15 março 2017

Gente que vou conhecendo *

Agarremos as duas dimensões bastantes para caracterizar a Cidália: a física e a comportamental, já que o resto são floreados que pouco acrescentam à identificação da personagem.

Físicamente, a rapariga (38 anos, bióloga marinha, investigadora, amante de ficção científica e da doçaria conventual) situa-se numa espécie de trave olímpica com metade da largura. Alguns, metaforicamente falando, dirão que tomba para o lado de um excesso ponderal mínimo, quiçá imperceptível. Que pena, bastariam um ou dois quilos...; outros, presos à mesma metáfora, dirão que não, que é uma mulher muito interessante (uma educação verbal que suaviza a concupiscência do olhar).

Quanto ao comportamento, Cidália poderia ser classificada com uma palavra apenas: submissa. Em querendo compor-se a descrição poderia acrescentar-se uma segunda, como alguém que revela apelido, nome próprio: submissa. Naturalmente submissa. Profissionalmente é aquilo a que se chamaria, na aridez pouco criativa do jargão das empresas, uma excelente número dois. Discreta, desejosa de uma transparência cómoda, é o sossego dos recursos humanos em tempos de crise: não ambiciona subir.

Invistamos ainda um pouco na intimidade de Cidália, que é casada há 15 anos com Bruno (41 anos, engenheiro informático, coleccionador de revistas temáticas, adepto do Esperança de Lagos e devorador de pipocas) e de quem ele também poderia dizer: submissa. Naturalmente submissa. A bióloga vai por onde o Bruno vai, faz o que o Bruno faz, deixa-o brilhar nos convívios sociais, nos jogos de mímica, no quem quer ser milionário em versão de sofá caseiro, nas noites de sexo ao som dos UHF. Digamos, entrando de mansinho num erotismo arrojado que, no leito, Cidália mantém a mesma atitude promocional: não ambiciona subir. Bruno, gerente de uma empresa no Cacém, é mestre no trocadilho, e entre uma revista sobre processadores e um olhar lascivo, garante que gosta de estar em cima do acontecimento. E ri muito, porque lhe disseram que rir é o melhor remédio.

A lua está cheia e as marés estão altas, e o povo diz que é nessa altura que as mulheres se fixam mais. Numa cama conforama com lençóis de um negro sinistro, Bruno exercita a sua virilidade, revelando um corpo sem adiposidade. Cidália segue-o, cumpre sem louvor e sem gozo, deixa que ele, metaforicamente, afirme saber mais de bivalves do que ela, bióloga marinha e investigadora. Mas num instante, num minúsculo instante, o olhar dela transtorna-se, atravessa os peitorais do informático e aterra numa aldeia da Baixa Saxónia de onde veio o avô, o pai do avô e outros avôs até à quinta geração - porque de mais longe não se herda - e da sua boca começaram a sair, num jorro de água solta, uma infinidade de palavras em alemão. Bruno esquecera a costela teutónica da mulher e surpreendeu-se quando ela gritou Deutschland uber alles. Era tarde...

JdB

* publicado originalmente em 23 de Fevereiro de 2011

14 março 2017

Duas Últimas

Voltei a posar para um amigo que vai pintando sequencialmente uma série de amigos. As primeiras vezes (sim, sou repetente nesta matéria) as duas horas que lá passava eram mais difíceis. Ele concentrado no seu mister, eu, em silêncio, combatendo o sono do pós-almoço e tentando descortinar uma história na paisagem em frente, repleta de casa e vegetação, deserta de gente. Agora é tudo mais fácil: levo o meu iPod, uma coluna boa que me deram que pouco maior é do que uma caixa de óculos e faço a selecção musical: ouvimos milongas, Dick Farney, Diego el Cigala, Borodin ou Saint-Saens. Ele já não requer a minha imobilidade, eu entretenho-me a apresentar-lhe algumas coisas que ele desconhece. Volta e meia encontramos uma boa frase numa letra, como a de alguém que falava num silêncio conventual

Deixo-vos com Ana Vidovic, uma cara simpática e interessante a tocar coisas venezuelanas,  um género musical que muito me apraz e que também nos fez companhia, pelas prodigiosas mãos de John Williams. Una limosna por el amor de Dios remete-nos para um tempo muito passado. Uma esmolinha, pediam os pobres. Tenha paciência, respondiam os mais afortunados, como se a pobreza - e a pobreza genuína, de quem vive da caridade mais básica - se suportasse com uma paciência evangélica; como se a pobreza uma fatalidade na vida de alguns. No fundo, havia que ter paciência para a pobreza, como há que ter paciência para tanta coisa - o trânsito, a carestia de vida, os hotéis cheios do Algarve, a chuva a desoras.

JdB 

 

13 março 2017

Dos olhos e do Lindoso

- Você sabe, aquela ideia dos jornais taparem os olhos das pessoas para que elas não sejam reconhecidas é ridícula. Acha que o Cavaco Silva só reconhecido pelos olhos, e não pela boca? Ou o António Costa com aquela cor indiana? Ou o Tolstoy e aquela barba? Além disso, não sei se você sabe que, no que se refere ao contacto com os outros, a visão é um sentido difícil de interpretar. Ou seja, quando alguém olha para nós nunca sabemos exactamente que olhar é aquele.... Você está a ouvir alguma coisa do que eu estou a dizer, António Bernardo?

António Bernardo sobressaltou-se, mas não tirou as mãos do livro que folheava naquele momento. Há muito que perseguia aquela Resenha Histórica das Famílias Nobres do Alto Lindoso, com profusas ilustrações do autor, que encontrara numa oportunidade fantástica num alfarrabista em mudança de colecção. 

- Estou a ouvir tudo, Matilde. Os olhos, o Cavaco, o Costa e o russo. 

- Há essa coisa da iridologia, uma técnica que permite ver doenças nas pessoas só de olhar para a íris. Mas eu falo de um nível diferente. No fundo, olhar para alguém e perceber o que traduz aquele olhar: raiva, desejo, simplicidade, compaixão. Não lhe descortinar o fígado, mas adivinhar-lhe o momento. Eu acho que sou muito sensível aos olhos de uma pessoa, estou sempre a detectar sinais.

- Acho isso fantástico, Matilde. Eu lembro-me de falarmos nisso quando casámos e você achou que o sacristão tinha olhos de desdém. Eu só via olhos castanhos, mas você via-lhes desdém. 

- Tem de andar mais para trás, António Bernardo. Foram os seus olhos que me perderam naquele cocktail da tia Mariazinha, quando nos conhecemos. Vi-o no jardim e percebi que estava agarrada como uma drogada; os seus olhos revelavam muito do que vim a conhecer e que tanto me atraiu... Riram para mim, percebe?

