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03 junho 2011

Enviado por mão amiga, a quem também envio um abraço, em italiano.

É, você está muito só.
Você está só, porque as pessoas que encontra pela rua estão correndo atrás de dinheiro, com medo de ficarem sós na velhice e não terem onde cair mortas e passarem os últimos dias de suas vidas na sarjeta, pedindo dinheiro, precisando de dinheiro, precisando de carinho, precisando de outras pessoas que as compreendam, que sejam solidárias com elas, que digam alguma coisa bonita para elas, alguma coisa que as animem, alguma coisa que as façam crer que a vida é algo maior, algo mais importante do que uma sequência de dias solitários, algo melhor do que um amontoado de dias.
Você está só, porque a vida é um amontoado de dias.
E, ainda por cima, o tempo não existe, os dias não existem, a vida não existe.
Você está só, porque as pessoas do lugar onde você trabalha estão correndo atrás de dinheiro, mantendo as aparências de uma amizade falsa por você, porque elas não te conhecem direito, mesmo, porque elas não estão nem um pouco interessadas em conhecer você, de verdade, porque conhecer você, de verdade, e manter uma amizade de verdade com você, as obrigaria a tomar uma posição verdadeira a favor de você, caso as pessoas que pagam o salário delas, o seu salário, resolvam se voltar contra você, ameaçando você com a perda do seu emprego, do seu salário, da sua vida acima das sarjetas e, consequentemente, ameaçando o emprego delas, o salário delas, o dinheiro delas, a vida delas acima das sarjetas, o dinheiro delas, o dinheiro delas, o dinheiro delas, a vida delas e, no dia em que você perder o seu emprego, as pessoas do lugar onde você trabalha vão sorrir para você, vão desejar boa sorte a você, mas vão demonstrar para as pessoas que pagam o salário delas, que pagavam o seu salário, que elas não estão com você para o que der e vier, que elas não são tão próximas assim de você, que elas gostam muito mais das pessoas que pagam o salário delas, o dinheiro delas, do que de você. E você nunca mais vai se encontrar com as pessoas do lugar onde você trabalha, as que almoçaram tantas vezes com você, que riram tanto das piadas que você contava.
E você agiria da mesma forma que as pessoas do lugar onde você trabalha, caso elas perdessem os empregos delas.
Você está só, porque a sua vida custa dinheiro, porque a sua vida é o dinheiro.
Você está só, porque a escola que você frequenta está correndo atrás de dinheiro, ensinando os alunos a arrumar uma dessas profissões de arrumar dinheiro.
Você está só, porque você tem que arrumar uma profissão que te ajude a arrumar dinheiro, um trabalho cujo único objetivo é fazer com que você ganhe dinheiro.
Você está só, porque a sua família está pensando em dinheiro, os seus filhos estão pensando no dinheiro que você pode dar a eles, os seus pais estão pensando no dinheiro que eles têm que dar pra você, que eles têm que deixar para você. Será que você vai herdar algum dinheiro quando alguém da sua família morrer? Seria bom herdar algum dinheiro, não seria?
No último réveillon, quantas pessoas desejaram dinheiro para você?
Você está só, porque ninguém se interessa pelos seus problemas, pela sua solidão, pelo seu dinheiro que você não tem, pela sua solidão intransponível, pelas injustiças que vivem acontecendo na sua vida, na vida.
Você está só, porque a imagem de uma criança toda queimada, toda suja de lama, numa maca suja, cheia de moscas voando ao redor, é apenas uma imagem na televisão, patrocinada por um banco que finge ser seu amigo, finge estar à sua disposição no momento em que você mais precisar dele, aquele banco legal, aquele banco amigão.
Você está só, porque tem dinheiro.
Você está só, porque não tem dinheiro.
Você está só, por causa do dinheiro.
Só dinheiro.
Só.


André Sant’Anna

19 janeiro 2011

Textos dos dias que correm...

Um dia recebi um mail com o título Que orgulho !!! É o meu trisavô. Não posso deixar de mandar. Apesar de eu ser monárquico (não parece, pois não?) é com muito gosto que publico o texto aqui. Trata-se do trisavô da MAF, distinta bloguista dominical neste espaço e que me dá a fineza da sua amizade.

JdB

OUTRA GENTE...

