As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
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22 janeiro 2026
13 novembro 2025
11 março 2024
02 março 2023
O Fado, canção de vencidos *
* do novo album da Carminho, a ser editado a 3 de Março.
Letra (de Carminho):
Neste quarto tão pequeno
Que eu pensava ser só meu,
Infiltra-se um tal veneno
Que é a solidão e eu.
Juntos não somos um todo,
É sufocante o vazio.
E eu já nem sei de que modo
Foi invadido plo frio.
Agora já somos três
Mas esses não fazem um,
Nem ao entrares tu me vês,
Este quarto é de nenhum.
Coração que se partiu,
Que está sem nada pra dar,
É este quarto vazio
Onde nem lá cabe o ar.
01 abril 2022
29 janeiro 2019
Duas Últimas
O que é fado?
Alerto para a construção da frase na qual omiti propositadamente o artigo definido "o", com o qual se transformaria a pergunta numa sugestão de História do fado. Não sou competente para isso nem pretendo fazê-lo. Interessa-me apenas divagar, em meia dúzia de parágrafos, sobre o que podemos considerar fado, ou apenas genericamente música portuguesa. Até que ponto as alterações - introdução do acordeão, do contrabaixo, da bateria, etc. - são apenas alterações menores ou, pelo contrário, desvirtuam o que é a essência do fado. Pode sempre alegar-se a Amália a cantar Camões ao som do piano de Alain Oulman que, por acaso, já tinha feito a música... Pois é, será por tudo isto que a discussão não tem fim.
Mão amiga - que por acaso está hoje de parabéns - sugeriu-me a música abaixo:
Falamos de fado? O facto de ter um cheiro de Amália e a voz de Camané permite classificar-se esta música como fado? E se ouvirmos Talvez, de Carminho?
É um facto que Talvez tem (parece-me) música de autoria de Mário Pacheco, reconhecido compositor e tocador deste género de música. Imaginemos agora que ouvíamos esta mesma música cantada pelo Fausto ou pela Maria de Lurdes Resende, dois músicos que não se celebrizaram por serem fadistas? A classificação como fado seria tão imediata como depois de ouvirmos a interpretação de Carminho, uma reconhecida fadista?
O que é fado? Não sei, e talvez não queira saber, porque assim posso alimentar estas dúvidas inofensivas e que permitem conversar-se. Como lia um destes dias num livro, às vezes, uma pessoa tem de falar para descobrir o que pensa.
JdB
04 dezembro 2018
Duas Últimas
Mais um disco acabado de sair. Deixo-vos com Se Vieres, letra de Carminho e música do Fado Santa Luzia, e O Começo, com letra de Pedro Homem de Melo e música do Fado Bizarro.
JdB
13 março 2018
Duas Últimas
Soube desta versão - ou foi-me relembrada esta versão - ouvindo telefonia numa manhã chuvosa de trânsito. Fui à procura dela - e gostei. Ao meu lado alguém me dizia, aos primeiros acordes, que já estava desinteressada.
Há vários factores que me fazem gostar:
1) ser a Carminho, de quem sou apreciador;
2) ser acompanhado por um acordeão. Sou bastante conservador em termos de fado (a bem dizer em termos de quase tudo...) mas gostei do contraste.
3) fiz uma associação que para mim funcionou - o espectáculo era de solidariedade por uma desgraça (enfim, por que outro motivo seria...?), e a versão conferiu ao fado uma (talvez) tristeza suplementar que me pareceu casar bem.
4) gosto que se use a expressão "anelos" [ó meu amor marinheiro / ó dono dos meus anelos / não deixes que à noite a lua / roube a cor aos teus cabelos] que o dicionário diz que significa desejo ardente, ansiedade.
A tristeza, como saberão os que me conhecem ou vão tendo paciência para o dono e editor do estabelecimento, não me entristece. Dá apenas uma certa rugosidade macia à vida.
JdB
16 agosto 2016
Duas Últimas
Mais uma sugestão do meu filho, na sua playlist de Verão. Eu, pelo título, é mais saudade do Outono que tende a demorar-se, tal é o meu incómodo com o calor que me derrete energia, criatividade, decência e bons costumes. Não quero chuva, confesso, mas uma brisa fresca, uma humidadezinha, um ar menos seco e uma relva menos amarela.
