terça-feira, 16 de julho de 2019

Poemas dos dias que correm

Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

António Gedeão, in 'Máquina de Fogo' 

***

Poema da Auto-estrada

Voando vai para a praia 
Leonor na estrada preta. 
Vai na brasa, de lambreta. 

Leva calções de pirata, 
Vermelho de alizarina, 
modelando a coxa fina 
de impaciente nervura. 
Como guache lustroso, 
amarelo de indantreno, 
blusinha de terileno 
desfraldada na cintura. 

Fuge, fuge, Leonoreta. 
Vai na brasa, de lambreta. 

Agarrada ao companheiro 
na volúpia da escapada 
pincha no banco traseiro 
em cada volta da estrada. 
Grita de medo fingido, 
que o receio não é com ela, 
mas por amor e cautela 
abraça-o pela cintura. 
Vai ditosa, e bem segura. 

Como um rasgão na paisagem 
corta a lambreta afiada, 
engole as bermas da estrada 
e a rumorosa folhagem. 
Urrando, estremece a terra, 
bramir de rinoceronte, 
enfia pelo horizonte 
como um punhal que se enterra. 
Tudo foge à sua volta, 
o céu, as nuvens, as casas, 
e com os bramidos que solta 
lembra um demónio com asas. 

Na confusão dos sentidos 
já nem percebe, Leonor, 
se o que lhe chega aos ouvidos 
são ecos de amor perdidos 
se os rugidos do motor. 

Fuge, fuge, Leonoreta. 
Vai na brasa, de lambreta. 

António Gedeão, in 'Máquina de Fogo' 

1 comentário:

Anónimo disse...

Sabe-me sempre bem ler Gedeão.

Que raio de feitio a fada-madrinha não evitou? A empata-fadas (a bruxa) levou a melhor.

Foi um náufrago na Humanidade.

Abraço anón

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