Era oriundo de famílias aristocráticas e descendente de flamengos.
O pai deixou de lhe pagar os estudos e deserdou-o.
Trabalhou, dando lições de inglês para poder continuar o curso.
Formou-se em Direito.
Foi advogado, professor, escritor, político e deputado.
Foi também vereador da Câmara Municipal de Lisboa.
Foi reitor da Universidade de Coimbra.
Foi Procurador-Geral da República.
Passou cinquenta anos da sua vida a defender uma sociedade mais justa.
Com 71 anos foi eleito Presidente da República.
Disse na tomada de posse: "Estou aqui para servir o país. Seria incapaz de alguma vez me servir dele..."
Recusou viver no Palácio de Belém, tendo escolhido uma modesta casa anexa a este.
Pagou a renda da residência oficial e todo mobiliário do seu bolso.
Recusou ajudas de custo, prescindiu do dinheiro para transportes, não quis secretário, nem protocolo e nem sequer Conselho de Estado.
Foi aconselhado a comprar um automóvel para as deslocações, mas fez questão de o pagar também do seu bolso.
Este SENHOR era Manuel de Arriaga e foi o primeiro Presidente da
República Portuguesa.

INDUBITAVELMENTE, OUTRA GENTE .....

08 dezembro 2010

Textos dos dias que correm...


Dá-nos Senhor, neste Advento, a coragem dos recomeços.
Não nos deixes acomodar ao saber daquilo que foi:
dá-nos largueza de coração para abraçar aquilo que é.
Afasta-nos do repetido, do juízo mecânico que banaliza a história,
pois a priva de surpresa e de esperança.
Torna-nos atónitos como os seres que florescem.
Torna-nos inacabados como quem deseja.
Torna-nos atentos como quem cuida.
Torna-nos confiantes como os que se atrevem
a olhar tudo, e a si mesmos, de novo
pela primeira vez.

[Recebido há pouco por correio electrónico vindo de mão amiga]
(Desenho: Rui Aleixo
Texto: José Tolentino Mendonça)

19 agosto 2009

O Barqueiro e o Erudito

Conta-se que uma vez um homem erudito aproximou-se da margem de um rio, para que o barqueiro lhe permitisse atravessa-lo. O erudito parecia que carregava toda a sua importância junto com o seu conhecimento, como se temesse perde-lo. E assim, com soberba de letrado, disse ao humilde e serviçal barqueiro:
- Podes passar-me para a outra margem?
- Sim, claro, são duas rupias.
E o letrado temendo sujar-se ao tocar o barqueiro, entregou-lhe essas moedas.
Quando já estavam a atravessar o rio, e enquanto o barqueiro fazia o seu trabalho, o erudito perguntou:
- Barqueiro, estudaste Sânscrito? A língua em que, sabes, foram escritos os Vedas, os Upanishads, as epopeias do Mahabharata e o Ramayana, todos os Puranas e Upapuranas, a língua de Valmiki e Vyasa, a língua em que foi escrito o glorioso Bhagavad Gita, resumo de todo o conhecimento?
- Não senhor, nada sei de dita língua
- Oh, que desperdício de vida, então nada te posso dizer da beleza de suas estruturas sintácticas, dessas formas sublimes analisadas pelo ilustre Patanjali.
- E sabes, por acaso, Latim? A língua de Virgílio e de Cícero, tão belamente sonora e rítmica, como dizia em seus discursos o grande pretor romano, Quo usque abutere patientia nostra, que significa “Até quando abusarás da nossa paciência”? Oh, Oh, perdeste sem nenhuma dúvida metade da tua vida inutilmente.
- Não senhor, disso também não sei nada.
- Oh que tristeza de vida, então também não terás lido os versos amorosos de Ovídeo e Catulo, ou as tragédias de Séneca. Oh, Oh, Oh, perdeste sem duvida metade da tua vida.
E conheces os mistérios da Geometria?, que permite medir as distancias e as superfícies, classificar os ângulos, reconhecer os tipos de triângulos e fundamentar o cálculo diferencial para, claro poder estudar a Dinâmica dos Fluidos, tão necessário num trabalho como o teu?
- Oh, senhor, nada sei de Geometria
- Bem, bem, bem, oh, vida miserável e arruinada, perdeste metade da tua vida.
E Aritmética?, para distinguir os números racionais, os transcendentes, os imaginários?; sabes que Pi, o número que resulta da divisão da circunferência pelo diâmetro é um numero transcendente, tal como o número que permite calcular a forma de uma Ciclóide, que é como a forma que assume esta corda estendida na tua barca?
- Não, não, nada sei de Aritmética
Nisto as águas do rio começaram a agitar-se, movidas por uma tempestade, que de repente e com surpreendente violência começou a agitar a barca. Porem o erudito estava tão possuído de seus conhecimentos e com tanta soberba para com o humilde barqueiro que não se apercebia. Repetia, perdeste metade da tua vida inutilmente. E continuava instigando o nosso barqueiro com perguntas com as quais demonstrava orgulhosamente o seu saber.
- Ah claro, e seguramente também não sabes nada de Metafísica, dos mistérios da ontologia e as categorias do Ser….
- Ah, desculpe, desculpe, senhor, e você sabe nadar?
- Eu, Eu, e porque me pergunta isso, eu não sei.
- Pois nesse caso, vai perder a sua vida inteira, porque esta barca afunda-se, afunda-se, afunda-se.
Mais importante que acumular conhecimentos é encontrar o sentido da vida, como um fio mágico que conduz a nossa existência. O grande sábio Pitágoras dizia que melhor que um tonel de conhecimento é uma gota de verdadeira sabedoria, e a sabedoria que já é a alma da vida, é quem nos pode orientar no meio das tempestades do mundo. A nossa vida é uma barca frágil, o barqueiro é a consciência.
O que é mais importante que chegar, a tempo e bem, ao porto sonhado, e não fundir-se nas enganosas águas do que não somos, não cedendo aos cantos de sereia do mundo? O mais importante de aprender é a Arte De Viver.

