(chama-se "Le rire" e foi enviado por um querido amigo)
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
17 novembro 2012
Pensamentos impensados
Acordo, esse aborto
Justiça
Investigação
Líricos
Drogas
Ouvido na telefonia
Vi, na TV, escrita a palavra "direto"; não vejo razão para abrir o E; temos loreto, gaveto, coreto, etc.
Justiça
Os assaltante de Multibanco que se deparam com notas inutilizadas deveriam ser indemnizados: os explosivos estão caros.
Investigação
Já se sabe como se chamam os habitantes das Ilhas Desertas: são os desertores.
Líricos
Os cantores, cantam.
E os cantadores? Cantadam?
Drogas
Heroína faz-me lembrar S. Joana d'Arc.
Cocaína lembra-me um cocabichinhos
Ouvido na telefonia
Amor não é o que nos tira o fôlego; isso é asma.
SdB (I)
16 novembro 2012
aos meus poetas
Manuel de Freitas,
Rui Pires Cabral,
José Miguel Silva
nomes que iluminam
as noites dos
meus dias.
sem vós,
como desataria a língua
como apagaria os surdos incêndios
como salvaria a negra península
que é meu coração?
brindo, pois,
aos meus poetas,
sentado em pleno Estádio,
bebericando moscatéis que zumbem.
e a vida?
pergunta, lá fora, quem passa.
a vida?, respondo:
a vida fica para outra vida.
gi.
15 novembro 2012
Deixa-me rir...
Caros Audiophiles, this week I present an almost unknown electric violinist, Ed Alleyne-Johnson, who nevertheless has been recording and performing (he loves to busk in city streets around the world) for more than twenty years.
I was listening to the late night radio a few nights ago and by chance the DJ played a piece of his music. Apparently, like me, some of the listeners had not heard his music for many years, and were thrilled to be reminded. Most listeners, like you I imagine, had never heard of him or his music, but evidently some also were curious to hear for the first time - "who is this guy?, what is this music called?, how can we find his music?" they emailed and tweeted to the radio station.
I was listening to the late night radio a few nights ago and by chance the DJ played a piece of his music. Apparently, like me, some of the listeners had not heard his music for many years, and were thrilled to be reminded. Most listeners, like you I imagine, had never heard of him or his music, but evidently some also were curious to hear for the first time - "who is this guy?, what is this music called?, how can we find his music?" they emailed and tweeted to the radio station.
EAJ designed and built his own purple coloured 5-string (not the usual 4-string) electric violin. His CD recordings are totally 'live' performances, with no backing tapes, overdubs or re-mixing; instead he uses pedals to create music loops and delays and special effects. He sounds somewhere between Pachelbel's Canon and Mike Oldfield's electronica.
The DJ announced that it is the 20th anniversary of his CD Purple Electric Violin Concerto which is now to be re-promoted.
Perhaps Ed Alleyne-Johnson's time has finally arrived. Or maybe there is good reason why he will remain more or less a cult unknown.
You decide!
A proxima.
PO
14 novembro 2012
Ponto de Vírgula
Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por quê, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena.
Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal.
in Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust
![]() |
| fotografia de Dinah Fried, 'Fictitious Dishes' |
Madalenas
Ingredientes
200 grs de açúcar
200 grs de farinha
180 grs de manteiga
5 ovos
raspa de 1 limão
1 colher de chá de fermento
Preparação
Numa tigela bata os ovos com o açúcar até ficar espumoso, vá deitando aos poucos a farinha onde misturou o fermento, mexendo sempre, acrescente a raspa do limão e, por fim, a manteiga derretida.
Deixe repousar a massa 20 minutos. Encha as formas untadas com manteiga e polvilhadas com farinha até 3/4 da capacidade e leve a cozer cerca de 15 minutos em forno médio.
Nota: receita tirada daqui
MFM
|
13 novembro 2012
O Capacho
Entrei em casa de Josephine pela primeira vez já no final de Outubro. Gatteville
le Phare estava quase deserta, açoitada por um vento norte, húmido, forte e
constante, oriundo da escuridão do Canal
da Mancha. No céu, tapado com um manto espesso de nuvens baixas e negras que pressagiava chuva, não se via uma estrela, Do mar, uma negritude persistente,
vencida esparsamente pelo ciclo ritmado e luminoso do farol local. Perdi-me
numa deambulação desorientada pela vila deserta até descortinar o meu destino.