Sejam felizes, ainda que cheios de calor.
JdB
Retirado do álbum "Canto" (2014)
Música: Marisa Monte
Letra: Arnaldo Antunes
Animação: Nicolau.pt
CHUVA NO MAR
Coisas transformam-se em mim,
É como chuva no mar,
Se desmancha assim em
Ondas a me atravessar,
Um corpo sopro no ar
Com um nome p’ra chamar,
É só alguém batizar,
Nome p’ra chamar de
Nuvem, vidraça, varal,
Asa, desejo, quintal,
O horizonte lá longe,
Tudo o que o olho alcançar
E o que ninguém escutar,
Te invade sem parar,
Te transforma sem ninguém notar,
Frases, vozes, cores,
Ondas, frequências, sinais,
O mundo é grande demais.
Coisas transformam-se em mim,
Por todo o mundo é assim.
15 abril 2015
A sensibilidade de um conjunto (aparentemente) disjunto
A Wikipédia, na sua incomensurável sabedoria e
requinte de português, diz-nos isto:
patinagem no gelo (português europeu) ou patinação
no gelo (português brasileiro) é o ato de
usar patins com lâminas no lugar de rodas para
deslizar em superfícies cobertas de gelo. Além de ser uma atividade recreativa,
também é usada em vários esportes de competição.
E diz-nos ainda isto:
O fado é um estilo musical português.
Geralmente é cantado por uma só pessoa (fadista) e acompanhado por guitarra
clássica (nos meios fadistas denominada viola) e guitarra portuguesa.
Há a
patinagem artística e há o fado. Países frios e Portugal, uma espécie de
conjunto disjunto, ou conjunto intersecção igual a zero. Acontece que ontem me
mandaram o vídeo que apresento abaixo, onde ambos – o esporte e o estilo musical português - estão em conjunto, numa
harmonia bonita de ver e de ouvir.
Saudades do Brasil em Portugal tem letra de Vinicius de
Moraes (oferecida a Amália Rodrigues, penso que em sua casa) e música de Homem
Cristo. Se fosse fado seria acompanhada por uma guitarra e uma viola. Nesta
interpretação de Carminho penso que será um piano e um contrabaixo. /
violoncelo (?) Ainda é fado?
O que
pensarão os espectadores no recinto e por todo o mundo por onde este vídeo
circulou? Ter-se-ão comovido com a toada, mesmo não percebendo a letra? Já aqui
escrevi sobre isso, talvez faça sentido. É possível que uma ou outra pessoa se tenha agitando interiormente, achando que tudo lhe era dirigido, mesmo que não percebesse os versos.
Seria o casal lituano, casal na prova e na vida real?
Seria o casal lituano, casal na prova e na vida real?
Fica o
agradecimento ao ATM, que teve a gentileza de partilhar estes minutos bonitos e
sensíveis.
JdB
Nota: imagem com letra do fado tirada daqui
JdB
Nota: imagem com letra do fado tirada daqui
24 fevereiro 2015
Duas Últimas
Um dos exercícios preferidos na actualidade pela
generalidade dos “media” é fustigar os alemães o mais que podem e sabem. Tenho
é constatado que, se por um lado podem alguma coisa, já que a Alemanha é longe
e Portugal mais ou menos uma democracia, por outro sabem pouco, e a asneira é
livre.
Exemplificando, temos que os duros teutões são culpados
de terem originado 2 guerras mundiais que lançaram o caos na Europa e apressaram
a definitiva ascensão dos EUA a potência mundial, de terem recuperado de forma
extraordinária após a 2ª delas com a ajuda, conveniente para todos os
envolvidos, de apoios financeiros dos vencedores, não tendo usado de medida
idêntica na hora actual de penúria de outros (situações a meu ver não
comparáveis!), ou de quererem esmagar o sul incumpridor e solarengo com uma
austeridade sem fim à vista.
Como se adivinha, situações de gravidade muito
diferente, mas que servem para baralhar e confundir o pessoal menos avisado ou
mais útil, ao bom estilo leninista….