15 agosto 2009

Lembranças do dia de hoje


Há exactamente um ano estava eu no Zimbawe, e escrevi um post de que copio parte abaixo. Onde está 14 anos leia-se 15. O resto permanece actual.

Hoje é 15 de Agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora, e eu não esqueço a minha condição de católico e mariano.

Neste mesmo dia, mas há 14 anos, baptizava-se no Estoril uma criança aparentemente igual a tantas outras. Há evidências fotográficas de ter rido 24 horas depois de ter nascido, talvez por ter ouvido o princípio de uns versos que lhe foram dedicados:

Na Sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu

Esteve pouco tempo connosco, vítima das leis de um mundo nem sempre perfeito. Mas quem de nós não acredita que há vidas cujo tamanho e impacto nos outros se queda para lá da finitude das horas, minutos, instantes, existências que se não reduzem a cronologias humanas?

Àqueles que a viram nascer, dela se afeiçoaram e a lembram com saudade resta a dimensão da memória e o desafio de viver o melhor possível.

JdB

09 junho 2009

Páginas escolhidas para o Dia de Portugal



Com efeito! Depois de tão desencontradas emoções só apetecíamos as camas que esperavam, macias e abertas. Quando caí sobre a travesseira, sem gravata, em ceroulas, já o meu Príncipe, que não se despira, apenas embrulhara os pés no meu paletó, nosso único agasalho, ressonava com majestade.

Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na claridadezinha da manhã, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um
boné, que murmuravam baixinho com imensa doçura:

--V. Exas. não têm nada a declarar?... Não há malinhas de mão?...

Era a minha terra! Murmurei baixinho com imensa ternura:

--Não temos aqui nada... Pergunte V. Exa. pelo Grillo... Ai atrás, num compartimento... Ele tem as chaves, tem tudo... É o Grillo.

A fardeta desapareceu, sem rumor, como sombra benéfica. E eu readormeci com o pensamento em Guiães, onde a tia Vicência, atarefada, de lenço branco cruzado no peito, de certo já preparava o leitão.

Acordei envolto num largo e doce silêncio. Era uma Estação muito sossegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes — e outras rosas em moitas, num jardim, onde um tanquezinho abafado de limos dormia sob duas mimosas em flor que rescendiam. Um moço pálido, de paletó cor de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente à grade da horta, uma velha, diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regaço. Sobre o telhado secavam abóboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio azul de que meus olhos andavam aguados.

Sacudi violentamente Jacinto:

--Acorda, homem, que estás na tua terra!

Ele desembrulhou os pés do meu paletó, cofiou o bigode, e veio sem pressa, à vidraça que eu abrira, conhecer a sua terra.

--Então é Portugal, hein?... Cheira bem.

--Está claro que cheira bem, animal!

(Eça de Queirós, in A cidade e as Serras)

07 junho 2009

Pensamentos dos dias que correm

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.

