terça-feira, 7 de março de 2017

Vai um gin do Peter’s?

Haverá quem vislumbre algo dos mistérios da vida? E vislumbrando, saberá falar deles aos seus conterrâneos? Se souber, é garantido que saberá (e estará a) ajudar as gerações posteriores, pois as interrogações mais profundas são comuns a todo o ser humano, sendo as respostas igualmente universais e intemporais. 

Numa das suas prédicas inspiradas, aquele que conhecemos por Imperador da Língua Portuguesa partilhou com os do seu tempo uma reflexão espantosa sobre a vida e a morte, sobre este momento e o que virá, sobre o que somos e o que nos espera. Para lá da muita, da pouca ou da nenhuma fé, basta um mínimo de “saber de experiência feito” para se acompanhar o brilhante encadeado de ideias do Pe.António Vieira, SJ (1608-1697). 

-->
Citação lapidar: «Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem


O sermão proferido há 4 séculos, na Quarta-feira de Cinzas de 1672, chega-nos com total actualidade e acutilância. Servia para 1 de Março de 2017, como serve para qualquer outro dia que nos apanhe disponíveis para meditar sobre o sentido da existência: perceber quanto o hoje se esvai depressa num ontem irrecuperável, ao mesmo tempo que galga para um amanhã a que poderemos dar maior rumo e alcance, em querendo tomar consciência do instante presente. Incrivelmente simples e exigente, em doses iguais. 

Naquela Quarta-feira do século XVII e replicável em 2017 é espantosa a poesia em volta do vento, formando uma imagem poderosa e figurativa sobre a beleza fugaz da existência humana: «Assim andou levantado o pó enquanto durou o vento.»  Como bem gizada a estratégia de vida pragmática: «(…) saibamos usar da morte e da imortalidade. Tratemos desta vida como mortais, e da outra como imortais.» Como extraordinária a citação que recupera de Sto. Agostinho a observação sobre a incómoda semelhança entre os que dormem o sono da morte, não se distinguindo o rico do pobre, o adolescente do idoso, o negro do branco, o feio do bonito, o erudito do ignorante. A lista não teria fim, expondo bem a artificialidade e vacuidade das medidas de diferenciação a que nos apegamos em demasia.  Falaciosamente, sustentamos nessa ventania de miragens atitudes e alegados estatutos, que apenas escondem um orgulho dissimulado. Uma comédia de enganos e atropelos. 

Qual mestre do suspense, voamos com a sua poesia e aterramos, depois, no aqui-e-agora que ainda é nosso, ainda permite escolhas: 

Excerto do Sermão 

«1.ª parte:  Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer; outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem-na os olhos, a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, et in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter. Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura.

2.ª parte:  Apareceu Deus ao mesmo Moisés nos desertos de Midiã; manda-o que leve a nova da liberdade ao povo cativo, e perguntando Moisés quem havia de dizer que o mandava, para que lhe dessem crédito, respondeu Deus e definiu-se: Ego sum qui sum: Eu sou o que sou. E que nome, ou que distinção é esta? Também Moisés é o que é, também Faraó é o que é, também o povo, com que há-de falar, é o que é. Pois se este nome e esta definição toca a todos e a tudo, como a toma Deus só por sua?

3.ª parte:  Notai. Esta nossa chamada vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó: do pó que fomos ao pó que havemos de ser. Uns fazem o círculo maior, outros menor, outros mais pequeno, outros mínimo. (…) O pó que foi nosso princípio, esse mesmo, e não outro, é o nosso fim, e porque caminhamos circularmente deste pó para este pó, quanto mais parece que nos apartamos dele, tanto mais nos chegamos para ele; (…) o dia que faz a vida, esse mesmo a desfaz. E como esta roda que anda e desanda juntamente sempre nos vai moendo, sempre somos pó.

4.ª parte:  Ah! pó, se aquietaras e pararás aí! Mas pó assoprada, e com vento, como havia de aquietar? Ei-la abaixa, ei-lo acima, (…) dando uma tão grande volta, e tantas voltas. Já senhor do universo, já escravo de si mesma; já só, já acompanhado; já nu, já vestido; (…) trabalhando, lidando, fatigando, com tantos vaivéns do gosto e da fortuna, sempre em uma roda viva. Assim andou levantado o pó enquanto durou o vento. O vento durou muito, porque naquele tempo eram mais largas as vidas, mas ao fim parou. E que lhe sucedeu no mesmo ponto a Adão? O que sucede ao pó. Assim como o vento a levantou, e o sustinha, tanto que o vento parou, caiu. Pó levantado, Adão vivo; pó caído, Adão morto: Et mortus est.

5.ª parte:  Abri aquelas sepulturas, diz Agostinho, e vede qual é ali o senhor e qual o servo; qual é ali o pobre e qual o rico? Discerne, si potes: distingui-me ali, se podeis, o valente do fraco, o formoso do feio, o rei coroado de ouro do escravo de Argel carregado de ferros? Distingui-los? Conhecei-los? Não por certo. O grande e o pequeno, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, o senhor e o escravo, o príncipe e o cavador, o alemão e o etíope, todos ali são da mesma cor.

6.ª parte:  Ninguém morre para estar sempre morto; para isso a morte nas Escrituras se chama sono. Os vivos caem em terra com o sono da morte: os mortos jazem na sepultura dormindo, sem movimento nem sentido, aquele profundo e dilatado letargo; mas quando o pregão da trombeta final os chamar a juízo, todos hão-de acordar e levantar-se outra vez. Então dirá cada um com David: Ego dormivi, et soporatus sum, et esxurrexi. Lembre-se pois o pó caído que há-de ser pó levantado. (…)

7.ª parte:  Quando considero na vida que se usa, acho que não vivemos como mortais, nem vivemos como imortais. Não vivemos como mortais, porque tratamos das coisas desta vida como se esta vida fora eterna. Não vivemos como imortais, porque nos esquecemos tanto da vida eterna, como se não houvera tal vida.

