As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
03 junho 2011
Só
19 janeiro 2011
Textos dos dias que correm...
Era oriundo de famílias aristocráticas e descendente de flamengos.
O pai deixou de lhe pagar os estudos e deserdou-o.
Trabalhou, dando lições de inglês para poder continuar o curso.
Formou-se em Direito.
Foi advogado, professor, escritor, político e deputado.
Foi também vereador da Câmara Municipal de Lisboa.
Foi reitor da Universidade de Coimbra.
Foi Procurador-Geral da República.
Passou cinquenta anos da sua vida a defender uma sociedade mais justa.
Com 71 anos foi eleito Presidente da República.
Disse na tomada de posse: "Estou aqui para servir o país. Seria incapaz de alguma vez me servir dele..."
Recusou viver no Palácio de Belém, tendo escolhido uma modesta casa anexa a este.
Pagou a renda da residência oficial e todo mobiliário do seu bolso.
Recusou ajudas de custo, prescindiu do dinheiro para transportes, não quis secretário, nem protocolo e nem sequer Conselho de Estado.
Foi aconselhado a comprar um automóvel para as deslocações, mas fez questão de o pagar também do seu bolso.
Este SENHOR era Manuel de Arriaga e foi o primeiro Presidente da
República Portuguesa.
INDUBITAVELMENTE, OUTRA GENTE .....
08 dezembro 2010
Textos dos dias que correm...

Dá-nos Senhor, neste Advento, a coragem dos recomeços.
Não nos deixes acomodar ao saber daquilo que foi:
dá-nos largueza de coração para abraçar aquilo que é.
Afasta-nos do repetido, do juízo mecânico que banaliza a história,
pois a priva de surpresa e de esperança.
Torna-nos atónitos como os seres que florescem.
Torna-nos inacabados como quem deseja.
Torna-nos atentos como quem cuida.
Torna-nos confiantes como os que se atrevem
a olhar tudo, e a si mesmos, de novo
pela primeira vez.
[Recebido há pouco por correio electrónico vindo de mão amiga]
Texto: José Tolentino Mendonça)
19 agosto 2009
O Barqueiro e o Erudito
- Podes passar-me para a outra margem?
- Sim, claro, são duas rupias.
E o letrado temendo sujar-se ao tocar o barqueiro, entregou-lhe essas moedas.
Quando já estavam a atravessar o rio, e enquanto o barqueiro fazia o seu trabalho, o erudito perguntou:
- Barqueiro, estudaste Sânscrito? A língua em que, sabes, foram escritos os Vedas, os Upanishads, as epopeias do Mahabharata e o Ramayana, todos os Puranas e Upapuranas, a língua de Valmiki e Vyasa, a língua em que foi escrito o glorioso Bhagavad Gita, resumo de todo o conhecimento?
- Não senhor, nada sei de dita língua
- Oh, que desperdício de vida, então nada te posso dizer da beleza de suas estruturas sintácticas, dessas formas sublimes analisadas pelo ilustre Patanjali.
- E sabes, por acaso, Latim? A língua de Virgílio e de Cícero, tão belamente sonora e rítmica, como dizia em seus discursos o grande pretor romano, Quo usque abutere patientia nostra, que significa “Até quando abusarás da nossa paciência”? Oh, Oh, perdeste sem nenhuma dúvida metade da tua vida inutilmente.
- Não senhor, disso também não sei nada.
- Oh que tristeza de vida, então também não terás lido os versos amorosos de Ovídeo e Catulo, ou as tragédias de Séneca. Oh, Oh, Oh, perdeste sem duvida metade da tua vida.
E conheces os mistérios da Geometria?, que permite medir as distancias e as superfícies, classificar os ângulos, reconhecer os tipos de triângulos e fundamentar o cálculo diferencial para, claro poder estudar a Dinâmica dos Fluidos, tão necessário num trabalho como o teu?
