segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Dos propósitos

Calvário, fotografia de Eduardo Gageiro

Para a generalidade dos portugueses acabou ontem, Domingo, a época festiva do Natal e Ano Novo. Recomeçam as aulas, os trabalhos - talvez mesmo as dietas, depois de sessões continuadas de excessos. Numa visão ligeiramente mais negativa, acaba-se também o tempo em que a expressão Paz na Terra aos Homens de boa vontade povoou tantas bocas, que é o espaço do corpo humano onde se guardam as intenções com prazo de validade curto e repetição sazonal. O Natal abre uma época que não perdura. Muito do que somos é papel de embrulho, uma fantasia que acaba incinerada numa lareira ou amachucada num contentor com destino à reciclagem. Talvez por isso me respondia um amigo, quando lhe perguntava o que lhe desgostava no Natal: a ideia de que é obrigatório e que se faz só nesta altura. Como tudo é excesso - a generosidade, o açúcar, o furor aquisitivo - o tempo seguinte é de ressaca, e com a restrição calórica vem a restrição do afecto. A contenção de tudo, mesmo do que não devia conter-se.

Com o fim do ano vêm os propósitos para o ano seguinte. Pedem-se doze desejos, dizem-me, o que parece ser um exagero: que direito temos de exigir essa solicitude ao destino? Deseja-se ter, deseja-se ser; ambicionamos fazer, ir, estar - melhorar. Tenho um histórico longo de propósitos, que são os objectivos e metas da vida empresarial. Tenho um histórico igualmente extenso de resoluções, que vão do perder peso ao deixar de ser isto ou aquilo para passar a ser isto ou aquilo. O que quero ser hoje já não tem interesse suficiente amanhã porque as circunstâncias se alteram, assim como as pessoas e os cenários. Por vezes queremos mudar em função de interlocutores ou realidades determinadas, um pouco como se o céu, que é o destino de cada um, fosse uma estratégia definida em função do oponente, não do farol de cada um, como dizia um destes dias o ATM

Ontem, como faço na generalidade dos Domingos, fui à missa.  E dei por mim a pensar em tudo: nos propósitos, num sms que me haviam mandado e que mencionava a conquista da santidade e a plenitude da vida, no que tenho de fazer ou deixar de fazer. Tudo era pequenino, porque as nossas vidas podem não ser maiores do que um braço que não alcança nada. Depois lembrei-me do propósito maior, todo ele assente numa frase do evangelho do dia: E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino.

Sigamos a estrela, que de mais não precisaremos. E que já é desafio bastante. 

JdB

5 comentários:

Anónimo disse...

Não porque seja ambicioso ou vaidoso, mas porque sou ignorante e frágil, não sigo uma estrela mas sim uma constelação de estrelas que são minhas guias e inspiração. O JdB é uma delas e peço que me continue a brilhar em 2016 porque a parte da galáctica sob sua luminosidade é de muito breu.....

JdB disse...

Bondade sua, bondade sua. Seguir-me pode ter duas valências: por onde eu tento ir é bom, pelo que seguir-me acrescenta valor; mas também seguir-me por instinto de protecção, não vá eu atirar-me do abismo...

Anónimo disse...

Venho informar que vou deixar de me preocupar com comentários porque no blog se executa a censura. Quem não quer ser cordeiro... coxeia ou mente.
A omissão é uma forma tola de mentir. Se não querem publicar, basta um aviso de «Xpto: comentário eliminado». Xpto ficará a perceber.
Ano péssimo; não merecem nada de bom.

Anónimo disse...

Mais. Quais Evangelhos quais coisas. Fariseus.

JdB disse...

Anónimo: Agradeço os seus comentários, ainda que ofendido. Espero que acredite em mim quando lhe digo que neste estabelecimento não se "executa a censura". De facto, não tenho QUALQUER registo de comentários de anónimo para além do que foi publicado logo de manhã e ao qual respondi. Ao contrário de outros blogues, onde a liberdade é total, este blogue "executará a censura" se o comentário for insultuoso ou fortemente desrespeitador dos meus princípios mais básicos: a Família, a Igreja Católica, o direito à vida, etc. Não sei se o(s) seu(s) comentários se enquadrariam nesta classificação. Não os vi, não me chegaram ao computador.
E depois, fará sentido censurar um/uns - que não sei se seriam inócuos - e não censurar os que são mais agressivos?
Volte sempre - e tente comentar de novo, que talvez tenha havido um desalinhamento tecnológico.

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