quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Do regresso a casa

Close to Home – Eight Birds (fotografia de Marius Rustad) 

Há cerca de duas semanas escrevi um post sobre fugir de casa. Hoje, num sentido totalmente inverso, apetece-me escrever sobre regressar a casa. Afinal, como sempre afirmei, o encanto de viajar reside na certeza do retorno. É o regresso a casa - a certeza do regresso a casa - que torna possível, desejável, e até encantador, a procura de paragens longínquas, o exercício de se fazer uma mala ,antevendo o gozo de a desfazer mais tarde para repor as peças de roupa e outros artigos nos seus lugares de origem. 

Na sua música Keep The Customer Satisfied, Simon & Garfunkel cantam uma frase que tenho vindo a usar de forma ligeiramente diversa, para mim ou para outros: gee it's great to be back home. Por outro lado, num post de 2ª feira passada sobre África usei uma expressão para a qual me chamaram a atenção: afirmei que tinha vivido dois meses no Zimbabwe. Não afirmei que tinha estado no Zimbabwe ou que passara um tempo no Zimbabwe. O verbo utilizado foi viver. Significa isto, portanto, que aquela foi a minha casa.  Ou pelo menos assim a considero, sendo que o verbo traduz uma convicção talvez inconsciente. 

O que é regressar a casa? Talvez mesmo se possa perguntar: o que é a casa de cada um? Durante dois meses estive aboletado num espaço que não era meu, no qual eu não mandava e no qual os meus pertences ocupavam gavetas de um quarto e de um armário de casa de banho; quando entrei sabia quando ia sair. E no entanto, apesar de toda a autoridade inexistente, da duração completamente definida da estadia, da autonomia bastante limitada com que circulava, foi lá que vivi dois meses. Aquela foi a minha casa, porque as circunstâncias eram especiais e totalmente independentes de pertences, de relações de patrão / empregada, de decorações ao meu gosto. Havia uma dimensão que se sobrepunha a tudo. Foi ali que encontrei uma casa.

Regressar a casa pode ser mais do que meter a nossa chave na nossa fechadura da nossa casa. Regressar a casa pode ser mais do que voltar ao fim de um dia de trabalho para um espaço que está em nosso nome, fruto de mérito ou herança. Regressar a casa pode ser mais do que reentrar no imóvel onde começámos um projecto afectivo qualquer, onde a disposição das coisas ou das rotinas tem a nossa assinatura. Regressar a casa pode ser tudo isso - e é natural e saudável que assim seja. Mas regressar a casa também pode ser a visão das luzes que se ligaram para receber quem retorna, o fogão que se acende para aquecer um ambiente ou uma malga de sopa, a ideia de um espaço que se agita para abraçar quem volta de viagem, de uma jornada de trabalho, de uma ida à escola. Regressar a casa pode ser, afinal e sobretudo, a ideia de alguém à nossa espera - a acender luzes, a aquecer o jantar, a ligar um aquecimento.  Alguém que espera por nós, não intuitivamente, mas na realidade.

JdB

1 comentário:

ACC disse...

gosto destas tomalidades de uma mesma cor.
A nossa casa é sempre o local, circunstância, acontecimento onde nos sentimos amados.
Digo eu que já tive a sorte de me sentir em casa e sempre que regresso á Africa, volta o cheiro, o calor, a imensidão e a simplicidade dum colo onde fui muito feliz

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