- Oh, senhor, nada sei de Geometria
- Bem, bem, bem, oh, vida miserável e arruinada, perdeste metade da tua vida.
E Aritmética?, para distinguir os números racionais, os transcendentes, os imaginários?; sabes que Pi, o número que resulta da divisão da circunferência pelo diâmetro é um numero transcendente, tal como o número que permite calcular a forma de uma Ciclóide, que é como a forma que assume esta corda estendida na tua barca?
- Não, não, nada sei de Aritmética
Nisto as águas do rio começaram a agitar-se, movidas por uma tempestade, que de repente e com surpreendente violência começou a agitar a barca. Porem o erudito estava tão possuído de seus conhecimentos e com tanta soberba para com o humilde barqueiro que não se apercebia. Repetia, perdeste metade da tua vida inutilmente. E continuava instigando o nosso barqueiro com perguntas com as quais demonstrava orgulhosamente o seu saber.
- Ah claro, e seguramente também não sabes nada de Metafísica, dos mistérios da ontologia e as categorias do Ser….
- Ah, desculpe, desculpe, senhor, e você sabe nadar?
- Eu, Eu, e porque me pergunta isso, eu não sei.
- Pois nesse caso, vai perder a sua vida inteira, porque esta barca afunda-se, afunda-se, afunda-se.
Mais importante que acumular conhecimentos é encontrar o sentido da vida, como um fio mágico que conduz a nossa existência. O grande sábio Pitágoras dizia que melhor que um tonel de conhecimento é uma gota de verdadeira sabedoria, e a sabedoria que já é a alma da vida, é quem nos pode orientar no meio das tempestades do mundo. A nossa vida é uma barca frágil, o barqueiro é a consciência.
O que é mais importante que chegar, a tempo e bem, ao porto sonhado, e não fundir-se nas enganosas águas do que não somos, não cedendo aos cantos de sereia do mundo? O mais importante de aprender é a Arte De Viver.
15 agosto 2009
Lembranças do dia de hoje

Neste mesmo dia, mas há 14 anos, baptizava-se no Estoril uma criança aparentemente igual a tantas outras. Há evidências fotográficas de ter rido 24 horas depois de ter nascido, talvez por ter ouvido o princípio de uns versos que lhe foram dedicados:
Na Sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu
Esteve pouco tempo connosco, vítima das leis de um mundo nem sempre perfeito. Mas quem de nós não acredita que há vidas cujo tamanho e impacto nos outros se queda para lá da finitude das horas, minutos, instantes, existências que se não reduzem a cronologias humanas?
Àqueles que a viram nascer, dela se afeiçoaram e a lembram com saudade resta a dimensão da memória e o desafio de viver o melhor possível.
09 junho 2009
Páginas escolhidas para o Dia de Portugal
Com efeito! Depois de tão desencontradas emoções só apetecíamos as camas que esperavam, macias e abertas. Quando caí sobre a travesseira, sem gravata, em ceroulas, já o meu Príncipe, que não se despira, apenas embrulhara os pés no meu paletó, nosso único agasalho, ressonava com majestade.
Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na claridadezinha da manhã, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um
boné, que murmuravam baixinho com imensa doçura:
--V. Exas. não têm nada a declarar?... Não há malinhas de mão?...
Era a minha terra! Murmurei baixinho com imensa ternura:
--Não temos aqui nada... Pergunte V. Exa. pelo Grillo... Ai atrás, num compartimento... Ele tem as chaves, tem tudo... É o Grillo.
A fardeta desapareceu, sem rumor, como sombra benéfica. E eu readormeci com o pensamento em Guiães, onde a tia Vicência, atarefada, de lenço branco cruzado no peito, de certo já preparava o leitão.
Acordei envolto num largo e doce silêncio. Era uma Estação muito sossegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes — e outras rosas em moitas, num jardim, onde um tanquezinho abafado de limos dormia sob duas mimosas em flor que rescendiam. Um moço pálido, de paletó cor de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente à grade da horta, uma velha, diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regaço. Sobre o telhado secavam abóboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio azul de que meus olhos andavam aguados.
