segunda-feira, 6 de março de 2017

Da surpresa

Velha Deli, Janeiro 2017


Uma conversa ainda com resquícios indianos faz-me abordar o tema: como nasceu o (sor)riso? No fundo, o que me interessa saber é quem / o quê, quando e em que circunstâncias (sor)riu pela primeira vez.

Vou presumir que há inúmeras teorias mas, para o devaneio em apreço, bastam-me duas: (i) o primeiro (sor)riso nasceu, primitivamente, do alívio de uma situação de perigo; (ii) o primeiro (sor)riso nasceu nos animais inferiores que o utilizavam pelo som - o repuxar dos cantos da boca e a exibição dos dentes provocava um ruído que para os outros animais significava "não sou perigoso". 

Como já aqui escrevi uma vez, é pelo sorriso que se estabelece o comércio entre os Homens. Rimos de (ou por causa de), mas sorrimos para. É por isso, por esta ligeira nuance, que acredito que as duas definições acima se referem a manifestações diferentes, embora correlatas: a primeira, a riso; a segunda, a sorriso.

A surpresa - ou uma certa surpresa, ou ainda uma surpresa manifestada de determinada forma - é o equivalente do sorriso, seja na sua versão facial, seja na sua versão verbal, que se desenvolve de seguida. Ou seja, é também a surpresa que estabelece o comércio entre os Homens, porque o comércio é uma troca de elementos, uma permuta de informações, opiniões, sensações ou artigos que determinam uma transacção. Se o sorriso diz ao outro "não sou perigoso", a surpresa abre uma porta: "estou interessado".

Uma troca de bens, serviços, palavras, emoções faz-se através de uma oferta e procura: do lado da oferta, quando alguém quer disponibilizar algo que outro (ainda) não tem; do lado da procura, a inversa do raciocínio precedente. Só me vendem cachimbos se eu não tiver nenhum e estiver interessado na sua aquisição, ou, tendo já muitos, quiser acrescentar ao stock (e um stock é uma colecção não trabalhada). O sorriso significa "pode entrar"; a surpresa (na sua íntima união com o verbo surpreender) significa "vai enriquecer o meu espólio". 

O sorriso estabelece um clima; a surpresa alavanca o clima, colocando o sucesso da troca no interlocutor. Quando nos surpreendemos por aquilo que o outro nos diz ou apresenta ou disponibiliza, estamos a revelar uma certa inferioridade saudável perante outro - descemos para que o outro suba, ou ficamos quietos para que o outro suba. O contrário disto é receber o vendedor de cachimbos com frases repetidas: "já tenho" ou "já tinha visto" ou "tem pouca relevância" ou "é só isto?". Onde quer que estejamos, o outro desce.      

Não sei como, onde e por quem se manifestou a surpresa pela primeira vez. Mas estou certo de ter sido alguém que quis dizer através de um sorriso: "estou interessado." Porque uma voz que não se surpreende é um rosto que não sorri. 

JdB

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