António Bernardo afagou de novo o livro, mirando-o por todos os lados: estava encadernado com rigor, perícia, gosto, cabedal e ouro. Olhou pela janela aberta da sala e tentou o impossível: sentar virtualmente na sua sala as famílias nobres do Alto Lindoso, como se uma aristocracia de antanho pudesse estar ali com ele, a falar dos sucessos e das conquistas, da fé e das caçadas, da voragem expansionista que estimula e atemoriza; uma conversa aprazível, pares entre pares, sem que a presença de uma televisão, de um aquecedor a óleo ou de um cachimbo estilizado lhes tolhesse o discurso por se perceberem uma nota dissonante. 

Não conseguiu ver ninguém, a não ser a Clara, sua colega no escritório: uma rapariga bonita, da sua idade, jovem advogada que se formara com uma nota fantástica num faculdade desafiante. António Bernardo escondera-lhe o seu casamento que atravessava um ligeiríssimo momento rotineiro, apesar do amor existente. Clara era alta, magra, de feições correctas, vinda de Germil (Ponte da Barca, Lindoso). Acima de tudo adivinhava-lhe os pensamentos olhando-o profundamente nos olhos:

-  Gostavas de beijar-me, António Bernardo? Ou de mais alguma coisa, já agora? Porque é isso que dizem os teus olhos... 

E António Bernardo sorria e beijava-a de olhos muito abertos, para que a Clara, nascida no Lindoso, lhe visse a alma, o desejo ou talvez, quem sabe, o remorso pela traição à Matilde, a mulher de quem ele gostava e para quem os olhos não tinham supostamente segredo.

- Estás triste, António Bernardo? Os teus olhos não enganam...

António Bernardo pousou o livro, deitando um último olhar a uma das profusas ilustrações do livro, fixando o olhar num senhor antigo, afagando um podengo à lareira. Olhou para a Matilde e quis esquecer a Clara, a elegância da Clara, a clarividência da Clara (uma associação onde encontrava um presságio curiosos...). Fixou os olhos em Matilde que, sorridente, lhe devolveu o olhar:

- Não me faça esses olhos doces, António Bernardo, de cão triste que quer um afago e cinco minutos de atenção. Já o conheço tão bem... Esses olhos nunca me enganaram. Quer ir beber um chá para se animar?

António Bernardo levantou-se e agarrou Matilde pela cintura. Levantou-a e sentou-a nas costas de um sofá. Depois, olhando muito para ela, beijou-a ardentemente, sensualmente, com uma voracidade inaudita. Afagou-a como se afaga uma fato novo ou um livro raro - com sensibilidade e paixão. Desejou-a mais do que nunca e disse-lho. Um desejo carnal, quase animal, carregado também de um amor que ele conseguia dividir com a Clara (Germil, Lindoso). No fim, deitados os dois no sofá, semi-vestidos e ofegantes, sorriram um para o outro.

- O que lhe dizem os meus olhos agora, Matilde?

JdB     

         

12 março 2017

II Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Mt 17,1-9

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão
e levou os, em particular, a um alto monte
e transfigurou Se diante deles:
o seu rosto ficou resplandecente como o sol
e as suas vestes tornaram se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés a outra para Elias».
Ainda ele falava,
quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra
e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência. Escutai O».
Ao ouvirem estas palavras,
os discípulos caíram de rosto por terra a assustaram se muito.
Então Jesus aproximou se e, tocando os, disse:
«Levantai vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão,
até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

11 março 2017

Pensamentos Impensados

Meio e metade
Oiço na TVI um repórter dizer meio dia e meio. Meio quê? Meio bife? Meio de Transporte? Não haverá meio de travar estas calinadas?

Meio soprano refere-se à metade do umbigo para cima que é onde está o diafragma, os pulmões, a traqueia e os órgãos da fala.

Quanto é a metade de 8? Peguem no 8 e cortem-no de alto a baixo, e verão que uma metade é um 3 e a outra é um E. Logo, a metade de 8 E3.

Carreiras
O CEO não é o limite.

Velocidades
O campeão dos 100 metros, corrida, é um best célere.

Mistérios
Ainda não percebi o caso dos ovos chocos do Panamá. Ainda vão atirar as culpas para cima do galo.

Escribas
Hércules tinha umas colunas, só não se sabe em que jornal.

Novo acordo
O óptimo é inimigo do ótimo.

SdB (I)

10 março 2017

Textos dos dias que correm

izhphoto/Bigstock.com

Perdi-te, mas procuro-te

A Igreja é um grande hospital ao serviço 24 horas sobre 24 há dois mil anos. Um hospital ao serviço para todos. Para quem tem um seguro e para quem não o tem. Para os ricos e para os que nada têm. Para gente famosa e para gente desconhecida e marginal. Um grande hospital em que se enfrenta cada doença, por muito avançada que esteja, por infeciosa e mortal que seja. Um grande hospital em que se entra doente e se sai curado, como a mulher com hemorragia. Entra-se perseguidor e sai-se apóstolo, como Paulo. Entra-se pecador e sai-se santo, como Santa Maria Egizíaca. Entra-se lobo e sai-se cordeiro, como S. Moisés, o Etíope. Entra-se cadáver em decomposição e morto há quatro dias, e ressuscita-se, como Lázaro. Porque na Igreja não há morte. Não há mortos. A Igreja é a terra dos vivos, onde há vida e sobreabundância de vida, isto é, Cristo.

A Igreja oferece há séculos os seus próprios medicamentos, de modo a salvar o mundo; há séculos ela própria tem resultados miraculosos: gera santos. Em nenhum outro lugar, onde quer que seja, nascem santos, a não ser na Igreja. Noutros lugares encontramos pessoas boas, santos não. Porque os santos, homens como nós, que connosco partilham enfermidades e doenças, entraram na Igreja e entregaram-se sem reservas às diretivas do médico. E Cristo, que não só é médico mas também pai, entrega-se a quantos se lhe entregaram. Inclina-se sobre eles amorosamente, totalmente, como só Ele sabe; conforta, assiste, cura, santifica e glorifica. O Cristo misericordioso faz-se tudo para todos para salvar o homem.

A Igreja, mesmo se a renegamos, continua uma mãe que anseia por recolher os seus filhos. Anseia e espera, na esperança de que nós, mesmo depois de muitos anos, a ela voltemos. Mas o nosso regresso à Igreja pressupõe uma consciência, que não é vazia. Há um Pai que nos ama fielmente, de maneira inalterável para sempre. Qualquer que seja o estado em que nos apresentemos, qualquer que seja o lugar de onde somos provenientes, por quão dissolutos que possamos ter sido, há um Pai que saiu ao caminho e nos espera.

Se conseguíssemos dizer às pessoas esta única poderosa e consoladora verdade: que na Igreja dás lágrimas e recebes remissão; que Cristo não se ocupa dos nossos pecados mas do nosso arrependimento. Se conseguíssemos dizer aos jovens para não hesitarem, qualquer que seja a maneira como viveram, a regressar à Igreja. Porque a Igreja é mãe e, quando a ela voltamos, não pergunta para saber o que fizemos, mas olha-nos nos olhos para ver o que sofremos, a que farrapos fomos reduzidos. A vida da Igreja e o seu amor por nós não dependem nem da nossa miséria nem da nossa santidade, mas de Cristo.

