terça-feira, 1 de maio de 2018

close reading de um poema | o poeta revela-se

Taviani (o nome do poema remete para os dois irmãos-cineastas italianos, cujo irmão ainda vivo faleceu recentemente)

ali por mil novecentos e oitenta e tal (o poeta remete para uma cronologia clara, claramente intencional, fornecendo coordenadas talvez importantes para a compreensão das subtilezas do poema)
o cinema salvava miúdos com fome de mundo. (o cinema sempre foi uma lanterna mágica, uma catedral, lugar de sonho e de vidas alternativas, maiores do que a própria vida; refere-se a si próprio como um miúdo, estabelecendo um jogo com o tempo actual e uma sinalização para com os leitores da mesma geração ou para os leitores em geral, já que todos fomos miúdos, um dia)
entre ciclos na televisão, cinemas de província (os anos oitenta, a importância dos ciclos de cinema, no canal público RTP2 como formadores do gosto cinéfilo, como uma janela para o mundo, visto a partir da província - complementa, assim, tempo e espaço)
e ocasionais saltadas ao grande carrossel, (possível referência à grande cidade, com as suas luzes, a sua feérie, a sua velocidade colorida)
olhos espantados por espantoso espanto (o poeta utiliza, propositadamente, um figura de estilo exagerada, jogando com a fonética e a redundância - talvez remetendo para um estilo adolescente, que enforma todo o poema)
descobriam pepitas de ouro puro ouro. (a importância preciosa, duplamente preciosa, veemente, das descobertas cinéfilas como decisivas para o ethos da personalidade e para o fruir estético da mais elevada beleza)

tanto devemos aos irmãos ali de cima. (o poema ousa a elegia, através de um curioso efeito de indexação ao título, num jogo entre planos - o poeta revela, aqui, um módico de artifício - contra uma poesia naturalista?)
por exemplo: aquele filme que juramos ter visto, (já somos nós, um plural, ou seja - o leitor caíu na rede, reforçando a universalidade dos versos, do poema, do sentido)
mas de cujo rasto ninguém mais soube, (a escolha desta formulação acentua a raridade da beleza, fogo-fátuo que deixou marca, mas subjectiva - no sujeito, nos sujeitos -, sem sinal de registo nos mapas do mundo civil)
em que descobrimos, maravilhados, (a infância, sempre a infância, como lugar de maravilhamento, de renovado e puro espanto)
que o cinema vitalista e pagão, telúrico, (claramente, o poeta fala de um filme concreto, uma adaptação de textos de Pirandello, atravessados por elementos populares, historietas habitadas por personagens caracterizadas por profissões, estatutos sociais ainda ligados à terra, ao campo, por contraponto à cidade moderna - um filme antimodernista, dito de outro modo)
era bem mais do que kitsch e folclore. (a importância de olhar para lá do óbvio, dado o filme poder parecer, a um olhar desatento, demasiado garrido, popularucho, banal, assente em ritos e rituais folclóricos)

por entre as historietas, a vossa infindável (o filme é composto, à boa maneira italiana, por diferentes episódios, sem ligação aparente)
ternura pelos homens - mesmo se pobres diabos - (a razão da admiração pelos cineastas - a ternura por aquilo, por aqueles que filmam, mesmo quando as personagens representam pobres de espírito, criaturas venais - ainda assim, formidavelmente humanas)
encerrava uma daquelas lições para a vida: (aha - tudo se começa a revelar; a admiração não é estética, na sua essência, mas uma outra coisa..)
todos merecem a sua oportunidade na vida (a moral do filme, visto daqui - o que ficou dele, mesmo que tal não corresponda, décadas depois, ao filme real, sendo antes o filme subjectivo lembrado - logo, mais real do que o real)
de todos os demais  - coisa não pouca, (continuação do conto moral)
se pensarmos cuidadosamente, com amor. (coisa que os irmãos-cinestas fazem, pensar cuidadosamente, tratar com amor as pessoas dos seus filmes, logo também os espectadores dos seus filmes - isto é, nós)

a vós, irmãos, e ao corvo que atravessa o filme, (fraternidade: irmãos entre si e irmãos do poeta e/ou nossos irmãos?; referência ao corvo que une os diferentes quadros do filme, que nada mais têm que faça raccord)
devo aquela coisa que só a infância tem: (a dívida afectiva para com os irmãos Taviani e para com o cinema, em geral)
o esbugalhado sorriso perante continentes a brilhar, (a infância, a adolescência - sorriso esbugalhado, desajeitado, sempre franco, sincero, sem reservas ou segundas intenções - como na vida adulta? hipótese possível; o brilho do que é novo, dos continentes novinhos em folha, perante os seus "descobridores")
catedrais inteiras reflectidas nas íris de irmãos (catedrais, obras incríveis do génio humano - como o cinema - e também templos, o cinema sempre como uma espécie de culto elevado, de cerimónia espiritual, mística se quisermos; nova referência à fraternidade, uma das ideias fortes desta poética)
(como nós) de irmãos mais sábios (como vós). (finalmente, a revelação do que já se suspeitava: somos irmãos, poeta e leitor(e)s, e somos irmãos dos irmãos-cineastas - somos todos irmãos)
ergo-vos o meu copo de vinho antigo futuro. (uma verdade sem tempo, a enunciada na explicação imediatamente anterior: do passado ao futuro, nada mudará o facto de os homens serem irmãos, nesta ética particular do poeta, que aproveita, no mesmo movimento, para, publicamente, expressar o seu louvor a quem está na origem do filme, da tese e do próprio poema)

a terra tremia. e era delícia. tudo na vida. (recurso a um título de um outro famoso filme italiano - "a terra treme" -, reforçando o carácter especial de certas coisas importantes, de certos momentos por nós vividos; e utilização, numa pequena evocação privada, de fragmentos de versos de um poema fundamental para o poeta, escrito pelo espanhol Antonio Gamoneda)
película impossível tornada tangível realidade. (o cinema salva, porque torna real um outro mundo, um mundo em que todos os homens são, de facto, irmãos)

gi.

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