segunda-feira, 7 de maio de 2018

Ainda da poesia (para o ATM)

Marraquexe, Abril de 2017


Referindo-me, uma vez, ao conceito directo das coisas, que caracteriza a sensibilidade de Caeiro, citei-lhe, com perversidade amiga, que Wordsworth designa um insensível pela expressão:

A primrose by the river's brim 
A yellow primrose was to him
And it was nothing more.

O texto acima foi escrito por Álvaro de Campos e intitula-se Notas Para a Recordação do Meu Mestre Caeiro.  E continua:

E traduzi (omitindo a tradução exacta de «primrose», pois não sei nomes de flores nem de plantas): «Uma flor à margem do rio para ele era uma flor amarela, e não era mais nada».

O meu mestre Caeiro riu. «Esse simples via bem: uma flor amarela não é realmente senão uma flor amarela». 

***



Now Ireland has her madness and her weather still,
For poetry makes nothing happen: it survives
In the valley of its making where executives
Would never want to tamper, flows on south
From ranches of isolation and the busy griefs,
Raw towns that we believe and die in; it survives,
A way of happening, a mouth.

In Memory of W. B. Yeats (W. H. Auden, 1907 - 1973)

A morte de Wordsworth precedeu a de Auden em 120 anos, mais coisa menos coisa. Mas há algo que os liga - e não é a língua inglesa, obviamente. É, talvez, uma espécie de descrença na poesia, ou uma aparente ideia de que a poesia não faz nada acontecer (for poetry makes nothing happen). Uma flor amarela não é mais do que uma flor amarela. 

É curioso, no entanto, que a frase que revela a descrença de Auden na poesia tenha sido escrita num poema; e é também curioso que seja em memória de um poeta, Yeats - um dos maiores - que foi um activista, um político, para além de escritor. 

O mundo viveria sem poesia, nomeadamente a daqueles poetas, como diz causticamente o meu querido amigo ATM, cuja poesia é uma fantochada, ou um barrete, porque não querem dizer nada nem fazem sentido? Sim, viveria, porque uma poesia não salva o mundo, como A Ronda da Noite de Rembrandt, embora sendo um dos mais perfeitos quadros da história da pintura, não salva o mundo. Ou uma escultura, ou um romance, ou outra manifestação de arte. Para algumas pessoas, como para Caeiro, uma flor amarela é uma flor amarela. 

A poesia pode ser observado pelo lado de quem a escreve e pelo lado de quem a lê. Caeiro lê flor amarela, porque não se deixa possuir pela metáfora, pela analogia, pela imaginação. Caeiro não diria a ninguém "és uma flor amarela", porque ninguém, na sua mente, é uma flor amarela. Ele diria "és como uma flor amarela", porque isso permite a existência de duas entidades - flor amarela e pessoa - distintas. Nesse sentido, "flor amarela" poderá ser usada com a mesma ligeireza com que se usaria "moeda de um tostão" ou "funil" ou "colecção do Tintin". Podemos ser como isso tudo. Não podemos é ser isso tudo. 

A poesia salva o mundo? Não; como diria alguém, salva uma hora - a precisa hora em que o poeta escreveu aquele poema. Salva-se ele, ao deixar-se possuir por aquilo que lhe tira os pés do chão. Salva-se ele, salva-se o Rembrandt, salva-se o Beethoven ou o Ennio Morricone quando constroem qualquer coisa que os pacifica com o mundo.  E se todos nós nos pacificarmos com o mundo, o mundo está em paz. 

Poetry makes nothing happen? Talvez não seja bem assim...

JdB 

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