sábado, 27 de julho de 2019

Do tempo real *

- Compadre! Sabe como se chamam os habitantes de Évora?
- Todos todos na sê!

***

Antes de se ter inventado, nas suas múltiplas vertentes, o conceito de tempo real, já existia o conceito de tempo real - eram os maçadores. Esta ideia de tempo real está mais divulgada como operações que são executadas e mostradas no exacto instante em que ocorrem. Podemos falar de uma videoconferência, mas podemos falar de um programa de televisão em directo.

A anedota acima talvez seja, de entre as divertidas que vou ouvindo, a mais curta. Nunca uma anedota - género humorístico que deveria ser usado parcimoniosamente, como o tamarindo - atingiu um patamar tão elevado na relação custo benefício: é curta e faz rir. Mais do que isto maça e prejudica a saudável relação entre as pessoas que se querem bem.

Ora, se imaginarmos este diálogo em tempo real, e não como anedota contada ao café, ele demora mais tempo. Dois velhos reformados à sombra do toldo no café central local, uma mão lenta a enxotar as moscas na fase poisante, o cumprimento à vizinha, o cigarro que se acende, a pergunta que se faz e a resposta por que se espera. Ia dizer anseia, mas talvez seja demais. Há, no diálogo, um vagar que o Saint-Exupery apreciaria. 

Um homem saudável, no domínio das suas funções cerebrais - pelo menos essas - conta a anedota em 10 ou 15 segundos. O maçador socorre-se do conceito de tempo real e torna-se num manoel de oliveira da tradição oral. Enquadra, agita os braços, corrige a anedota a meio (o que será o meio de uma piada com duas frases) indaga se os presentes imaginariam a temperatura, faz alusões jocosas aos possíveis nomes dos intervenientes. Quando chega ao fim, há cortes de veias e esgares de ódio. Mas ele - o maçador - usou em pleno o conceito de tempo real, porque a anedota, na sua mente, demorou o mesmo tempo que o diálogo entre os velhos, com o toldo, a sombra, a mosca e o vagar de tudo...

Escusado será dizer que o raciocínio se aplica igualmente ao contar de histórias. Enquadrar uma história sobre o avô que bebeu, a tia que caiu ou o primo que era herói é enquadrar uma história brevemente. Não precisamos do tempo real, da lentidão com que o vizinho empurrava o barco, do cão que ladrava, do gelado que derretia nas mãos de uma criança feliz ao longe. Enquadrar é enquadrar, porque uma história não tem - nem deve ser - uma ópera de Wagner.

Quando perceberem que eu agarrei o conceito de tempo real dêem-me uma palmada nas costas. Se eu não reagir, batam-me com uma pá de ferro. Obrigado.

JdB

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* publicado originalmente a 20 de Novembro de 2014

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