Sacudi violentamente Jacinto:
--Acorda, homem, que estás na tua terra!
Ele desembrulhou os pés do meu paletó, cofiou o bigode, e veio sem pressa, à vidraça que eu abrira, conhecer a sua terra.
--Então é Portugal, hein?... Cheira bem.
--Está claro que cheira bem, animal!
(Eça de Queirós, in A cidade e as Serras)
07 junho 2009
Pensamentos dos dias que correm
In O retrato de Mónica (Sophia de Mello Breyner Andresen, Contos Exemplares)
01 fevereiro 2009
Textos dos dias que correm
Todos os labirintos começam e terminam no coração do homem, mas este tem vastidões que ignoramos, desertos que só pressentimos, silêncios maiores que todo o silêncio, aberturas para muito longe. Raramente nos dispomos a percorrer semelhante paisagem. Os seus caminhos são duros, de uma esperança estreita e áspera, mas também purificadora. Reconduzem o coração, escravo de tantas dispersões, à utopia de um centro. Permitem refundar a vida. Morte e renascimento; cruz e ressurreição; inverno e primavera.
Peregrinar é aceitar percorrer nas estradas de hoje o antiquíssimo labirinto penitencial que as catedrais tinham gravado: redescobrir pelo apagamento a verdade do que se é; experimentar na pobreza o sentido do que se possui; reinventar na errância o endereço das construções sedentárias que nos motivam; medir no eterno a direcção do provisório.
Texto de José Tolentino Mendonça retirado daqui
11 janeiro 2009
Textos dos dias que correm
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Álvaro de Campos
01 janeiro 2009
Textos dos dias que correm
Ora entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos de enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sobre ambos espessamente a miséria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada de barro vermelho secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento!
Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abundância maior que a corte de Salomão. A mulher escutava, com olhos famintos. E esse doce rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah esse doce rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia, como o sol que até por qualquer velho muro se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tão rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a Enganim; Sétimo, tão soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus o conduzissem, por seu mando a Cesareia. Errando esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legionários de Sétimo. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias rotas sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.
A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:
– Oh filho e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos à procura do rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Corazim até ao país de Moab. Sétimo é forte e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hébron até ao mar! Como queres que te deixe! Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?
A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:
– Oh mãe! Jesus ama todos os pequenos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!
E a mãe, em soluços:
– Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:
– Mãe, eu queria ver Jesus...
E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
– Aqui estou.
O Suave Milagre, Eça de Queiroz, Contos
26 dezembro 2008
Textos dos dias que correm
Nunca dês ouvidos àqueles que, no desejo de te servir, te aconselham a renunciar a uma das tuas aspirações. Tu bem sabes qual é a tua vocação, pois a sentes exercer pressão sobre ti. E, se a atraiçoas, é a ti que desfiguras. Mas fica sabendo que a tua verdade se fará lentamente, pois ela é nascimento de árvore e não descoberta de uma fórmula. O tempo é que desempenha o papel mais importante, porque se trata de te tornares outro e de subires uma montanha difícil. Porque o ser novo, que é unidade libertada no meio da confusão das coisas, não se te impõe como a solução de um enigma, mas como um apaziguamento dos litígios e uma cura dos ferimentos. E só virás a conhecer o seu poder, uma vez que ele se tiver realizado. Nada me pareceu tão útil ao homem como o silêncio e a lentidão. Por isso os tenho honrado sempre como deuses por demais esquecidos.
Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"
25 dezembro 2008
Textos dos dias que correm...