Se conseguíssemos dizer aos nossos filhos que o sacerdote, qualquer que seja, é capaz de fazer aquilo que nem sequer os anjos podem fazer: a divina liturgia. Ou seja, ele faz descer Deus à Terra. Faz descer a Mãe de Deus. Faz descer milhares de anjos que se aglomeram ali, no templo, mas que nós não temos olhos para ver. Esta é a divina liturgia. Homens e anjos e santos juntos. Vivos e defuntos, avós e bisavós, os crentes de todos os séculos. Todos membros de Cristo. Corpo de Cristo. Ossos de Cristo. Contigo que amo e contigo que negligencio. Com os familiares e com os inimigos. Todos um só corpo. Isto acontece em cada liturgia. Isto acontece na Igreja. Para nós. Esta é a Igreja. Mãe de uma força ilimitada, de um alcance ilimitado. Basta que nos confiemos a ela. (...)

Vivemos em tempos extremos. O rio parece não ter retorno. O pecado multiplicou-se à desmesura, e disso todos somos culpados. Sentimo-nos inocentes, mas não o somos. Todos temos uma quota de responsabilidade, mesmo se não o queremos reconhecer. Por isto chora a Igreja.

Se não nos arrependermos nunca amaremos como ama quem obteve misericórdia, nem nunca compreenderemos como ama a Igreja. Há a história de uma mãe viúva que perdeu a sua filha adolescente. Tinha ido para a capital e vivia de forma bastante livre, em casas de prazer. Era impossível encontrá-la. Desesperada, a mãe fez várias cópias de uma fotografia sua e por baixo escreveu: Filha minha, perdi-te, mas não te esqueci. Filha minha, perdi-te, mas procuro-te». A mãe colou-a junto às casas de má reputação. Um dia, anos depois, a jovem, entrando numa dessas casas, encontrou-se diante da fotografia da sua mãe. E pela primeira vez, depois de anos, no seu coração deserto abriu-se uma fenda e começaram a jorrar lágrimas. Pela primeira vez, depois de anos, os olhos da filha rebentaram de pranto. Pela primeira vez, depois de anos, recordou-se da sua origem, da mãe que a tinha gerado, e regressou, para nunca mais sair.

É isto que também a Igreja tem feito por nós. Colocou em todo o lado a sua fotografia: o ícone, o campanário, o Evangelho, o confessor, a estola santa. Colocou em todo o lado a sua fotografia e diz, também a nós, as mesmas palavras: «Filho meu, perdi-te, mas não te esqueci. Filho meu, perdi-te, mas procuro-te». Na esperança que também o nosso coração de pedra abra uma fenda. Na esperança de que os nossos olhos, ressequidos pela "esclerose do coração", infundam lágrimas. Na esperança de que regressemos à verdadeira mãe. À mãe que salva, tem compaixão e bendiz o mundo. Esta é a Igreja dos apóstolos. Esta é a Igreja dos Padres. Esta é a Igreja dos santos. É esta Igreja que tem sustentado o universo.


Maria Mourzà
Cristã ortodoxa ligada espiritualmente ao Monte Athos
In "L'Osservatore Romano", 8.3.2017
Trad.: SNPC
Publicado em 08.03.2017

09 março 2017

Da voz

Jorge cuidava-se. Não usava bálsamos pré ou pós barba, não exigia champôs especiais ou cremes que retardassem as rugas e rejuvenescessem a pele. E no entanto, cuidava-se. Lia amiúde, mas, sempre que possível, na língua original: ia a um ensaio académico, a um haiku bem traduzido, aos clássicos franceses, aos realistas portugueses, à poesia experimentalista. Não se podia inferir daqui falta de critério, mas cuidado, apenas, com a língua. Jorge privilegiava, acima de tudo, a arte de bem falar, que era a arma com que encantava as mulheres. Para todas tinha um galanteio educado, uma graçola de oportunidade, uma tirada a propósito. Dizia uma linha de um verso, uma ideia de um estudo científico, uma sextilha popular ou uma citação em francês. As mulheres derretiam-se, porque aliada à erudição havia uma voz bem colocada, radiofónica, potente sem ser metálica, doce sem ser lamechas. 

Jorge viveu assim anos a fio. Solteiro, fez da conquista decente e educada o seu hobby. Havia quem não cozinhasse gaspacho com tomate pelado; havia quem não colocasse caldos de legumes para intensificar o sabor. Jorge não perturbava casamentos, namoros, compromissos sérios. Respeitava idades mínimas e máximas e, se tivesse dificuldade em galantear senhoras com dificuldades auditivas, isso assentava na ideia de que as armas dele não tinham validade naquele terreno: como se cita um soneto a quem não o ouve, ou está sempre a inquirir "como?"; como fazer rir uma senhora que tomba a cabeça em permanência na procura de uma onda sonora que lhe penetre o ouvido da melhor forma...

Um dia, Jorge foi ao médico. Na semana seguinte era operado de urgência, um mês depois perdia por completo as capacidades vocais. Deitado na cama de um hospital, com um caderno ao lado e de olhos fitos numa parede onde o olhar dele não parava porque se estendia até ao infinito onde residem todas as nossas dúvidas, Jorge pensou na vida, nas senhoras, na métrica do fado ou na não métrica dos ingleses, em Flaubert, em Eça, em Walt Whitman ou nos russos. Pensou na conquista, na sua arma infalível que agora era obsoleta, inútil, desajustada. Pensou na voz que se esvaíra e, com isso, a parte mais substantiva da sua cadeia de valor. Como explicar, com um caderninho na mão, que a sua voz era assim, a entoação era assado, a projecção era cozido? Como conquistar terreno alheio sem a password que abre todas as portas, que facilita todas as entradas?

Jorge sorriu e, nesse mesmo instante, o seu olhar deteve-se na parede em frente, naquele ponto fixo, porém imaterial, onde assentam as nossas certezas, as nossas convicções, os nossos propósitos de curto prazo, os nossos desejos que se cumprem já já. Uma semana depois, ainda em convalescença, receberia a visita de Goreti, manicura jovem, solteira, vagamente estrábica e ruiva, com valência de voluntariado naquele hospital. Jorge, o homem para quem a voz tinha sido tudo e passara a ser apenas uma saudade, estendeu-lhe as duas mãos e sorriu. Uma hora depois, num fim de tarde modorrento de fim de Verão, ecoaria pelos corredores do hospital uma frase quase gritada, quase estremecida, quase indignada, quase satisfeita: senhor Jorge, senhor Jorge, veja lá onde põe as mãos.