Quanto aos alemães, pressinto que por lá continuarão na
vidinha deles, que passa por trabalhar bem, produzir melhor e marcar mais golos
do que os parceiros. E, se não se importam e não for pedir muito, exigir em
coro com outros que quem incumpre mude ou os maus hábitos ou as regras
vigentes, se for capaz. Ou então…de parceiros. E porque no sul nem tudo é de
descartar, continuam a surpreender-se com as coisas de qualidade que por cá se
vão fazendo. Porque também as há, e felizmente bastantes.
Como o vídeo junto comprova.
Espero que concordem.
fq
05 julho 2013
Duas últimas
Os jornais falam do sucesso que Carminho e António Zambujo tiveram, no passado dia 12 de Junho, no Prémio da Música Brasileira 2013, realizado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Fica a pequena reportagem que encontrei no site Música Portuga, ó pá!:
Foram convidados para fazerem parte das atrações do evento que neste ano homenageou o Maestro brasileiro Tom Jobim. Interpretaram a música Sabiá de Jobim e Chico Buarque. Música essa, aliás, que foi escrita no período da ditadura militar no Brasil e narra a estória de um personagem exilado em sua própria terra...
A música foi apresentada pela primeira vez durante o III Festival Internacional da Canção e foi vaiadíssima (nessa época ainda não estava na moda o "politicamente correto"). Mesmo assim foi a canção premiada naquele ano.
A apresentação de Zambujo e principalmente de Carminho foi largamente elogiada por Caetano Veloso e longamente aplaudida por todos os presentes (que eram em sua maioria músicos e personagens da industria fonográfica brasileira) como um dos pontos altos da cerimônia.
A música foi apresentada pela primeira vez durante o III Festival Internacional da Canção e foi vaiadíssima (nessa época ainda não estava na moda o "politicamente correto"). Mesmo assim foi a canção premiada naquele ano.
A apresentação de Zambujo e principalmente de Carminho foi largamente elogiada por Caetano Veloso e longamente aplaudida por todos os presentes (que eram em sua maioria músicos e personagens da industria fonográfica brasileira) como um dos pontos altos da cerimônia.
Deixo-vos com a versão dos dois portugueses, assim como a da Elis Regina. Fica ainda a letra.
JdB
Sabiá - Chico Buarque e Antônio Carlos Jobim
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De um palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor Talvez possa espantar
As noites que eu não queira
E anunciar o dia
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De um palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor Talvez possa espantar
As noites que eu não queira
E anunciar o dia
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Sei que o amor existe
Não sou mais triste
E a nova vida já vai chegar
E a solidão vai se acabar
E a solidão vai se acabar
Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Sei que o amor existe
Não sou mais triste
E a nova vida já vai chegar
E a solidão vai se acabar
E a solidão vai se acabar
05 dezembro 2011
Vai um gin do Peter’s?
Novembro
foi palco de vários momentos maiores, que vale a pena recordar.
No coração de Lisboa
A meio do
mês, mais propriamente no Sábado 12 de Novembro, o anoitecer no Largo Camões tornou-se
memorável. A transbordar de música e dança, numa onda de festa contagiante.
Naquele
entardecer, as luzinhas de Natal faiscaram ao som do «All together now»,
trazendo para a rua a animada campanha da Optimus, que investe num refrão simples,
a funcionar em crescendo para juntar o maior número de vozes ao solista que
lança a música.
Em poucos
segundos, o Chiado estava no seu melhor, instalando-se um ambiente caloroso, em
que a multidão se organizava espontaneamente em volta do All Together Now, sem tensões nem atropelos, apesar do número de adeptos
aumentar segundo a segundo, de forma imparável. Ali, terá sido difícil alguém entediar-se
por pouco ou nada fazer, apesar de poder estar em situação crítica. Quantos
hoje não estão! Ou alguém continuar apenas atolado
nas preocupações legítimas por um futuro incerto. Ou alguém ficar-se pelo frenesim
atordoante do seu dia-a-dia. Um verdadeiro rastilho de alegria irrompeu naquele
recanto de charme, que mistura a arquitectura antiga com a vanguardista.