In O retrato de Mónica (Sophia de Mello Breyner Andresen, Contos Exemplares)

01 fevereiro 2009

Textos dos dias que correm

Quanto eu gosto de ver no chão das catedrais (Chartres) ou nas traves da nave principal (Lucca) um labirinto gravado! Houve um tempo em que os homens sabiam que a imagem do caminho é a figura da própria existência. Mas no tempo das vias de comunicação globais e das altíssimas velocidades, perdemos o saber das viagens profundas.

Todos os labirintos começam e terminam no coração do homem, mas este tem vastidões que ignoramos, desertos que só pressentimos, silêncios maiores que todo o silêncio, aberturas para muito longe. Raramente nos dispomos a percorrer semelhante paisagem. Os seus caminhos são duros, de uma esperança estreita e áspera, mas também purificadora. Reconduzem o coração, escravo de tantas dispersões, à utopia de um centro. Permitem refundar a vida. Morte e renascimento; cruz e ressurreição; inverno e primavera.

Peregrinar é aceitar percorrer nas estradas de hoje o antiquíssimo labirinto penitencial que as catedrais tinham gravado: redescobrir pelo apagamento a verdade do que se é; experimentar na pobreza o sentido do que se possui; reinventar na errância o endereço das construções sedentárias que nos motivam; medir no eterno a direcção do provisório.

Texto de José Tolentino Mendonça retirado daqui

11 janeiro 2009

Textos dos dias que correm

ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

01 janeiro 2009

Textos dos dias que correm

(...)

Ora entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos de enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sobre ambos espessamente a miséria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada de barro vermelho secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento!

Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abundância maior que a corte de Salomão. A mulher escutava, com olhos famintos. E esse doce rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah esse doce rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia, como o sol que até por qualquer velho muro se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tão rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a Enganim; Sétimo, tão soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus o conduzissem, por seu mando a Cesareia. Errando esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legionários de Sétimo. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias rotas sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.

A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:

– Oh filho e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos à procura do rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Corazim até ao país de Moab. Sétimo é forte e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hébron até ao mar! Como queres que te deixe! Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?

A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:

– Oh mãe! Jesus ama todos os pequenos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!

E a mãe, em soluços:

– Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.

De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:

– Mãe, eu queria ver Jesus...

E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:

– Aqui estou.

O Suave Milagre, Eça de Queiroz, Contos

26 dezembro 2008

Textos dos dias que correm

Dá Tempo à Tua Vocação

Nunca dês ouvidos àqueles que, no desejo de te servir, te aconselham a renunciar a uma das tuas aspirações. Tu bem sabes qual é a tua vocação, pois a sentes exercer pressão sobre ti. E, se a atraiçoas, é a ti que desfiguras. Mas fica sabendo que a tua verdade se fará lentamente, pois ela é nascimento de árvore e não descoberta de uma fórmula. O tempo é que desempenha o papel mais importante, porque se trata de te tornares outro e de subires uma montanha difícil. Porque o ser novo, que é unidade libertada no meio da confusão das coisas, não se te impõe como a solução de um enigma, mas como um apaziguamento dos litígios e uma cura dos ferimentos. E só virás a conhecer o seu poder, uma vez que ele se tiver realizado. Nada me pareceu tão útil ao homem como o silêncio e a lentidão. Por isso os tenho honrado sempre como deuses por demais esquecidos.

Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"

25 dezembro 2008

Textos dos dias que correm...

(...)

Mas, naquele esforço supremo toda sua vida se fora. Não podia mais. E já se sentava, exausto, numa rocha, quando o menino lhe murmurou que não parasse, que marchasse ainda, o conduzisse à casa de seu pai. E Cristóvão, arquejando, começou a trepar o íngreme caminho da serra. Uma vaga claridade errava nos altos. E as rochas, os abetos, emergiam da treva densa, que os afogara. Uma frialdade trespassava o ar — e Cristóvão tiritava, com o seu pobre saião de estamenha encharcado, que ia pingando na terra mole. E mais baixo murmurava: «Ah! meu menino! meu menino!...»

Cada vez mais escarpado, entre rochas, se empinava o caminho da serra. E Cristóvão todo curvado, com os seus cabelos caídos sobe a face e pingando, arquejava a cada passo. Subiria ele jamais até a morada do menino? E uma grande dor batia-lhe o coração, no terror de cair sem força, e a criancinha ficar ali, naquele ermo rude, entre as feras, sob a tormenta. A cada instante tinha de arrimar a mão a uma rocha, desfalecido, de se pender à ramagem de um abeto. E a claridade crescia; já, no alto dos montes, ele via palidamente alvejar a neve.