Jorge olhou para as duas mãos com um vagar interessado. Aqueles alexandrinos eram bons, mas talvez prematuros...

JdB

          

08 março 2017

Pensamento Impensado (e não condecorado)



Penduricalhos
Se lhes têm dado tempo, teriam condecorado o Zé do Telhado, o Miguel de Vasconcelos, o Buiça e também o É de Cetra.

SdB (I)

Duas Últimas

Parceria é uma das várias palavras de que se usa e abusa no dicionário economicista que diária e crescentemente nos fustiga. Nem sempre pelos melhores motivos: lembremos por exemplo as famigeradas parcerias “público-privadas”, que no meu entender merecem (ou mereceram) tal adjectivo sobretudo porque o nosso bem-amado estado nunca conseguiu ser eficaz na defesa do interesse publico que lhe deve pertencer. 

A despropósito, lembro-me ainda de uma frase que há já alguns anos ouvi ao meu antigo patrão. Mais ou menos isto: “cuidado com os sócios, espécie em regra ingrata e traiçoeira”. Na altura não liguei muito, mas hoje em dia penso que a deve ter proferido em épocas como a da “distribuição de resultados” ou a da “venda da empresa x, normalmente industrial, para investir na y, normalmente de serviços”. Lá teria as suas razões. Não tendo a concordar com a frase, certamente por ingenuidade ou boa vontade! 

Entretanto, um exemplo feliz de uma parceria de sucesso é sem dúvida a que em boa hora (2015) foi feita, ou talvez reforçada, entre Ana Moura e Abrunhosa. Casando bem a inspiração do primeiro com a voz sensual e muito própria da multifacetada artista ribatejana. 

Espero que apreciem a escolha.

fq

07 março 2017

Vai um gin do Peter’s?

Haverá quem vislumbre algo dos mistérios da vida? E vislumbrando, saberá falar deles aos seus conterrâneos? Se souber, é garantido que saberá (e estará a) ajudar as gerações posteriores, pois as interrogações mais profundas são comuns a todo o ser humano, sendo as respostas igualmente universais e intemporais. 

Numa das suas prédicas inspiradas, aquele que conhecemos por Imperador da Língua Portuguesa partilhou com os do seu tempo uma reflexão espantosa sobre a vida e a morte, sobre este momento e o que virá, sobre o que somos e o que nos espera. Para lá da muita, da pouca ou da nenhuma fé, basta um mínimo de “saber de experiência feito” para se acompanhar o brilhante encadeado de ideias do Pe.António Vieira, SJ (1608-1697). 

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Citação lapidar: «Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem


O sermão proferido há 4 séculos, na Quarta-feira de Cinzas de 1672, chega-nos com total actualidade e acutilância. Servia para 1 de Março de 2017, como serve para qualquer outro dia que nos apanhe disponíveis para meditar sobre o sentido da existência: perceber quanto o hoje se esvai depressa num ontem irrecuperável, ao mesmo tempo que galga para um amanhã a que poderemos dar maior rumo e alcance, em querendo tomar consciência do instante presente. Incrivelmente simples e exigente, em doses iguais. 

Naquela Quarta-feira do século XVII e replicável em 2017 é espantosa a poesia em volta do vento, formando uma imagem poderosa e figurativa sobre a beleza fugaz da existência humana: «Assim andou levantado o pó enquanto durou o vento.»  Como bem gizada a estratégia de vida pragmática: «(…) saibamos usar da morte e da imortalidade. Tratemos desta vida como mortais, e da outra como imortais.» Como extraordinária a citação que recupera de Sto. Agostinho a observação sobre a incómoda semelhança entre os que dormem o sono da morte, não se distinguindo o rico do pobre, o adolescente do idoso, o negro do branco, o feio do bonito, o erudito do ignorante. A lista não teria fim, expondo bem a artificialidade e vacuidade das medidas de diferenciação a que nos apegamos em demasia.  Falaciosamente, sustentamos nessa ventania de miragens atitudes e alegados estatutos, que apenas escondem um orgulho dissimulado. Uma comédia de enganos e atropelos. 

Qual mestre do suspense, voamos com a sua poesia e aterramos, depois, no aqui-e-agora que ainda é nosso, ainda permite escolhas: 

Excerto do Sermão 

«1.ª parte:  Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer; outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem-na os olhos, a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, et in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter. Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura.

2.ª parte:  Apareceu Deus ao mesmo Moisés nos desertos de Midiã; manda-o que leve a nova da liberdade ao povo cativo, e perguntando Moisés quem havia de dizer que o mandava, para que lhe dessem crédito, respondeu Deus e definiu-se: Ego sum qui sum: Eu sou o que sou. E que nome, ou que distinção é esta? Também Moisés é o que é, também Faraó é o que é, também o povo, com que há-de falar, é o que é. Pois se este nome e esta definição toca a todos e a tudo, como a toma Deus só por sua?

3.ª parte:  Notai. Esta nossa chamada vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó: do pó que fomos ao pó que havemos de ser. Uns fazem o círculo maior, outros menor, outros mais pequeno, outros mínimo. (…) O pó que foi nosso princípio, esse mesmo, e não outro, é o nosso fim, e porque caminhamos circularmente deste pó para este pó, quanto mais parece que nos apartamos dele, tanto mais nos chegamos para ele; (…) o dia que faz a vida, esse mesmo a desfaz. E como esta roda que anda e desanda juntamente sempre nos vai moendo, sempre somos pó.

4.ª parte:  Ah! pó, se aquietaras e pararás aí! Mas pó assoprada, e com vento, como havia de aquietar? Ei-la abaixa, ei-lo acima, (…) dando uma tão grande volta, e tantas voltas. Já senhor do universo, já escravo de si mesma; já só, já acompanhado; já nu, já vestido; (…) trabalhando, lidando, fatigando, com tantos vaivéns do gosto e da fortuna, sempre em uma roda viva. Assim andou levantado o pó enquanto durou o vento. O vento durou muito, porque naquele tempo eram mais largas as vidas, mas ao fim parou. E que lhe sucedeu no mesmo ponto a Adão? O que sucede ao pó. Assim como o vento a levantou, e o sustinha, tanto que o vento parou, caiu. Pó levantado, Adão vivo; pó caído, Adão morto: Et mortus est.

5.ª parte:  Abri aquelas sepulturas, diz Agostinho, e vede qual é ali o senhor e qual o servo; qual é ali o pobre e qual o rico? Discerne, si potes: distingui-me ali, se podeis, o valente do fraco, o formoso do feio, o rei coroado de ouro do escravo de Argel carregado de ferros? Distingui-los? Conhecei-los? Não por certo. O grande e o pequeno, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, o senhor e o escravo, o príncipe e o cavador, o alemão e o etíope, todos ali são da mesma cor.

