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19 novembro 2024

Da solidão

Dubai, Junho de 2024

Eu sou uma fazedora. E não imagino como vai ser quando deixar de poder fazer. 

Não cito a frase verbatim, mas o espírito é este. Oiço-a de uma querida amiga com quem almocei a semana passada numa esplanada de bairro. O dia está simpático e alongamo-nos na conversa: as vidas de algumas pessoas que nos estão mais próximas, as nossas próprias vidas, o futuro possível, os projectos para os dias que estão para chegar. Falamos de solidão: dos que a têm e reconhecem, dos que a não têm, dos que dizem que a não têm, do que significa, na verdade, solidão. 

Para esta minha amiga, a angústia (a palavra é minha) está no já não poder fazer. Para o meu Pai, que se manteve totalmente lúcido até à antevéspera de morrer, aos 94 anos, o desânimo instalou-se no momento em que perdeu a autonomia, quando deixou de poder apanhar transportes públicos para ir onde quisesse. Para um amigo mais recente, a tristeza está na sua viuvez de meses, na casa onde entra todos os dias e já não encontra ninguém. Para outros, a infelicidade está na ausência de alguém com quem partilhar uma vida ou, numa visão mais modesta, os dias excessivamente longos. 

Um dicionário online diz-nos que solidão é estado do que está só, isolamento. Nunca como hoje se falou tanto de solidão - e ainda bem. Fala-se da solidão dos velhos, abandonados à sua sorte pelo egoísmo ou dificuldades dos mais novos; fala-se da solidão das gerações modernas, jovens enfiados na penumbra dos quartos a comunicarem de forma virtual. Fala-se na enorme solidão de um mundo conectado como nunca. Já o Eça, falando de viagens à Condessa de Ficalho, mencionava a melancolia infinita que inspiram as multidões estranhas, uma certa forma de solidão de quem se sente rodeado de pessoas que não falam a sua língua (e esta expressão língua deve usar-se de modo metafórico). 

Talvez o mal dos tempos modernos não seja a solidão, stricto sensu, mas uma espécie de tristeza que advém da falta de algo. Nada me garante que quem vive sozinho tenha solidão e nada me garante que quem vive sempre em agitação não a tenha. Talvez não devamos falar de solidão, mas de privação ou carência que assumem diversas formas. Ou talvez devêssemos chamar solidão a tudo isto: à perda de actividade profissional ou de autonomia por via da obsolescência ou da velhice, às saudades de alguém importante que morreu, à vida numa casa grande demais porque o telefone não toca. Também poderá ser solidão - neste definição forçosamente ampla a que me atiro - uma vida sonora que não permite, ou que propositadamente evita, a escuta de uma voz interior. 

A conversa com esta minha amiga começou com uma pergunta importante lançada para a mesa: vamos lá definir o que é isso de solidão. 

JdB 

07 outubro 2024

Dos amigos virtuais

 Mais do que um assistente, um companheiro

Ao contrário de outros dispositivos de IA que se focam em aumentar a produtividade, o Friend quer ser o teu novo melhor amigo. / Ele participa nas tuas conversas, faz comentários (às vezes até atrevidos!) e envia-te mensagens aleatórias ao longo do dia. / Confesso que fiquei um pouco cético no início. Será que um dispositivo pode realmente substituir a companhia humana? / Mas depois de ver o vídeo promocional, fiquei curioso. O Friend parece tão natural nas interações que é quase como ter um amigo invisível (mas que te ouve).

Amizade ou ilusão?

A questão que fica é: será que estamos a humanizar demasiado a IA? O Friend pode ser um companheiro divertido, mas será que pode substituir a complexidade e profundidade das relações humanas? / Se ficaste curioso e queres ter o teu próprio “amigo” digital, podes fazer a pré-encomenda do Friend nos Estados Unidos e Canadá. / O preço é de 99 dólares e, por enquanto, só é compatível com iOS. Mas quem sabe, se a procura for grande, talvez chegue a Android em breve.