Já tinha
visto o spot na publicidade das salas de cinema. Mas faltava ver em acção a alegria
deste todos por um e um por todos,
porque cada um encontra rapidamente lugar no seio da multidão esfusiante, que
percorre um caminho longo para arrebanhar mais cantores. Apetece entrar naquele
cordão de gente feliz:
Fado
No último
fim-de-semana de Novembro, o mundo soube que o fado tinha sido reconhecido
Património Imaterial da Humanidade. Assim, mais uma obra de arte enriquece o friso imenso das criações humanas, desde
o alvor dos tempos.
Será das
expressões culturais mais impregnadas de portugalidade ou não cantasse a
palavra que apenas tem existência na nossa língua: saudade. Claro que há termos
próximos noutros idiomas, embora lhes falte a poderosa e estranha fusão de
claros-escuros que encontramos na lusofonia.
Com o fado,
recuperam projecção os fadistas e uma boa dose de um passado nacional, que tem
sido irresponsavelmente ignorado. Num certo sentido, todo o país está de
parabéns por este reconhecimento inequívoco do contributo pátrio para a Arte
global.
Como
efeito colateral benigno, quem ocupa o nº 1 na venda de discos em Espanha é uma
das promissoras fadistas da nova geração – a Carminho – descendente de uma
linhagem de renome no métier. Filha da Teresa Siqueira, é carinhosamente
conhecida pelo petit-nom, dispensando apelidos, a lembrar-nos que está em casa,
em família, quando canta o fado.
Numa
actuação soberba do «Perdóname»(1), em duo com o artista
espanhol Pablo Alborán, Carminho passeia-se nas bordas do Tejo, junto aos
palacetes em tons ocre e às colunatas de pedra do Terreiro do Paço. Tudo muito
lisboeta. Lindo e soft, semelhante àquela
harmonia fresca das aragens que invadem Lisboa à hora do poente. Misteriosamente,
sentimo-nos em casa:
Nestes
tempos de aparente fragmentação e esboroamento no seio da UE, é curioso que um
dos comentários ao vídeo sublinhe, sabiamente, os méritos da concertação de energias
na lógica do all together. Juntos
temos possibilidade de chegar mais longe: «Cuando
nos unimos surgen cosas como estas. Si
cuando nos unimos somos capaces de hacer maravillas como esta...?»
Se toda a
arte ajuda a rasgar fronteiras – sustentada na universalidade do Belo – a
música será o expoente da capacidade congregadora, por alargar o espaço de
comunhão aos territórios mais intensos
do ser humano, nas profundezas da alma. Talvez por isso o Natal convide à
música:
Maria Zarco
(a preparar o
próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
______________
(1) Vídeo produzido em 2011 pela Trimeca
Estudios y Producciones S.L.
25 outubro 2011
Duas últimas
Não só
não conheço o Pablo Alborán como nunca lhe tinha ouvido o nome. Tenho uma ideia
menos do que vaga da nacionalidade do cavalheiro e não sei onde se enquadra
musicalmente, embora reconheça que este desconhecimento é totalmente irrelevante
para a riqueza das nações.
Acompanho
de forma vaga a carreira da Carminho, se bem que o único disco que ela terá
gravado esteja incluído no meu iPod. Como fadista não a coloco no pódio dos
meus favoritos, mas, não obstante, oiço-a com prazer.
Até ontem
desconhecia este dueto que vos apresento hoje. Mão amiga fez-mo chegar às mãos
e, dado que me parece ser recente no ciberespaço (expressão interessante mas,
quiçá, tecnicamente desajustada), decidi partilhá-lo convosco, multidão anónima
de bons samaritanos que fazem a infinita caridade de me ler.
Os que me
conhecem melhor sabem deste meu desabafo: felizmente não sou especialista de
nada, pelo que divido a generalidade dos temas entre o gosto e o não
gosto. Gostei do dueto e gostei das imagens de Lisboa. No fundo é
isto...
Sintam-se à vontade para desancar tudo, encher
de críticas acesas a caixinha dos comentários, derramar a vossa irritação
musical (ou outra, em havendo...) sobre estes 4'24'' de sonoridade semi-fadista
com a capital do império pelo fundo. Acima de tudo respeitem o editor e dono deste
estabelecimento. Acho que é o mínimo.
JdB
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