6.ª parte:  Ninguém morre para estar sempre morto; para isso a morte nas Escrituras se chama sono. Os vivos caem em terra com o sono da morte: os mortos jazem na sepultura dormindo, sem movimento nem sentido, aquele profundo e dilatado letargo; mas quando o pregão da trombeta final os chamar a juízo, todos hão-de acordar e levantar-se outra vez. Então dirá cada um com David: Ego dormivi, et soporatus sum, et esxurrexi. Lembre-se pois o pó caído que há-de ser pó levantado. (…)

7.ª parte:  Quando considero na vida que se usa, acho que não vivemos como mortais, nem vivemos como imortais. Não vivemos como mortais, porque tratamos das coisas desta vida como se esta vida fora eterna. Não vivemos como imortais, porque nos esquecemos tanto da vida eterna, como se não houvera tal vida.

Ora, senhores, já que somos cristãos, já que sabemos que havemos de morrer e que somos imortais, saibamos usar da morte e da imortalidade. Tratemos desta vida como mortais, e da outra como imortais. Pode haver loucura mais rematada, (…) que empregar-me todo na vida que há-de acabar, e não tratar da vida que há-de durar para sempre? (…)  Tantas diligências para esta vida, nenhuma diligência para a outra vida? Tanto medo, tanto receio da morte temporal, e da eterna nenhum temor? (…)

A morte tem duas portas: Qui exaltas me de portis mortis. Uma porta de vidro, por onde se sai da vida, outra porta de diamante, por onde se entra à eternidade. Entre estas duas portas se acha subitamente um homem no instante da morte, sem poder tornar atrás, nem parar, nem fugir, nem dilatar, senão entrar para onde não sabe, e para sempre. Oh! que transe tão apertado! Oh! que passo tão estreito! Oh! que momento tão terrível!

Aristóteles disse que entre todas as coisas terríveis, a mais terrível é a morte. Disse bem mas não entendeu o que disse. Não é terrível a morte pela vida que acaba, senão pela eternidade que começa. Não é terrível a porta por onde se sai; a terrível é a porta por onde se entra. Se olhais para cima, uma escada que chega até o céu; se olhais para baixo, um precipício que vai parar no inferno, e isto incerto. (…)

Terrível escada para quem não sobe, porque perde o céu e a vista de Deus, e mais terrível para quem desce, porque não só perdeu o céu e a vista de Deus, mas vai arder no inferno eternamente. (…) Ali, senhores, não se teme a morte, teme-se a vida. (…) Oh! que diferentes parecerão então todas as coisas desta vida! Que verdades, que desenganos, que luzes tão claras de tudo o que neste mundo nos cega! Nenhum homem há naquele ponto que não desejara muito uma de duas: ou não ter nascido, ou tornar a nascer de novo, para fazer uma vida muito diferente. Mas já é tarde, já não há tempo: Quia tempus non erit amplius (Apc. 10,6).

Cristãos e senhores meus, por misericórdia de Deus ainda estamos em tempo. (…) Julgue cada um de nós, se será melhor arrepender-se agora, ou deixar o arrependimento para quando não tenha lugar, nem seja arrependimento. Deus nos avisa, Deus nos dá estas vozes (…). Se então havemos de desejar em vão começar outra vida, comecemo-la agora (…). Comecemos de hoje em diante a viver como quereremos ter vivido na hora da morte. (…)

Em que cuidamos, e em que não cuidamos? Homens mortais, homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos imos chegando mais à morte, e ela a nós, não se acabe com este dia a memória da morte. (…)

Esta é a melhor devoção e mais útil penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta quaresma. Tomar uma hora cada dia, em que só por só com Deus e connosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida. 

E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando-vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora. Primeiro: quanto tenho vivido? Segundo: como vivi? Terceiro: quanto posso viver? Quarto: como é bem que viva?»

Durante quase um século de vida, Pe. António Vieira fartou-se de incomodar os poderes instalados, insurgindo-se contra a escravatura e a inquisição. Esta última, valeu-lhe uns meses encarcerado em Coimbra, de onde saiu para Roma, destacando-se logo pelos seus exímios dotes oratórios. Entre os fãs das suas prédicas no púlpito, contava-se a rainha da Suécia, que o considerou o melhor pregador do seu tempo.



É também seu o alerta directo ao rei, de quem era muito próximo, mas a quem não poupou críticas frontais: «Basta, Senhor, que eu, porque roubo uma barca, sou ladrão, e Vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza.»  

Outras considerações antológicas de sua autoria:
  • «A justiça está entre a piedade e a crueldade: o justo propende para a parte do piedoso; o justiceiro para a parte do cruel.» 
  • «A humildade é essencialmente o conhecimento da própria dependência, da própria imperfeição e da própria miséria.»
  • «Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera.»
  • «Nenhuma coisa deste mundo pára ou permanece, todas passam.»
  • «Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários: ver e chorar? A razão e a experiência é esta: ajuntou a natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista (…). Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.» (in SERMÃO DAS LÁGRIMAS DE S. PEDRO, proferido na Catedral de Lisboa, na Segunda-feira da Semana Santa de 1669).


Havendo um hoje, significa que há tempo e vale a pena! O maior (e híper disseminado) equívoco é pensar que um rumo melhor compromete ou reduz a felicidade, quando é exactamente o oposto. O realizador persa Asghar Farhadi, que voltou a ganhar o Óscar do Melhor Filme Estrangeiro com «O Vendedor», tem-no revelado de forma original e interpelativa. 

Bem viver e bem morrer navegam nas mesmas águas, se forem límpidas. Para tomarmos um caminho mais livre e de horizonte mais amplo ajudará pensar (ou ir pensando): no presente – apanhamos a vida pelo lado certo?; para amanhã – alcançamos o que nos espera? É do Pe.António Vieira a metáfora cristalina: «A vida é uma lâmpada acesa, vidro e fogo. Vidro que com um sopro se faz e fogo que com um sopro se apaga


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

06 março 2017

Da surpresa

Velha Deli, Janeiro 2017


Uma conversa ainda com resquícios indianos faz-me abordar o tema: como nasceu o (sor)riso? No fundo, o que me interessa saber é quem / o quê, quando e em que circunstâncias (sor)riu pela primeira vez.

Vou presumir que há inúmeras teorias mas, para o devaneio em apreço, bastam-me duas: (i) o primeiro (sor)riso nasceu, primitivamente, do alívio de uma situação de perigo; (ii) o primeiro (sor)riso nasceu nos animais inferiores que o utilizavam pelo som - o repuxar dos cantos da boca e a exibição dos dentes provocava um ruído que para os outros animais significava "não sou perigoso". 

Como já aqui escrevi uma vez, é pelo sorriso que se estabelece o comércio entre os Homens. Rimos de (ou por causa de), mas sorrimos para. É por isso, por esta ligeira nuance, que acredito que as duas definições acima se referem a manifestações diferentes, embora correlatas: a primeira, a riso; a segunda, a sorriso.