— Oh meu menino, onde é a casa de teu pai?

— Mais longe, Cristóvão, mais longe...

E aquele bom gigante, agasalhando os pés do menino na dobra da pele de cabra, que o vento desmanchava, seguia com longos gemidos no caminho infindável, que mais apertava entre rochas, eriçadas de silvas enormes. Por fim, mal podia passar: as pontas das rochas rasgavam-lhe os braços, os longos espinhos atravessados, levavam-lhe a pele rude da face. E seguia! Já das feridas lhe pingava o sangue, e os olhos embaciados mal distinguiam o caminho, que parecia oscilar todo como abalado num tremor de terra. Uma luz, no entanto, mais viva, cor-de-rosa, já subia por trás das linhas dos cerros.

Mas Cristóvão parou, sem poder mais. Com o menino agarrado nos braços, ficou encostado a uma pedra, arquejando.

— Onde é a casa de teu pai?

— Muito longe, Cristóvão, mais longe...

Então o bom gigante fez um prodigiosos esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossa gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz. Cristóvão pousou o menino no chão, e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Mas sentiu as suas grossas mãos presas nas do menino — e a terra faltou-lhe debaixo dos pés. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu Jesus, Nosso Senhor, pequenino, como quando nasceu no curral, que docemente, através da manhã clara, o ia levando para o Céu.

(S. Cristovão, Eça de Queiroz, Últimas Páginas)

21 dezembro 2008

Pensamentos dos dias que correm

Prendas ou presentes de Natal. Na caixa do correio estão dois envelopes. Um dizia: “você acabou de receber um automóvel, venha buscar”. O outro dizia: “você acaba de receber a missão de estar atento às pessoas que sofrem em sua casa e de ir ver quem tem necessidades no seu trabalho”. Verdadeiramente, só o segundo envelope traz um presente de Natal! O primeiro cartão acrescentava: “sinta-se orgulhoso”. O segundo dizia: “não tenha medo, a força está dentro de si”.

Vasco P. Magalhães, sj

(Nota: pensamento roubado hoje aqui)

23 novembro 2008

Cartas à minha madrinha

Doce e amável madrinha do meu coração,

Espero que esta a encontre de saúde, que nós por cá todos bem.
O motivo que me impele ao roubo do seu precioso tempo é diferente do habitual. Não lhe escrevo sobre fusões, sonhos ou gentes locais. Hoje escrevo-lhe sobre a Igreja.
(não, querida madrinha, não me tornei anti-clerical, nem ateu, nem aderi a essas seitas que prometem o céu imediato e a cura de doenças graves a troco de dízimas)
Retomo o fio à meada dizendo que tenho de dar razão quando garantem que a igreja está desfasada do seu tempo. Esta mania de começar o Advento quatro domingos antes do Natal parece-me deveras absurda, quando o comércio decretou o surgimento do Pai Natal e das luzes das avenidas por alturas da mudança da hora. Enfim…
Lembra-se, madrinha, de um seu convidado dos serões de 5ª feira que fazia questão em partilhar com o mundo a sua (dele, é óbvio) cruzada contras as coisinhas da religião? Brandia uma voz possante e volumosa e zurzia o padre da aldeia, a gestão dos dinheiros eclesiais, a falta de modernidade, a defesa de valores caducos? Lembra-se?
Não creio que ele fosse mentiroso.
(não, querida madrinha, não ensandeci. Escorropiche o seu chá e deixe-me continuar)
Há padres em qualquer parte do mundo que fraquejam – uns arrepender-se-ão e outros não, porque isso faz parte da natureza humana; estou certo de que os euros que circulam nas mãos do clero nem sempre serão usados de forma financeiramente perfeita, porque há imperfeições em todo o lado e porque a caridade não está indexada ao barril de crude; os valores que a Igreja defende são caducos, porque o ideal cristão não é o do sucesso, da aparência, da necessidade de revelar sinais exteriores de riqueza, do egoísmo pouco solidário, do consumismo desenfreado. E essa é a modernidade.
Sabe madrinha, tive mil e uma razões para voltar as costas aos bancos da igreja, dizer adeusinho e bater com a porta. Estou certo de que a maioria das pessoas não notaria a minha ausência a não ser lá em Cima, cuja preocupação maior é a ovelha que se perde, não as outras 99 que estão localizadas. Ao contrário de muita gente, a religião foi ponto de partida e ponto de chegada. Já lá estava, por assim dizer, quando as voltas da minha vida me fizeram abrir os olhos. A bem dizer, estava em frente a um altar quando me embateu um tijolo nas ventas.
(e perdoe-me, madrinha, esta liberdade de linguagem).
É uma metáfora, como bem perceberá, mas quero explicar que vivi os dramas que me bateram à porta do lado de dentro da igreja, como praticante, para usar uma expressão corriqueira. Ao contrário, também, de outros, sempre soube que as ondas que varreram a minha vida eram obra das leis naturais do mundo, não dos desígnios de um qualquer altíssimo que zurzia vidas pacatas sem razão nem entendimento.
Já lá vão sete anos desde esse embate. Os padres continuam a fraquejar porque têm uma dimensão humana. Mas, estou certo, o que caracteriza o homem é a ascensão depois da queda. Os dinheiros que as diversas estruturas da igreja gerem nem sempre terão um destino perfeito, podendo-se questionar o destino que lhes é dado. No entanto, parece-me indiscutível que a Igreja Católica (e outras, seguramente) está na linha da frente do apoio aos desfavorecidos, aos marginalizados, aos pobres, aos desalojados, aos excluídos. Os valores de que falamos não fazem parte do léxico em voga, porque mencionamos a entrega, a caridade, o altruísmo, o serviço, o amor ao próximo.
Apesar de tudo isso – ou se calhar por causa de tudo isso – sinto-me bem dentro da Igreja que escolheram para mim e cuja escolha validei na altura certa. Não me preocupa nem indigna a imperfeição, porque é também a roupa que envergo diariamente. Todas as semanas oiço qualquer coisa que me desafia a ser melhor, a ser diferente. A maior parte das vezes disfarço e olho para o lado, nesta injustiça de não reconhecer a imensidão de ensinamentos que poderiam fazer de mim um homem um ser mais completo. Que Deus me dê força e discernimento fazendo de mim um homem privilegiado, porque mais não peço.
Perguntar-me-á, curiosa, os verdadeiros motivos desta missiva algo errática sobre um assunto tão do domínio do nosso íntimo. Olhe, madrinha, porque hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.
Ofereça-me os seus braços ao amplexo, a sua face ao ósculo, o seu coração ao afecto. E deixe-me repetir o amor ilimitado que lhe devoto, afilhado fraco e pouco agradecido.