Cada vez mais escarpado, entre rochas, se empinava o caminho da serra. E Cristóvão todo curvado, com os seus cabelos caídos sobe a face e pingando, arquejava a cada passo. Subiria ele jamais até a morada do menino? E uma grande dor batia-lhe o coração, no terror de cair sem força, e a criancinha ficar ali, naquele ermo rude, entre as feras, sob a tormenta. A cada instante tinha de arrimar a mão a uma rocha, desfalecido, de se pender à ramagem de um abeto. E a claridade crescia; já, no alto dos montes, ele via palidamente alvejar a neve.
— Oh meu menino, onde é a casa de teu pai?
— Mais longe, Cristóvão, mais longe...
E aquele bom gigante, agasalhando os pés do menino na dobra da pele de cabra, que o vento desmanchava, seguia com longos gemidos no caminho infindável, que mais apertava entre rochas, eriçadas de silvas enormes. Por fim, mal podia passar: as pontas das rochas rasgavam-lhe os braços, os longos espinhos atravessados, levavam-lhe a pele rude da face. E seguia! Já das feridas lhe pingava o sangue, e os olhos embaciados mal distinguiam o caminho, que parecia oscilar todo como abalado num tremor de terra. Uma luz, no entanto, mais viva, cor-de-rosa, já subia por trás das linhas dos cerros.
Mas Cristóvão parou, sem poder mais. Com o menino agarrado nos braços, ficou encostado a uma pedra, arquejando.
— Onde é a casa de teu pai?
— Muito longe, Cristóvão, mais longe...
Então o bom gigante fez um prodigiosos esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossa gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz. Cristóvão pousou o menino no chão, e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Mas sentiu as suas grossas mãos presas nas do menino — e a terra faltou-lhe debaixo dos pés. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu Jesus, Nosso Senhor, pequenino, como quando nasceu no curral, que docemente, através da manhã clara, o ia levando para o Céu.
(S. Cristovão, Eça de Queiroz, Últimas Páginas)
21 dezembro 2008
Pensamentos dos dias que correm
Vasco P. Magalhães, sj
(Nota: pensamento roubado hoje aqui)
23 novembro 2008
Cartas à minha madrinha
Espero que esta a encontre de saúde, que nós por cá todos bem.
O motivo que me impele ao roubo do seu precioso tempo é diferente do habitual. Não lhe escrevo sobre fusões, sonhos ou gentes locais. Hoje escrevo-lhe sobre a Igreja.
(não, querida madrinha, não me tornei anti-clerical, nem ateu, nem aderi a essas seitas que prometem o céu imediato e a cura de doenças graves a troco de dízimas)
Retomo o fio à meada dizendo que tenho de dar razão quando garantem que a igreja está desfasada do seu tempo. Esta mania de começar o Advento quatro domingos antes do Natal parece-me deveras absurda, quando o comércio decretou o surgimento do Pai Natal e das luzes das avenidas por alturas da mudança da hora. Enfim…
Lembra-se, madrinha, de um seu convidado dos serões de 5ª feira que fazia questão em partilhar com o mundo a sua (dele, é óbvio) cruzada contras as coisinhas da religião? Brandia uma voz possante e volumosa e zurzia o padre da aldeia, a gestão dos dinheiros eclesiais, a falta de modernidade, a defesa de valores caducos? Lembra-se?
Não creio que ele fosse mentiroso.
(não, querida madrinha, não ensandeci. Escorropiche o seu chá e deixe-me continuar)
Há padres em qualquer parte do mundo que fraquejam – uns arrepender-se-ão e outros não, porque isso faz parte da natureza humana; estou certo de que os euros que circulam nas mãos do clero nem sempre serão usados de forma financeiramente perfeita, porque há imperfeições em todo o lado e porque a caridade não está indexada ao barril de crude; os valores que a Igreja defende são caducos, porque o ideal cristão não é o do sucesso, da aparência, da necessidade de revelar sinais exteriores de riqueza, do egoísmo pouco solidário, do consumismo desenfreado. E essa é a modernidade.