A surpresa - ou uma certa surpresa, ou ainda uma surpresa manifestada de determinada forma - é o equivalente do sorriso, seja na sua versão facial, seja na sua versão verbal, que se desenvolve de seguida. Ou seja, é também a surpresa que estabelece o comércio entre os Homens, porque o comércio é uma troca de elementos, uma permuta de informações, opiniões, sensações ou artigos que determinam uma transacção. Se o sorriso diz ao outro "não sou perigoso", a surpresa abre uma porta: "estou interessado".

Uma troca de bens, serviços, palavras, emoções faz-se através de uma oferta e procura: do lado da oferta, quando alguém quer disponibilizar algo que outro (ainda) não tem; do lado da procura, a inversa do raciocínio precedente. Só me vendem cachimbos se eu não tiver nenhum e estiver interessado na sua aquisição, ou, tendo já muitos, quiser acrescentar ao stock (e um stock é uma colecção não trabalhada). O sorriso significa "pode entrar"; a surpresa (na sua íntima união com o verbo surpreender) significa "vai enriquecer o meu espólio". 

O sorriso estabelece um clima; a surpresa alavanca o clima, colocando o sucesso da troca no interlocutor. Quando nos surpreendemos por aquilo que o outro nos diz ou apresenta ou disponibiliza, estamos a revelar uma certa inferioridade saudável perante outro - descemos para que o outro suba, ou ficamos quietos para que o outro suba. O contrário disto é receber o vendedor de cachimbos com frases repetidas: "já tenho" ou "já tinha visto" ou "tem pouca relevância" ou "é só isto?". Onde quer que estejamos, o outro desce.      

Não sei como, onde e por quem se manifestou a surpresa pela primeira vez. Mas estou certo de ter sido alguém que quis dizer através de um sorriso: "estou interessado." Porque uma voz que não se surpreende é um rosto que não sorri. 

JdB

05 março 2017

I Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Mt 4,1-11

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto,
a fim de ser tentado pelo Demónio.
Jejuou quarenta dias e quarenta noites
e, por fim, teve fome.
O tentador aproximou se e disse lhe:
«Se és Filho de Deus,
diz a estas pedras que se transformem em pães».
Jesus respondeu lhe:
«Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».
Então o Demónio conduziu O à cidade santa,
levou O ao pináculo do templo e disse Lhe:
«Se és Filho de Deus, lança Te daqui abaixo, pois está escrito:
‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,
para que não tropeces em alguma pedra’».
Respondeu lhe Jesus:
«Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto,
mostrou Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória,
e disse Lhe:
«Tudo isto Te darei,
se, prostrado, me adorares».
Respondeu lhe Jesus:
«Vai te, Satanás, porque esta escrito:
‘Adoraras o Senhor teu Deus e só a Ele prestaras culto’».
Então o Demónio deixou O
e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.

***

A luta contra as tentações

O tempo da Quaresma é um tempo de prova, de luta, de resistência às tentações que nos assediam, é um caminho no deserto orientado para o dom de Deus, para o encontro com Ele. Por isso, no Evangelho do primeiro domingo deste tempo litúrgico (Mateus 4, 1-11) é desvelada a realidade da tentação suportada por cada ser humano, suportada pelo próprio Jesus, também Ele «filho de Adão». Significativamente, a Carta aos Hebreus revela-nos que o «próprio Jesus foi submetido à prova em cada coisa como nós, sem cair no pecado». Por isso venceu as tentações, mas não se isentou delas, porque na sua humanidade verdadeira e concreta havia a fragilidade, a debilidade da "carne".

Os Evangelhos não temem apresentar-nos um Jesus tentado pelo demónio, pelo adversário, Satanás, poder que induz o homem ao mal, isto é, a contradizer a vontade de Deus: isto ocorre para Jesus no deserto, logo após o Batismo, depois muitas outras vezes durante a sua missão e, por fim, na cruz. O Evangelho segundo Mateus atesta que, depois que Jesus recebeu a imersão no rio Jordão da parte de João Batista, «logo o Espírito o impeliu para o deserto, onde permaneceu quarenta dias, tentado por Satanás»: continuamente tentado. Na base deste testemunho Mateus e Lucas procuram dar-nos uma descrição, uma narração do que acontece, uma encenação de acontecimentos vividos por Jesus interiormente - poderemos dizer no profundo do seu coração e, portanto, da sua consciência -, provações que envolveram toda a sua pessoa, corpo e espírito.

Para Mateus e Lucas as tentações podem ser resumidas em três momentos, em três assaltos de Satanás. Instruídos pelas ciências humanas, hoje sabemos ler estas três provas como resistência aos três fenómenos libidinosos que nos habitam: "libido amandi", "libido dominandi" e "libido possidendi". São as tentações a que é sujeita toda a humanidade, como exprime bem o livro do Génesis quando diz que o ser humano «viu que a árvore» que não devia ser comida «era boa de comer, apetitosa à vista e ardentemente desejada para obter poder». Quando nós, humanos, entramos em relação com a realidade deste mundo, sentimos forças, necessidades, desejos que se desencadeiam em nós e que, se não são dominadas, impedem-nos de reconhecer a presença dos outros e de Deus, fonte de todo o dom. Também Jesus, homem como nós - e não deveremos escandalizar-nos por isso, nem duvidar da sua identidade de Filho de Deus, Palavra feita carne -, não ficou isento das tentações, não as removeu, mas atravessou-as medindo-se com elas, e assim venceu Satanás com a sua vontade e com a força da Palavra de Deus. Sem esquecer que na narrativa de Mateus há igualmente a alusão ao povo de Israel que, saído da imersão no mar Vermelho, percorre o caminho no deserto, ritmado por três acontecimentos, por três tentações nas quais o povo sucumbe, caindo em pecado.

Jesus, repleto de Espírito Santo, pelo próprio Espírito é conduzido ao deserto, e eis que se manifestam as tentações, quando a fome se faz sentir após quarenta dias de jejum: «Se Tu és Filho de Deus, diz que estas pedras se tornem pão». Se Ele é verdadeiramente Filho de Deus, como o definiu a voz vinda do céu durante o Batismo, então - sugere-lhe o tentador - pode escapar à condição humana que assumiu e satisfazer a fome não como cada homem, procurando o alimento com o cansaço e o trabalho, mas simplesmente recorrendo ao seu poder. Não é um acaso que a tentação primeira, e portanto primordial, diga respeito ao comer, a dimensão da oralidade. Neste preciso terreno o homem e a mulher foram tentados e caíram (cf. Génesis 3, 1-7) porque aqui está em jogo o amor egoístico por nós próprios. Transformar magicamente as pedras em pão para fugir à fome é um sonho de omnipotência: o homem esfomeado é tentado a deixar de reconhecer os outros, a não pensar na partilha, na solidariedade, na comunhão. Existir para si próprio: esta é a tentação radical que leva a ignorar os outros e a deixar de reconhecer o dom de Deus.