JdB

16 novembro 2008

Músicas dos tempos que correm



Um renque colorido de lâmpadas no tecto; posters e recortes de revistas a enfeitar paredes brancas; uma nódoa persistente de óleo no chão que a vontade não venceu; meia dúzia de cadeiras displicentes espalhadas pelo local; uma música que sai de um gira-discos porque alguém puxou um braço de agulha para trás e o assentou sobre um vinil que roda a 33 rpm – ou 45, conforme. Chego-me a ti e pergunto-te se queres dançar. Os meus olhos fogem-te de nervos e ansiedade mas estou certo (há no amor o dom de uma certeza, sabes? Foi uma escritora que o disse, e quem escreve assim não mente, apenas pinta o mundo com as letras com que o vê) de que irás sorrir-me de volta, naquela cumplicidade inocente e ainda incompreensível. Claro que sim, respondeste, como quem se questiona se haverá mais alguma coisa a fazer que tenha sentido nos minutos mais próximos. Nós os dois numa garagem, como se mais nada houvesse, como se tudo se esgotasse numa rapariga que cantava we were so close, there was no room. Um cabelo comprido castanho, apartado ao meio e tombado sobre uns ombros largos; duas almas juntas na promessa de um beijo; olhos fechados, cegos para a finitude das coisas; respirações compassadas de quem vive por igual; uma música que pára porque alguém levanta um braço de agulha de um vinil que roda a 33 rpm – ou 45, conforme. Dançámos tão juntos que me deixaste marcas na alma. E é também por isso que te voltarei a convidar para dançar, nesta ou noutra garagem, com outras luzes coloridas, outras cadeiras displicentes, outra nódoa persistente que a vontade não venceu.