Sabe madrinha, tive mil e uma razões para voltar as costas aos bancos da igreja, dizer adeusinho e bater com a porta. Estou certo de que a maioria das pessoas não notaria a minha ausência a não ser lá em Cima, cuja preocupação maior é a ovelha que se perde, não as outras 99 que estão localizadas. Ao contrário de muita gente, a religião foi ponto de partida e ponto de chegada. Já lá estava, por assim dizer, quando as voltas da minha vida me fizeram abrir os olhos. A bem dizer, estava em frente a um altar quando me embateu um tijolo nas ventas.
(e perdoe-me, madrinha, esta liberdade de linguagem).
É uma metáfora, como bem perceberá, mas quero explicar que vivi os dramas que me bateram à porta do lado de dentro da igreja, como praticante, para usar uma expressão corriqueira. Ao contrário, também, de outros, sempre soube que as ondas que varreram a minha vida eram obra das leis naturais do mundo, não dos desígnios de um qualquer altíssimo que zurzia vidas pacatas sem razão nem entendimento.
Já lá vão sete anos desde esse embate. Os padres continuam a fraquejar porque têm uma dimensão humana. Mas, estou certo, o que caracteriza o homem é a ascensão depois da queda. Os dinheiros que as diversas estruturas da igreja gerem nem sempre terão um destino perfeito, podendo-se questionar o destino que lhes é dado. No entanto, parece-me indiscutível que a Igreja Católica (e outras, seguramente) está na linha da frente do apoio aos desfavorecidos, aos marginalizados, aos pobres, aos desalojados, aos excluídos. Os valores de que falamos não fazem parte do léxico em voga, porque mencionamos a entrega, a caridade, o altruísmo, o serviço, o amor ao próximo.
Apesar de tudo isso – ou se calhar por causa de tudo isso – sinto-me bem dentro da Igreja que escolheram para mim e cuja escolha validei na altura certa. Não me preocupa nem indigna a imperfeição, porque é também a roupa que envergo diariamente. Todas as semanas oiço qualquer coisa que me desafia a ser melhor, a ser diferente. A maior parte das vezes disfarço e olho para o lado, nesta injustiça de não reconhecer a imensidão de ensinamentos que poderiam fazer de mim um homem um ser mais completo. Que Deus me dê força e discernimento fazendo de mim um homem privilegiado, porque mais não peço.
Perguntar-me-á, curiosa, os verdadeiros motivos desta missiva algo errática sobre um assunto tão do domínio do nosso íntimo. Olhe, madrinha, porque hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.
Ofereça-me os seus braços ao amplexo, a sua face ao ósculo, o seu coração ao afecto. E deixe-me repetir o amor ilimitado que lhe devoto, afilhado fraco e pouco agradecido.
JdB
16 novembro 2008
Músicas dos tempos que correm
Um renque colorido de lâmpadas no tecto; posters e recortes de revistas a enfeitar paredes brancas; uma nódoa persistente de óleo no chão que a vontade não venceu; meia dúzia de cadeiras displicentes espalhadas pelo local; uma música que sai de um gira-discos porque alguém puxou um braço de agulha para trás e o assentou sobre um vinil que roda a 33 rpm – ou 45, conforme. Chego-me a ti e pergunto-te se queres dançar. Os meus olhos fogem-te de nervos e ansiedade mas estou certo (há no amor o dom de uma certeza, sabes? Foi uma escritora que o disse, e quem escreve assim não mente, apenas pinta o mundo com as letras com que o vê) de que irás sorrir-me de volta, naquela cumplicidade inocente e ainda incompreensível. Claro que sim, respondeste, como quem se questiona se haverá mais alguma coisa a fazer que tenha sentido nos minutos mais próximos. Nós os dois numa garagem, como se mais nada houvesse, como se tudo se esgotasse numa rapariga que cantava we were so close, there was no room. Um cabelo comprido castanho, apartado ao meio e tombado sobre uns ombros largos; duas almas juntas na promessa de um beijo; olhos fechados, cegos para a finitude das coisas; respirações compassadas de quem vive por igual; uma música que pára porque alguém levanta um braço de agulha de um vinil que roda a 33 rpm – ou 45, conforme. Dançámos tão juntos que me deixaste marcas na alma. E é também por isso que te voltarei a convidar para dançar, nesta ou noutra garagem, com outras luzes coloridas, outras cadeiras displicentes, outra nódoa persistente que a vontade não venceu.
