência sobre a veracidade desta tese) que a sua loucura foi despoletada pelo espancamento de um cavalo, numa praça de Turim, onde o único registo oficial que ficou para a história, reza que teve de ser controlado pelas autoridades, por distúrbios na via pública. Há também quem atribua (nomeadamente, outros filósofos e psicanalistas) à sua filosofia niilista a causa primeira das suas perturbações psíquicas, que culminaram na rápida deterioração mental e morte aos 44 anos de idade. 

Nietzsche ao lado de sua mãe

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