quarta-feira, 15 de março de 2017

Gente que vou conhecendo *

Agarremos as duas dimensões bastantes para caracterizar a Cidália: a física e a comportamental, já que o resto são floreados que pouco acrescentam à identificação da personagem.

Físicamente, a rapariga (38 anos, bióloga marinha, investigadora, amante de ficção científica e da doçaria conventual) situa-se numa espécie de trave olímpica com metade da largura. Alguns, metaforicamente falando, dirão que tomba para o lado de um excesso ponderal mínimo, quiçá imperceptível. Que pena, bastariam um ou dois quilos...; outros, presos à mesma metáfora, dirão que não, que é uma mulher muito interessante (uma educação verbal que suaviza a concupiscência do olhar).

Quanto ao comportamento, Cidália poderia ser classificada com uma palavra apenas: submissa. Em querendo compor-se a descrição poderia acrescentar-se uma segunda, como alguém que revela apelido, nome próprio: submissa. Naturalmente submissa. Profissionalmente é aquilo a que se chamaria, na aridez pouco criativa do jargão das empresas, uma excelente número dois. Discreta, desejosa de uma transparência cómoda, é o sossego dos recursos humanos em tempos de crise: não ambiciona subir.

Invistamos ainda um pouco na intimidade de Cidália, que é casada há 15 anos com Bruno (41 anos, engenheiro informático, coleccionador de revistas temáticas, adepto do Esperança de Lagos e devorador de pipocas) e de quem ele também poderia dizer: submissa. Naturalmente submissa. A bióloga vai por onde o Bruno vai, faz o que o Bruno faz, deixa-o brilhar nos convívios sociais, nos jogos de mímica, no quem quer ser milionário em versão de sofá caseiro, nas noites de sexo ao som dos UHF. Digamos, entrando de mansinho num erotismo arrojado que, no leito, Cidália mantém a mesma atitude promocional: não ambiciona subir. Bruno, gerente de uma empresa no Cacém, é mestre no trocadilho, e entre uma revista sobre processadores e um olhar lascivo, garante que gosta de estar em cima do acontecimento. E ri muito, porque lhe disseram que rir é o melhor remédio.

A lua está cheia e as marés estão altas, e o povo diz que é nessa altura que as mulheres se fixam mais. Numa cama conforama com lençóis de um negro sinistro, Bruno exercita a sua virilidade, revelando um corpo sem adiposidade. Cidália segue-o, cumpre sem louvor e sem gozo, deixa que ele, metaforicamente, afirme saber mais de bivalves do que ela, bióloga marinha e investigadora. Mas num instante, num minúsculo instante, o olhar dela transtorna-se, atravessa os peitorais do informático e aterra numa aldeia da Baixa Saxónia de onde veio o avô, o pai do avô e outros avôs até à quinta geração - porque de mais longe não se herda - e da sua boca começaram a sair, num jorro de água solta, uma infinidade de palavras em alemão. Bruno esquecera a costela teutónica da mulher e surpreendeu-se quando ela gritou Deutschland uber alles. Era tarde...

JdB

* publicado originalmente em 23 de Fevereiro de 2011

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