segunda-feira, 14 de maio de 2018

Poemas dos dias que correm

fui ao psiquiatra e mandei-o tomar banhos de sol.
era deprimente todo aquele espectáculo
e era ainda mais deprimente ser eu o único espectador.
disse-lhe, enquanto mirava a luz, lá fora:
- doutor, não me leve a mal, mas tenho pena de si,
todos os dias a repetir a mesma performance
e nunca melhora a qualidade artística do acto.
nunca mais lá voltei, claro. louco talvez, mas não idiota.
passados uns anos, olhei para o parque da cidade
e lá estava ele, igualzinho, a pregar qualquer coisa
a um desgraçado qualquer que se sentou junto dele.
ainda pensei intrometer-me, parar aquilo,
mas, que diabo, mesmo em mim há algum método científico:
por exemplo, guardar o apocalipse a uma distância segura.
de maneira que voltei a beber. não deixei de sofrer,
não conheço ninguém que tenha deixado.
mas ao menos poupei-me ao desolado embaraço
de assistir à patética performance
de um cego que finge ver.

gi.

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