O futuro da amizade?

O Friend é mais do que um dispositivo, é um vislumbre do futuro da nossa relação com a IA. Será que estamos prontos para ter amigos digitais? / Só o tempo dirá. Mas uma coisa é certa: o Friend veio para ficar e promete mudar a forma como vemos a inteligência artificial.

***

Ouvi falar desta aplicação ontem. Fui investigar um pouco e percebi que tinha sido inventado por um ex-aluno de Harvard. O objectivo é que as pessoas se sintam menos solitárias com o Friend, um colar com IA e microfone com o qual pode conversar-se.

Para uma pessoa da minha idade, esta realidade arrepia. É uma surpresa? Não. Mas é aterradora: se for nas camadas mais jovens da sociedade, pelos problemas que causa em termos de relacionamento humano; se for na população mais idosa, pelo desespero que traduz.

Para uma pessoa como eu, que não tem redes sociais (com excepção do Linkedin) que não sabe como funciona o Instagram ou ex-Twitter, e que não tem qualquer interesse (nem sequer científico) em dominar o funcionamento, a utilização do telemóvel, para além do que é estritamente funcional e prático, já configura uma relação virtual. Ainda que do outro lado de um telemóvel esteja um amigo que me conhece bem, que sabe do que falo quando menciono o tópico A ou B, nada substitui o contacto presencial, ainda que só se discuta o tópico A ou B. Ou seja, posso saber tudo sobre a vida de alguém só conversando com esse alguém pelo telefone ou pelo zoom, mas isso não substitui o frente a frente. 

A solidão não se combate, seguramente, com um amigo virtual que nos faz comentários (às vezes até atrevidos); em bom rigor, a solidão nem sempre se combate com um telefone que (não) toca numa casa que parece grande de mais. A solidão combate-se com o toque humano, com a observação da linguagem corporal, com a identificação de um tom de voz, com uma atenção tão plena quanto possível ao outro. Saber tudo sobre a vida de alguém através de conversas diárias por telemóvel não é mais do que saber tudo sobre a vida de alguém. Mas não é, seguramente, conhecer a vida de alguém, nem é um combate saudável da solidão. É um artifício - e isso, como os cominhos, deve ser usado com parcimónia.

Dizem que nunca houve tanta solidão como neste tempo em que estamos todos conectados. Talvez porque digamos, para dourar o nosso sentimento de culpa (e eu disse-o!) que falamos todos os dias com fulan@, embora o que fulan@ queira seja uma visita, um abraço, um beijo - e não um telefonemaEm bom rigor, fulan@ pode viver a 45 minutos de nossa casa, mas a preguiça, a falta de vontade ou a falta de caridade impedem-nos de algo mais do que dizer: ainda ontem falei com... E a frase dá-nos um ar de atenção e de preocupação pelo outro que nos deixa dormir melhor à noite. Como dizem os ingleses, been there, done that. 

Imaginar a solidão de cada um colmatada por um amigo virtual pendurado ao pescoço é terrível. E mais terrível ainda é pensar que isso poderá ser o futuro. Ou, pior ainda, que pode ser a solução.

JdB 

09 agosto 2024

Pensamentos dos dias que correm

 A Solidão é Necessária ao Convívio

As pessoas estão prontas a viver em bom entendimento, mas não querem ser viciadas em agradar. A condição humana assenta num pressuposto equilibrado: a vida agrada a uns e desagrada a outros. Há uma parte da solidão que não podemos compor, e é melhor que assim seja, porque é na solidão que assenta a diferença tão falada. É isso que se receia: que nos proíbam a solidão, esse pequeno espinho que afinal nos faz solidários na multidão. Observem um grupo de pessoas que ri da mesma anedota: estão abertas a esse prazer do momento, mas não se distraem da faculdade de serem sós na sua fundamental forma de orgulho que é serem únicas. A moral consta duma certa dose de cortesia para parecermos bons. «Só Deus é bom.» Se percebermos esta conclusão, percebemos que imitar o bem é tudo o que humanamente nos é permitido. 

Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'

04 fevereiro 2022

Textos dos dias que correm

 Quem não Ama a Solidão, não Ama a Liberdade

Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.
Assim como o nosso corpo está envolto em vestes, o nosso espírito está revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas acções, todo o nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo.

Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre.
A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.

Ademais, quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Assim, é um benefício para ela se à solidão física corresponder a intelectual. Caso contrário, a vizinhança frequente de seres heterogéneos causa um efeito incómodo e até mesmo adverso sobre ela, ao roubar-lhe seu «eu» sem nada lhe oferecer em troca. Além disso, enquanto a natureza estabeleceu entre os homens a mais ampla diversidade nos domínios moral e intelectual, a sociedade, não tomando conhecimento disso, iguala todos os seres ou, antes, coloca no lugar da diversidade as diferenças e degraus artificiais de classe e posição, com frequência diametralmente opostos à escala hierárquica da natureza.
Nesse arranjo, aqueles que a natureza situou em baixo encontram-se em óptima situação; os poucos, entretanto, que ela colocou em cima, saem em desvantagem. Como consequência, estes costumam esquivar-se da sociedade, na qual, ao tornar-se numerosa, a vulgaridade domina.

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

02 junho 2020

Duas Últimas

Muito provavelmente aconteceu comigo o que aconteceu com outros. Talvez mais com outros, dado o meu interesse menos entusiasmado pela chamada música pop do que a generalidade dos meus amigos da mesma idade. Contudo, em festivais, em boîtes, em festas ou, simplesmente, no remanso de um quarto, de um carro ou de um namoro, cantei muitas músicas pop. Hoje percebo que cantava muito sem perceber o que cantava; e percebo que a música, em quase todos os casos, tem mais poder sobre nós do que a letra. 

De facto, e na generalidade dos casos, cantava porque a batida da música - fosse lenta ou agitada - me impelia a isso. Talvez tenha mesmo, no desvario da minha adolescência, sei lá eu, cantado músicas que apelavam ao racismo, à expulsão dos professores, à morte dos padres ou ao incesto. Não sei, imagino eu. Não sei o que cantava, limitava-me a muitas vezes a papaguear palavras ao som de uma música que me agitava o interior.

Na sequência de uma das minhas leitura para efeitos de doutoramento (A Biography of Loneliness) li que Eleanor Rigby, uma música dos Beatles que conheço desde que ela chegou a Portugal, reflecte a preocupação que McCartney, o autor da letra, manifestava, desde criança, pelos idosos. 

[a título de curiosidade, estou a ler outro livro chamado A History of Solitude. Se Loneliness é solidão, solitude é estar sozinho... Dava-me jeito a facilidade dos brasileiros, que traduziram solitude (em inglês)... por solitude (em português)]

Eleanor Rigby seria uma velha solteirona que recolhe o arroz após um casamento que ela nunca gozará. Confesso que não fui investigar; mas fui buscar a letra para perceber que, de facto, cantei isto muitas vezes, talvez numa dada altura soubesse tudo de cor. Mas, na verdade, talvez não fizesse a mais leve ideia do que estava a cantar. Passadas algumas décadas, a pergunta all the lonely people / where do they all come from? já não faz sentido. Sabemos bem de onde vêm. 

JdB

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Eleanor Rigby

Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people

Eleanor Rigby
Picks up the rice in the church where a wedding has been
Lives in a dream
Waits at the window
Wearing the face that she keeps in a jar by the door
Who is it for?

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

Father McKenzie
Writing the words of a sermon that no one will hear
No one comes near
Look at him working
Darning his socks in the night when there's nobody there
What does he care?

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people

Eleanor Rigby
Died in the church and was buried along with her name
Nobody came
Father McKenzie
Wiping the dirt from his hands as he walks from the grave
No one was saved

All the lonely people (ah, look at all the lonely people)
Where do they all come from?
All the lonely people (ah, look at all the lonely people)
Where do they all belong?


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