10 novembro 2008
A maratona e o hectómetro
- Boa tarde, venho inscrever-me como maratonista.
- Companheiro atleta – deixa-me que te trate assim – esse não é o percurso dos grandes campeões. Pode começar-se pelo meio fundo e depois evoluir para a mãe de todas as corridas.
- Percebo, Zé Tó – deixa-me que te trate assim – mas eu sou um fundista, e correr menos de 42 km, mais metro menos metro, deixa-me agoniado, com tonturas várias e desorientações diversas. Todo eu estou preparado para ir ao fundo, passe a dualidade da frase.
Carlos envergararia a camisola do atletismo, meu amor conseguindo bons resultados perante o olhar perscrutante do Zé Tó, cujo fato de treino ganhava uma patine que amortecia uma luminosidade estranhamente própria. Depois, fruto de circunstância várias que não se compadecem com explicações científicas, começaria a sua caminhada no sentido inverso: corria cada vez menos tempo, não fruto da evolução do seu desempenho, mas consequência de distâncias menores. Quando deu por si, espantado e confuso, estavam a acenar-lhe – os companheiros e as suas entranhas - com a hipótese de especialização nos 100 metros.
- 100 metros, Zé Tó? Tanto treino, tanto exercício, tanta ciência, tanto sacrifício para terminar o gozo passados 10 segundos? Desculpa a repetição, mas eu estou preparado para ir ao fundo, não para conter a respiração. E como é que se corre, como se doseia o esforço, como se enrijece o músculo, como se prepara a mente, como se goza a vitória? Dez segundos?
- Companheiro atleta! Pois eu penso que haverá satisfação nesta vertente. Pois é mais rápida, pois é mais curta, pois exige um empenho diferente. Mas tem o seu gozo, tu verás. Experimenta. E lembras-te daquele anúncio que dizia para não negares à partida uma ciência que desconheces? Pois é isso…
Carlos sentou-se na bancada e viu os seus companheiros de colectividade a perfilarem-se no tartan para correrem um hectómetro. Fechou os olhos e deu por si concentrado na programação da corrida: o tempo aos 5.000 metros, o cansaço mental aos vinte quilómetros, a vontade de desistir passados dez e a energia recuperada para o momento de glória, porque chegar era já em si bastante. Quando abriu os olhos, tudo se tinha consumado na primeira eliminatória, abrindo espaço para uma segunda e para uma terceira, como se fosse uma nova corrida nova viagem da família que desafiava o destino no poço da morte. Dez segundos mais dez segundos mais dez segundos…
Agarrou numa camisola e escreveu Solrac. Levantou-se a contragosto, deu uma palmada amigável nas costas puídas e húmidas do Zé Tó e disse para consigo, abrindo um sorriso que não se percebia se era de tristeza, de ironia, de malícia ou conformação:
- Prepara, estar pronto, largar. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 10. Já está.
JB
03 agosto 2008
Reflexões dos dias que correm
Tempo de férias
Tal como há uma semana, começo o texto com a frase: hoje é Domingo, e não esqueço a minha condição de católico. Agosto é o mês das férias por excelência. Não vou correr o risco de maçar os meus potenciais leitores com considerações pessoais sobre esta época. Fica, por isso, um texto de Bento XVI (publicado, penso, em 2007) sobre este mesmo tema. Boas férias, para quem as goza, ou está em preparação para. Acerca de mim
- JdB
- Estoril, Portugal