10 novembro 2008

A maratona e o hectómetro

Carlos achava que a sua vida corria tão ao contrário que teria achado normal o registo à nascença como Solrac. Sempre achara estranhos alguns aspectos da sua deambulação pela Terra: características em novo que eram pertença de velhos, manias quase infantis quando já entrara no último terço estatístico da sua vida. Lembrava-se exactamente desta peculiaridade quando comentava a sua inscrição na colectividade do bairro, baptizada, numa década passada, com o nome ternurento de atletismo, meu amor. Entrara na flor desportiva da idade e dirigira-se ao balcão, onde o Zé Tó, de fato de treino reluzente de poliéster, suor e tenda de ciganos o recebera escorropichando uma bebida isotónica:
- Boa tarde, venho inscrever-me como maratonista.
- Companheiro atleta – deixa-me que te trate assim – esse não é o percurso dos grandes campeões. Pode começar-se pelo meio fundo e depois evoluir para a mãe de todas as corridas.
- Percebo, Zé Tó – deixa-me que te trate assim – mas eu sou um fundista, e correr menos de 42 km, mais metro menos metro, deixa-me agoniado, com tonturas várias e desorientações diversas. Todo eu estou preparado para ir ao fundo, passe a dualidade da frase.
Carlos envergararia a camisola do atletismo, meu amor conseguindo bons resultados perante o olhar perscrutante do Zé Tó, cujo fato de treino ganhava uma patine que amortecia uma luminosidade estranhamente própria. Depois, fruto de circunstância várias que não se compadecem com explicações científicas, começaria a sua caminhada no sentido inverso: corria cada vez menos tempo, não fruto da evolução do seu desempenho, mas consequência de distâncias menores. Quando deu por si, espantado e confuso, estavam a acenar-lhe – os companheiros e as suas entranhas - com a hipótese de especialização nos 100 metros.
- 100 metros, Zé Tó? Tanto treino, tanto exercício, tanta ciência, tanto sacrifício para terminar o gozo passados 10 segundos? Desculpa a repetição, mas eu estou preparado para ir ao fundo, não para conter a respiração. E como é que se corre, como se doseia o esforço, como se enrijece o músculo, como se prepara a mente, como se goza a vitória? Dez segundos?
- Companheiro atleta! Pois eu penso que haverá satisfação nesta vertente. Pois é mais rápida, pois é mais curta, pois exige um empenho diferente. Mas tem o seu gozo, tu verás. Experimenta. E lembras-te daquele anúncio que dizia para não negares à partida uma ciência que desconheces? Pois é isso…
Carlos sentou-se na bancada e viu os seus companheiros de colectividade a perfilarem-se no tartan para correrem um hectómetro. Fechou os olhos e deu por si concentrado na programação da corrida: o tempo aos 5.000 metros, o cansaço mental aos vinte quilómetros, a vontade de desistir passados dez e a energia recuperada para o momento de glória, porque chegar era já em si bastante. Quando abriu os olhos, tudo se tinha consumado na primeira eliminatória, abrindo espaço para uma segunda e para uma terceira, como se fosse uma nova corrida nova viagem da família que desafiava o destino no poço da morte. Dez segundos mais dez segundos mais dez segundos…
Agarrou numa camisola e escreveu Solrac. Levantou-se a contragosto, deu uma palmada amigável nas costas puídas e húmidas do Zé Tó e disse para consigo, abrindo um sorriso que não se percebia se era de tristeza, de ironia, de malícia ou conformação:
- Prepara, estar pronto, largar. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 10. Já está.

JB

03 agosto 2008

Reflexões dos dias que correm

As minhas rotinas domingueiras são propiciadoras de reflexões de mim comigo próprio. Talvez seja um exercício de presunção, mas não resisto a partilhar algumas.

Os velhos. Com uma regularidade semanal, lá estou a visitar o meu lar habitual. São talvez uns quinze ou dezoito idosos, sentados à volta de uma sala, como se fossem senhoras num baile popular a aguardar convite para dançar. Une-os, à hora em que entro, uma televisão que debita ruídos e imagens de fundo que acompanham o ressonar de alguns, os pensamentos de outros, o vazio de tantos. Enternece-me o gosto que sinto, aqui e ali, por me verem, se bem que a maioria já quase não saia do seu mundo próprio. Fecho a porta ao sair com a certeza do pouco que fazemos por eles – não só pelos anónimos, como pelos “nossos”.
Portas que se fecham. Aprendi que devemos sair dos sítios e das situações sem bater com a porta. Nem sempre se pode deixá-la aberta, porque há portas que se fecham definitivamente – por vontade nossa ou alheia. Mas a vida ensinou-me a importância de um fechar suave, manso e tranquilo, ainda que recheado de uma profunda tristeza, ou de um imenso alívio. Este raciocínio aplica-se à vida profissional (onde o aprendi em primeiro lugar), à vida social, à vida em família. Há uma certa libertação em quem sai pelo seu próprio pé, de cabeça erguida, levando uns caixotes com um agrafador, uns livros, umas recordações, deixando na divisão vazia um envelope que diz raiva e rancor – ainda que também possa dizer injustiça.
Orgulho. Talvez seja um cliché, mas estou seguro de que todos nós, de uma forma ou outra, andamos à procura de ser amados. Se calhar essa demanda provoca desencontros, porque entre amar e ser amado há desajustes, entendimentos errados, ritmos diferentes. Muitos factores impedirão, seguramente, que consigamos essa permuta de amor. Eu elejo (também) o orgulho - o que nos impede de voltar atrás ou de andar para a frente reconhecendo que errámos, que podíamos ter feito as coisas de modo diferente, de pedir desculpa. Dar a vida pelo outro, com vem na Bíblia aplica-se, estou convencido, ao abdicar de todos os nossos egoísmos que impedem essa aproximação da perfeição. A humildade pode ser um momento de enorme exaltação.