Esta primeira tentação pode também ser lida a um nível político. Jesus é tentado a mudar as pedras em pão para realizar uma ação prodigiosa aos olhos da humanidade: se é Ele o Salvador, poderá extinguir a fome do mundo de modo radical e imediato, poderá fazer-se reconhecer e aclamar como libertador. Não é um acaso que noutro lugar a multidão ficará disposta a fazê-lo rei se Ele obtiver o pão. É oportuno recordar, a este respeito, a releitura desta tentação feita por Dostoievski, na "Lenda do grande inquisidor": «Vês estas pedras no deserto nu e tórrido? Muda-as em pão e a humanidade te seguirá como um rebanho dócil e reconhecido». Não, Jesus é o Filho de Deus que, ao fazer-se homem, se despojou das suas prerrogativas divinas e permanece sempre fiel a esta sua condição. Por isso não realiza o milagre, mas responde ao demónio: «Está escrito: "Não só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus». Desta forma Ele afirma que a fome de pão é indiscutível, mas a fome da Palavra de Deus é ainda mais vital, mais essencial do que satisfazer o desejo de alimento. Está aqui o testemunho da fé de Jesus na Palavra de Deus, da sua obediência pontual ao Pai, da sua resistência às tentações até à vitória.

Segue a segunda tentação: «O diabo colocou-o no ponto mais alto do templo» de Jerusalém, a cidade santa onde todos os filhos de Deus sobem e estão congregados. Jesus está no início da sua missão: que maneira mais eficaz de a inaugurar do que um sinal, um milagre, uma autoexaltação pública, diante de todos? Se Ele se atira do alto do templo e, qual Filho de Deus, é milagrosamente sustido pelos anjos, então a revelação da sua identidade impor-se-á a todos e Ele será aclamado como Messias de Deus. Mostre quem é, faça ver que Ele é Deus no meio do seu povo, porque este é o quesito dos incrédulos de cada tempo: «Deus está ou não no meio de nós?». Esta tentação que Jesus sente emergir em si será despertada muitas vezes pelos seus ouvintes: «Mostra-nos um sinal do céu e acreditaremos!». Está aqui a sugestão de ser Messias segundo as imagens e os pensamentos humanos, mas Jesus escolheu ser um Messias ao contrário: débil, pobre, humilhado, rejeitado; um Messias servo, não um dono poderoso.

No templo, o lugar da religião, ocorre a tentação-síntese: se Jesus é Filho de Deus, então não conhecerá a morte, não será tocado por ela. Para acenar com esta miragem, o demónio recorre à citação da Escritura (cf. Salmo 90, 11-12), distorcendo-a e instrumentalizando-a contra Deus. A promessa de proteção anunciada por Deus ao crente no Salmo deverá realizar-se como epifania de poder do Messias, como isenção para Ele do sofrimento e da morte, como omnipotência... Mas Jesus, que veio dar a sua vida por amor de todos nós humanos, que veio na pobreza e na humildade de servo de Deus, não pode acolher esta sugestão, que desfiguraria a imagem de Deus, e então, retomando a Palavra de Deus, lança à cara do demónio o «está escrito»: «Não tentarás o Senhor Deus teu». Até permanecer no meio de nós, Jesus quer continuar humaníssimo, sem poderes divinos, por isso permanecerá fiel ao Pai até ao fim, sem nunca ceder à tentação de negar ou mitigar a sua condição humana, assumida para a partilhar connosco, para existir connosco, para conhecer a nossa fraqueza e apresentá-la como sua ao Pai.

Vem, por fim, a terceira e última tentação: derrotada a "libido dominandi", entra em ação a "libido possidendi". Desta vez Jesus é conduzido pelo diabo a um alto monte, do qual contempla a Terra e tudo o que contém, toda a sua riqueza, os reinos nas mãos dos governantes deste mundo, a glória que ostentam. Jesus, na verdade, é um Rei, o Rei dos judeus, é o Messias, o Rei ungido, o chefe do seu povo, e portanto também a Ele cabem riqueza e glória. Ele poderá possuí-las, mas com uma condição: deve adorar o demónio, o príncipe deste mundo. Cabe a Jesus escolher: ou tornar-se um servo de Satanás ou permanecer um servo de Deus. De um lado honra, poder, glória, riquezas; do outro pobreza, serviço, humildade. No Evangelho segundo Lucas o demónio completa esta tentação com uma palavra ulterior: «A mim foram dadas todas as riquezas deste mundo e eu dou-as a quem quero». Sim, quem tem na mão as riquezas deste mundo é o demónio, e por isso quem acumula riquezas, mesmo para o bem, e não as partilha, não as despoja da arrogância a elas subjacente, queira ou não queira é um administrador de Satanás.

Nesta recusa de Jesus está contida toda a assunção da pobreza como lógica de abaixamento, de humildade: «Ele que era rico fez-se pobre por nós», «aquele que estava na condição de Deus despojou-se até se tornar escravo». Sabemos o que Jesus disse depois de ter atravessado esta tentação: «Não podeis servir Deus e o dinheiro». Eis porque a Palavra de Deus invocada por Jesus como mandamento radical e definitivo é: «Adorarás o Senhor Deus teu, e a Ele só prestarás serviço» (Deuteronómio 6, 13). Desta forma Jesus deixa-nos também um rasto a seguir quando somos tentados. Ao surgir a tentação não se deve entrar em diálogo com Satanás, não se deve hesitar na escuta das seduções, mesmo confiando na própria força. Não, é preciso somente recorrer à Palavra de Deus, invocar o Senhor, não ceder a nenhum diálogo com o mal, mas afastar o tentador com a força de Deus. É assim que Jesus expulsa o demónio («vai-te, Satanás!»), qual vencedor do mal e das tentações; e fá-lo atravessando-as, para ser capaz de «ter compaixão, de sofrer connosco as nossas fraquezas». Precisamente como se lê na vida de António, o pai dos monges. Exaurido pela luta vitoriosa contra as tentações, ele vê o Senhor num raio de luz e pergunta-lhe: «Onde estavas? Porque não apareceste desde o início para pôr fim aos meus sofrimentos?». E dele ouve a resposta: «António, estava aqui a lutar contigo».


Enzo Bianchi 
In "Monastero di Bose" 
Trad.: SNPC 

Publicado aqui em 02.03.2017

04 março 2017

Pensamentos Impensados

Sempre à frente
Depois da evasão de três presos, Governo publica regras para comunicar fugas.
Lá diz o povo: depois de carpa roubada trincas a posta.

Catrapácios
Já leste o livro do ex presidente? Deus me livro do Cavaco.

Quem fala assim...
Eu não sou de meias palavras, cuidá comi.

Sufrágios
Foi eleita Miss qualquer coisa, por engano; ficou conhecida por Miss take.

