sábado, 28 de janeiro de 2017

Caminho marítimo para a Índia (II)

De Lisboa perguntam-me: que cor tem a Índia? Qual o cheiro da Índia? A resposta é: ainda não sei. Sei que quando cheguei a Harare percebi qual era, para mim, o sentido dominante: a visão. E com os olhos eu via uma cor que se sobrepunha a tudo: cores secas, castanhas, verdes escuras, talvez. E via a lonjura, o espaço sem fim, o caminho até ao fim da curva do horizonte. Fui a primeira vez, talvez, que verbalizei uma sensação dominante relativamente a uma cidade.



Ontem fomos passear a Nova Deli. O que é o cheiro dominante? Não sei, talvez não haja. O que é a cor dominante? Não sei, talvez não haja. O que é dominante em Nova Deli? O caos. Há uma multidão de gente na rua, uma multidão de carros na estrada. Gente em circulação sem parar, carros que não respeitam semáforos, traços contínuos, que buzinam sempre que aceleram ou sempre que travam, que constituem uma quarta faixa apertada em estradas onde só há três, que contornam um atrelado deixado na berma de uma via rápida (enfim, nada é muito rápido...). Há gente que buzina porque o semáforo está verde, porque está encarnado, porque se está parado ou a andar. 


Noutro sentido, que comprova um pouco do que estou a dizer, Nova Deli não é uma cidade fotogénica. Isto é, é uma cidade onde, para além de uma alameda muito larga ladeada de bonitos edifícios e onde circulam paradas militares, nada há que justifique uma fotografia: não há uma esquina bonita, uma praça onde o sol bate de raspão, um renque de lojas finas numa arcada ligeiramente assimétrica, uma luz mortiça que ilumina uma estátua. Não há um pormenor que justifique uma fotografia, um ângulo interessante, um zoom revelador. Nova Deli é uma cidade para ser filmada, não para ser fotografada - há movimento, ruído, migração permanente de pessoas e carros. Se é uma cidade bonita? Não, não é. Muito pelo contrário.

JdB   


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