Ora, senhores, já que somos cristãos, já que sabemos que havemos de morrer e que somos imortais, saibamos usar da morte e da imortalidade. Tratemos desta vida como mortais, e da outra como imortais. Pode haver loucura mais rematada, (…) que empregar-me todo na vida que há-de acabar, e não tratar da vida que há-de durar para sempre? (…)  Tantas diligências para esta vida, nenhuma diligência para a outra vida? Tanto medo, tanto receio da morte temporal, e da eterna nenhum temor? (…)

A morte tem duas portas: Qui exaltas me de portis mortis. Uma porta de vidro, por onde se sai da vida, outra porta de diamante, por onde se entra à eternidade. Entre estas duas portas se acha subitamente um homem no instante da morte, sem poder tornar atrás, nem parar, nem fugir, nem dilatar, senão entrar para onde não sabe, e para sempre. Oh! que transe tão apertado! Oh! que passo tão estreito! Oh! que momento tão terrível!

Aristóteles disse que entre todas as coisas terríveis, a mais terrível é a morte. Disse bem mas não entendeu o que disse. Não é terrível a morte pela vida que acaba, senão pela eternidade que começa. Não é terrível a porta por onde se sai; a terrível é a porta por onde se entra. Se olhais para cima, uma escada que chega até o céu; se olhais para baixo, um precipício que vai parar no inferno, e isto incerto. (…)

Terrível escada para quem não sobe, porque perde o céu e a vista de Deus, e mais terrível para quem desce, porque não só perdeu o céu e a vista de Deus, mas vai arder no inferno eternamente. (…) Ali, senhores, não se teme a morte, teme-se a vida. (…) Oh! que diferentes parecerão então todas as coisas desta vida! Que verdades, que desenganos, que luzes tão claras de tudo o que neste mundo nos cega! Nenhum homem há naquele ponto que não desejara muito uma de duas: ou não ter nascido, ou tornar a nascer de novo, para fazer uma vida muito diferente. Mas já é tarde, já não há tempo: Quia tempus non erit amplius (Apc. 10,6).

Cristãos e senhores meus, por misericórdia de Deus ainda estamos em tempo. (…) Julgue cada um de nós, se será melhor arrepender-se agora, ou deixar o arrependimento para quando não tenha lugar, nem seja arrependimento. Deus nos avisa, Deus nos dá estas vozes (…). Se então havemos de desejar em vão começar outra vida, comecemo-la agora (…). Comecemos de hoje em diante a viver como quereremos ter vivido na hora da morte. (…)

Em que cuidamos, e em que não cuidamos? Homens mortais, homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos imos chegando mais à morte, e ela a nós, não se acabe com este dia a memória da morte. (…)

Esta é a melhor devoção e mais útil penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta quaresma. Tomar uma hora cada dia, em que só por só com Deus e connosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida. 

E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando-vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora. Primeiro: quanto tenho vivido? Segundo: como vivi? Terceiro: quanto posso viver? Quarto: como é bem que viva?»

Durante quase um século de vida, Pe. António Vieira fartou-se de incomodar os poderes instalados, insurgindo-se contra a escravatura e a inquisição. Esta última, valeu-lhe uns meses encarcerado em Coimbra, de onde saiu para Roma, destacando-se logo pelos seus exímios dotes oratórios. Entre os fãs das suas prédicas no púlpito, contava-se a rainha da Suécia, que o considerou o melhor pregador do seu tempo.



É também seu o alerta directo ao rei, de quem era muito próximo, mas a quem não poupou críticas frontais: «Basta, Senhor, que eu, porque roubo uma barca, sou ladrão, e Vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza.»  

Outras considerações antológicas de sua autoria:
  • «A justiça está entre a piedade e a crueldade: o justo propende para a parte do piedoso; o justiceiro para a parte do cruel.» 
  • «A humildade é essencialmente o conhecimento da própria dependência, da própria imperfeição e da própria miséria.»
  • «Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera.»
  • «Nenhuma coisa deste mundo pára ou permanece, todas passam.»
  • «Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários: ver e chorar? A razão e a experiência é esta: ajuntou a natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista (…). Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.» (in SERMÃO DAS LÁGRIMAS DE S. PEDRO, proferido na Catedral de Lisboa, na Segunda-feira da Semana Santa de 1669).


Havendo um hoje, significa que há tempo e vale a pena! O maior (e híper disseminado) equívoco é pensar que um rumo melhor compromete ou reduz a felicidade, quando é exactamente o oposto. O realizador persa Asghar Farhadi, que voltou a ganhar o Óscar do Melhor Filme Estrangeiro com «O Vendedor», tem-no revelado de forma original e interpelativa. 

Bem viver e bem morrer navegam nas mesmas águas, se forem límpidas. Para tomarmos um caminho mais livre e de horizonte mais amplo ajudará pensar (ou ir pensando): no presente – apanhamos a vida pelo lado certo?; para amanhã – alcançamos o que nos espera? É do Pe.António Vieira a metáfora cristalina: «A vida é uma lâmpada acesa, vidro e fogo. Vidro que com um sopro se faz e fogo que com um sopro se apaga


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

1 comentário:

Anónimo disse...

Adoro o sabor dos seus Gins, sempre tónicos a deixar-nos um paladar que permanece, e sobretudo, se degusta no tempo e momento certo, o presente.

Para quê gastar palavras quando tudo o que é importante já foi dito e escrito.

A minha gratidão.

Acerca de mim

Arquivo do blogue