quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Do perdão

Fotografia de Ryan Lobo


O texto abaixo não foi escrito agora; tem muitos meses e, por estar inacabado, quedou-se pelo estabelecimento numa gaveta que ostenta a etiqueta "rascunhos". Ontem, ligeiramente desinspirado, decidi recuperá-lo, isto é, publicá-lo, ainda que inacabado. Cada um dos leitores acrescentará uma palavra ou uma ideia àquilo que tão parcamente está aqui publicado. Há muito a dizer sobre o perdão - teorias, pensamentos, ideias. O busílis está na colocação em prática da disparidade de pontos de vista. Sobretudo se pensarmos - pelo menos os crentes - que Cristo nos incitou a amar os nossos inimigos. Como é que issi se faz?


***

O sol batia com força na calçada portuguesa e reflectia-se violentamente em nós. Nem a pedra escura das ondas, das caravelas, do cordame ou dos corvos atenuava a chapada de calor e de luz. Apresentei-lhe um prato tipicamente português que ele comeu com um gosto surpreendido, como se fosse uma criança na qual o espanto e o apetite convivem por igual. Foi então que me falou longamente da Securitate, a polícia política do regime comunista romeno: as torturas que sofreu, o desaparecimento de familiares, a violação de amigas. Comoveu-se quando falámos de perdão. Talvez tenha chorado, não sei... 

O texto não é meu. Fruto de pesquisas por outros caminhos, cruzei-me com este parágrafo num blogue. Quando se procura bairrismo, saudade, casas de fado, orientadores, teses de mestrado, religião, confissões, aparece-nos tudo. Desta vez foi isto - um romeno, vítima da brutalidade política, a comer carapaus com molho à espanhola...

Ontem ainda, nuns minutos de silêncio em que vou pensando nalgumas pessoas que me são próximas e sofrem doenças prematuramente graves, pensei no perdão, porque pensei no texto que escreveria. E questionei-me como seria abordado o tema a uma mesa ocupada por um ateu e um cristão. Como fazem ambos a gestão deste tema - o cristão que tem Cristo como modelo último e determinante, o ateu que terá outros modelos? 

Se perdoar é esquecer, não consigo. Se perdoar é aceitar e seguir em frente, está feito. Esta frase, mais uma vez, não é minha, mas muitos de nós a subscreveriam. O que é, verdadeiramente, esquecer? É eliminar da memória? Se sim, qual o mérito do perdão? Não esquecemos as ofensas, não porque não perdoemos, mas porque, de facto, não mandamos nos nosso mecanismo mentais que nos fazem lembrar de um abraço do pai / mãe na véspera de uma sova do mesmo pai /mãe. A memória é uma bendição, mas também pode ser uma maldição, sobretudo se usada para o não crescimento do próprio ou do próximo.

(...)

JdB

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