Atenção Ministro das Finanças
Se conseguir não deva.

Dislexias
Restaurante da maternidade anuncia PARTO DO DIA.

Similitudes
Em Portugal, tim-tim por tim-tim; na Bélgica Tintim por Hergé.

Maus hábitos
Não se deve comer; comer causa habituação.

SdB (I)

03 março 2017

Pensamento Impensado

Trajares
O problema do dress code já aqui foi levantado pelo dono deste estabelecimento; gostaria de dar uma achega.

Julgo ser bastante conhecido o diálogo, talvez inventado, entre um comunista e um capitalista: dizia o primeiro que queria acabar com os ricos, ao que o outro retorquiu que queria era acabar com os pobres. No meu entender, o comunista queria nivelar por baixo. Por estas e por outras é que não concordo com a moda das calças rotas e da barba por fa zer; é nivelar por baixo.

Já Jesus Cristo falou sobre o dress code, pois no Evangelho de S. Mateus pode ler-se: entrou depois o Rei para ver os que estavam à mesa, e viu lá um homem que não estava vestido com veste nupcial. E disse-lhe: amigo, como entraste aqui não tendo veste nupcial?. Este porém emudeceu. Então disse o Rei aos seus ministros: atai-o de pés e mãos e lançai-o às trevas exteriores.

SdB (I) 

A gestora do hipermercado *

Chamava-se Maria Helena e era responsável pela secção de peixe do hipermercado. Sabia tudo sobre sargos, besugos, guelras, escamas, época da desova, pesca do safio, extinção das espécies, funcionamento das lotas, necessidade de remunerar o accionista, receitas minuciosas de ir ao céu.

Se comparássemos a vida da gestora a um carro, dir-se-ia que seria algo de discreto, com um historial desinteressante em termos de picos de velocidade, iminências de desastre, curvas apertadas, ultrapassagens no limiar da segurança. Maria Helena tinha conhecido amores, solidões chorosas em madrugadas frias a compor a sardinha ao lado do salmão, noites sensuais cuja torridez do sexo envolvido se encerrava dentro de intervalos apertados. A rapariga era, de facto, uma montra de peixe que não se destacava pelo contraste ou pelo arrojo.

Um dia, uma colega – Aldina, natural do Cartaxo, baixa e entroncada como uma levantadora de pesos -, desafiou-a a consultar alguém que lia cartas e fazia mapas astrais.

O que tens a perder? Olha que já lá fui e saí toda arrepiada com o que ouvi. Posso garantir-te que não é um charlatão de turbante por trás de uma bola de cristal. Vai e depois conta-me. Já viste que fresquinhas que estão as douradas?

E a Maria Helena foi, num fim de tarde chuvoso e triste, com uma humidade que lhe estragava o cabelo e um vento que lhe partia o chapéu-de-chuva.

Posso dizer-lhe, Dr. Garcez,

diria ela ao astrólogo, um homem alto e magro como um ramo de salgueiro, e uma melena branca penteada para trás com um esmero de artista,

que a minha mãe garantiu que eu nasci às 12.45h.

No dia seguinte, no trabalho, foi confrontada com a franqueza campesina da colega.

Olha, digo-te, se fosses uma chaputa não ias para o linear. Estás cá com uns olhos…

E a Maria Helena contou o que ouvira, a quantidade de pistas que o Dr. Garcez lançara sobre o seu passado, o seu presente e o seu futuro. É claro que não soubera nada de concreto, mas a gestora encaixara pedaços de informação com histórias que só ela sabia.

Digo-te, Aldina, cheguei cá fora e sentei-me com as pernas a tremer… E o que será o meu futuro, com tudo aquilo que eu ouvi? Quem serão estas pessoas, estes sítios, estes acontecimentos?


Ao fim da noite, já em casa, agarrou-se a um chá calmante. Recusou um convite do Amadeu, chefe de secção de bebidas espirituosas, porque não lhe percebeu o enquadramento no que o astrólogo dissera. O futuro que o Dr. Garcez lhe apontara era nebuloso e desfocado, mas quanto ao passado…


Foi despertada pelo telemóvel que reproduzia a Beyonce, na batida forte do Single Ladies.

Está lá, Lenita?

Diz, mamã.

Olha, estou tão arreliada.

O que foi, mamã?

Então não é que te disse uma coisa errada? 12.45 foi a hora a que o teu pai e eu casámos. Tu nasceste eram quase dez da noite. Esta cabeça…

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

* publicado originalmente em 7 de Dezembro de 2009

02 março 2017

Textos dos dias que correm

O Provincianismo Português

Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro. 

O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia. 

Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do "Orpheu", disse a Mário de Sá-Carneiro: "V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si". 

O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incidentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando — toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. Dante adorava Vergilio como um exemplar e uma estrela, nunca sonharia em comparar-se com ele; nada há, todavia, mais certo que o ser a "Divina Comédia" superior à "Eneida". O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano. 

É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redações, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes na Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandeses comam os próprios filhos.   Examina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério. 

A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment — o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele "desenvolvimento da largueza de consciência" em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano. 

O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, "A Relíquia", Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista. 

Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos. 

Fernando Pessoa, in 'Portugal entre Passado e Futuro'

01 março 2017

Quarta-Feira de Cinzas

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa». 

Palavra da salvação.

***

Enviado por mão amiga e atribuído ao Papa Francisco:

1. Sorrir, um cristão é sempre alegre!
2. Agradecer (embora não “precise” fazê-lo).
3. Lembrar ao outro o quanto você o ama.
4. Cumprimentar com alegria as pessoas que você vê todos os dias.
5. Ouvir a história do outro, sem julgamento, com amor.
6. Parar para ajudar. Estar atento a quem precisa de você.
7. Animar a alguém.
8. Reconhecer os sucessos e qualidades do outro.
9. Separar o que você não usa e dar a quem precisa.
10. Ajudar a alguém para que ele possa descansar.
11. Corrigir com amor; não calar por medo.
12. Ter delicadezas com os que estão perto de você.
13. Limpar o que sujou, em casa.
14. Ajudar os outros a superar os obstáculos.
15. Telefonar para seus pais.

O MELHOR JEJUM

• Jejum de palavras negativas e dizer palavras bondosas.
• Jejum de descontentamento e encher-se de gratidão.
• Jejum de raiva e encher-se com mansidão e paciência.
• Jejum de pessimismo e encher-se de esperança e otimismo.
• Jejum de preocupações e encher-se de confiança em Deus.
• Jejum de queixas e encher-se com as coisas simples da vida.
• Jejum de tensões e encher-se com orações.
• Jejum de amargura e tristeza e encher o coração de alegria.
• Jejum de egoísmo e encher-se com compaixão pelos outros.
• Jejum de falta de perdão e encher-se de reconciliação.
• Jejum de palavras e encher-se de silêncio para ouvir os outros.

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