terça-feira, 15 de maio de 2018

(Re)publicações dos dias que correm *

Do cenário

Abotoou o casaco assertoado azul que lhe assentava melhor desde que emagrecera por uma conjugação de nervos e disciplina, e pegou no microfone. Armado com competências de criatividade linguística, e temperado por uma convicção católica pré-Vaticano II [cruzes, inferno, Geena onde o verme não morre e o fogo nunca se apaga, culpa, etc.] disse com voz clara: 

Temos dois caminhos. Um sobe e o outro desce. 

Pelos trabalhadores [ou melhor, colaboradores, nesta modernidade inconsequente de achar as pessoas os nossos melhores activos] perpassou uma aragem de esperança, porque uma alternativa abre essa porta. Alguns sentiram fisicamente essa aragem, como se fosse a materialização de um porvir potencialmente feliz. 

O caminho que sobe leva-nos ao calvário. O caminho que desce conduz-nos ao inferno. No fundo é isto. Vamos reduzir e vamos aumentar, para que a empresa sobreviva. Aumentaremos os sacrifícios, reduziremos as regalias. 

O Director-geral coçou pensativamente uma parte da barba e rematou, já num tom de barítono em fim de vida útil: espero não ter sido excessivamente optimista.

Os trabalhadores entreolharam-se e identificaram a aragem de esperança: uma porta aberta no fundo do refeitório e uma corrente de ar com cheiro a vitela assada à lafões. 

Dos personagens

Alberto: engenheiro informático, especialista em sistemas da Qualidade, tem 32 anos e um casamento sem descendência que durou 14 meses. No fundo cumpri o ciclo de Deming (Plan, Do, Check Act). Quando fizemos a revisão do sistema havia demasiadas não conformidades. Não nos certificámos e a Júlia trocou-me por uma auditora chamada Laura, natural das Minas de S. Domingos, especialista em 6 Sigma. Monárquico, candidatou-se ao Observatório da Restauração por erro de raciocínio. Não estudou os conjurados e engordou dez quilos. 

Rogério: arquitecto, descontente com a profissão, concorreu à carreira diplomática defendendo o tema: O efeito de uma mesa descomposta no fracasso das negociações. Contribuições para o estudo da viuvez na história da diplomacia. Chumbou e remeteu-se a ansiolíticos durante dois anos, até ter-se cruzado com uma chinesa especialista em acupunctura, arte mandarim e churrasco no carvão. Têm dois filhos - Chiang e Pureza - que frequentam a catequese e o full-contact. 

Paula. É personal trainer mas já foi analista de laboratório. O trabalho em turnos baralhou-lhe o metabolismo, conduzindo-a a insónias terríveis e a uma especialização em televendas com sucesso em madrugadas invernosas. Tem uma altura média, pernas demasiado ginasticadas para a estética feminina, cabelo castanho comprido e uns olhos tristes. O seu sonho mais simples era ser feliz, conceito que não passa, como ela diz, por ajudar gordos a enfiarem-se num smoking para uma festa pindérica. 

Alberto e Rogério. Face à crise da empresa (reler Do cenário, acima) ambos têm excesso de tempo, pelo que entenderam que era altura de cultivar meticulosamente o físico (em itálico, porque a expressão é roubada). Até ao final da Primavera, disseram ambos. Contrataram Paula para um esquema em outdoor. Paredão do Estoril, das 7 às 8 da manhã. Parece-lhe bem, Paula? A ela pareceu-lhe bem, sempre podia comprar aquela frigideira indestrutível que anunciam por volta das 5 da manhã.

A história

Três vezes por semana, pelas 6.30h da manhã, os alunos recebem um sms de Paula com informações preciosas relativamente à meteorologia: humidade, visibilidade, nascer e pôr do sol, pressão atmosférica, ponto de orvalho, nível de UV, intensidade e direcção do vento. Seguem para o paredão onde o trio se cruza com as mesmas pessoas, inclusivamente alguém que os observa muito, como se fosse contar uma história e precisasse de vigiar os intervenientes. Durante um hora fazem flexões, elevações, treinam exercícios específicos, aprendem a função dos músculos. Paula é diligente, insistente, persistente. Rogério e Alberto perdem peso, eliminam adiposidades, graçolam sobre a dureza dos abdominais e a largueza das calças.

Com o decorrer do tempo Alberto, o engenheiro informático especialista em qualidade, demora o olhar sobre Paula. Onde antes via um tecido sintético de gosto indiferente e umas coxas demasiado musculadas, agora vê uma roupa suada em cima de um corpo suado. O que era odor passou a ser sensualidade, e a perspectiva de puxar aquela licra para desnudar uma personal trainer surge-lhe como um erotismo que perturba os sentidos. Os olhos tristes cativam-no, suscitam-lhe mãos piedosas por cima de um corpo com músculos trabalhados. [Poderia alongar-me na descrição das sensações, mas o texto vai longo e a clientela debanda para paragens mais sintéticas. Salto três cenas: a ideia de um croissant e um galão escuro na Garrett, o primeiro beijo discreto nuns lábios que se entreabriram, um convite claro sacudindo migalhas distraídas do fato de treino: gramava fazer amor contigo!].

Beijam-se intensamente no quarto de Paula [poderia descrever o quarto: posters de gatos, fotografias de um fim de semana em Tavira e de uma viagem a Marrocos, roupa espalhada num desarrumo de solteira, etc., mas encurto]. Alberto enebria-se com os cheiros, revolve os olhos, suspira ao puxar a licra para cima e para baixo [enfim, sempre são duas peças...] e não reprime um gemido ao ver a personal trainer, nua, esplêndida, espojada numa cama do Ikea comprada a preços de necessidade. Ela chama-o e ele avança, decidido, sôfrego, desejoso. Nesse momento cai no chão retorcido de dor, e a dor é tanta que obscurece o ridículo de um homem nu no chão [parquet mal encerado], enojado do suor próprio e alheio, raivoso contra a sua burrice de se atirar à ginástica, algo que só os Homens, de entre o reino da Criação, fazem [como beber leite em adulto]. Já não há desejo, há dor. Paula é apenas uma chamada de emergência numa nudez confrangedora, suada, com umas pernas demasiado musculadas, deixando no ar um hálito a galão escuro.

São os nadegueiros, Alberto, eu já te tinha dito que os nadegueiros - tanto o grande como o pequeno - tinham de ser mais treinados... Queres também fazer sábados? 

JdB

* publicado originalmente em 2 de Outubro de 2012    

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