Tempo de férias

Tal como há uma semana, começo o texto com a frase: hoje é Domingo, e não esqueço a minha condição de católico. Agosto é o mês das férias por excelência. Não vou correr o risco de maçar os meus potenciais leitores com considerações pessoais sobre esta época. Fica, por isso, um texto de Bento XVI (publicado, penso, em 2007) sobre este mesmo tema. Boas férias, para quem as goza, ou está em preparação para.

Os discípulos colocaram a Jesus o problema do stress e do descanso. Os discípulos regressavam da primeira missão, muito entusiasmados com a experiência e com os resultados obtidos. Não paravam de falar sobre os êxitos conseguidos. Com efeito, o movimento era tanto que nem tinham tempo para comer, com muitas pessoas à sua volta. Talvez esperassem ouvir algum elogio por tanto zelo apostólico. Mas Jesus, em vez disso, convida-os a um lugar deserto, para estarem a sós e descansarem um pouco. Creio que nos faz bem observar neste acontecimento a humanidade de Jesus. A sua acção não dizia só palavras de grandeza sublime, nem se afadigava ininterruptamente por atender todos os que vinham ao seu encontro. Consigo imaginar o seu rosto ao pronunciar estas palavras. Enquanto os apóstolos se esforçavam cheios de coragem e importância que até se esqueciam de comer, Jesus tira-os das nuvens. Venham descansar! Sente-se um humor silencioso, uma ironia amigável, com que Jesus os traz para terra firme. Justamente nesta humanidade de Jesus torna-se visível a divindade, torna-se perceptível como Deus é. A agitação de qualquer espécie, mesmo a agitação religiosa não condiz com a visão do homem do Novo Testamento. Sempre que pensamos que somos insubstituíveis; sempre que pensamos que o mundo e a Igreja dependem do nosso fazer, sobrestimamo-nos.Ser capaz de parar é um acto de autêntica humildade e de honradez criativa; reconhecer os nossos limites; dar espaço para respirar e para descansar como é próprio da criatura humana. Não desejo tecer louvores à preguiça, mas contribuir para a revisão do catálogo de virtudes, tal como se desenvolveu no mundo ocidental, onde trabalhar parece ser a única atitude digna. Olhar, contemplar, o recolhimento, o silêncio parecem inadmissíveis, ou pelo menos precisam de uma explicação. Assim se atrofiam algumas faculdades essenciais do ser humano. O nosso frenesim à volta dos tempos livres, mostra que é assim. Muitas vezes isso significa apenas uma mudança de palco. Muitos não se sentiriam bem se não se envolvessem de novo num ambiente massificado e agitado, do qual, supostamente, desejavam fugir. Seria bom para nós, que continuamente vivemos num mundo artificial fabricado por nós, deixar tudo isso e procurarmos o contacto com a natureza em estado puro. Desejaria mencionar um pequeno acontecimento que João Paulo II contou durante o retiro que pregou para Paulo VI, quando ainda era Cardeal. Falou duma conversa que teve com um cientista, um extraordinário investigador e um excelente homem, que lhe dizia: "Do ponto de vista da ciência, sou um ateu...". Mas o mesmo homem escrevia-lhe depois: "Cada vez que me encontro com a majestade da natureza, com as montanhas, sinto que Ele existe". Voltamos a afirmar que no mundo artificial fabricado por nós, Deus não aparece. Por isso, temos necessidade de sair da nossa agitação e procurar o ar da criação, para O podermos contactar e nos encontrarmos a nós mesmos.

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