À porta, dois vasos grandes com flores locais, despidas na sua nudez outonal.
Por cima, um candeeiro baloiçando desenfreado, espalhando uma luz errática pelo
alpendre. Tudo parecia triste e lúgubre à excepção de um tapete grande, cor-de-rosa,
em formato de meia lua, onde se tinham desenhado rosas num tom desmaiado mas bonito. Acanhei-me
de limpar os pés ao único elemento que derramava um pouco de alegria naquela tristeza nocturna.
(Antoine LeBon, Um Outono no fim do mundo, 1958, Edições Largo da Boa-Hora)
Um capacho será apenas um capacho? Num certo sentido, o da procura individual do equilíbrio das formas e das cores que condiciona as opções e revela escolhas, nada dirá mais sobre o mistério de uma casa onde se penetra pela primeira vez do que o capacho à entrada. Noutra perspectiva, a que é objecto desta reflexão, o capacho tem uma dimensão figurativa que congrega mitos à escala global, como se fossemos todos iguais, independentemente de latitudes, geografias humanas, divindades adoradas.
A definição encontrada
nos dicionários é manifestamente curta, reduzindo o artigo em apreço ao
utilitarismo das mercadorias vulgares: tapete de esparto a
que se limpa o calçado. Numa tentativa de redenção da secura linguística, o dicionário ainda
nos proporciona um sentido figurado para a palavra – pessoa servil. Não obstante, a conotação excessivamente negativa destas
definições remete o artigo para um estatuto que o impede, algum dia, de alcandorar-se
a objecto de estudo e reflexão.
Há uma limitação
intelectual – talvez seja correcto dizer-se sensorial – na redução do capacho à sua funcionalidade mais
estrita. Na soleira de uma porta o capacho é mais do que um objecto, devendo
ser visto como a representação material de uma fronteira que liga, numa
primeira fase, o exterior ao interior e, numa fase posterior, a sua inversa.
A limpeza dos sapatos
num capacho é mais do que o esfregar intenso, ritmado e em sentidos opostos de
uma sola numa superfície rugosa, com o objectivo de remover sujidade
indesejável. Este acto, valorizado nos dias de hoje por quem procura apenas uma
visão asséptica da vida, tem uma conotação profunda e que nos remete
para dimensões mais vastas do nosso colectivo. Anne Deschamps, uma francesa dos finais do séc. XIX, esposa de um missionário escocês no oriente longínquo, escreveria
a um dos seus irmãos:
(...) todos limpam os sapatos num tapete à entrada, ainda que depois se
descalcem para entrar. John explicou-me o simbolismo: “entra-se num lar e
deixamos o que é exterior no exterior. Entra-se puro, sem influências externas
que prejudiquem a harmonia portas adentro”.
Muitos exemplos
poderiam ser dados para justificar este
desejo de promover o capacho, artigo tão profusamente maltratado, a um estatuto
mais condigno com a sua verdadeira raison
d’être. A natureza forçosamente
curta deste pequeno texto não o permite, no entanto. Não podemos, apesar das
limitações de espaço, deixar de referir o significado do capacho no movimento
de saída, isto é, do interior doméstico para o exterior mundano. Culturas há –
e referimos novamente Anne Deschamps – que olham este movimento de forma
diversa.
À saída os habitantes locais contornam o capacho, não porque este
esteja sujo, mas porque está repleto de tudo o que para eles significa
desequilíbrio da Terra, dos elementos, da sua ligação ao divino – e que pode trazer infortúnios
indomáveis.
Deixei a citação da
Bíblia – o livro dos livros – para o fim, porque é revelador de um outro ponto de vista. Repare-se na cultura substancialmente
diferente da que Anne Deschamps encontrou no oriente, onde o seu marido revelava Jesus aos pagãos:
Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado:
nem
pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto;
que fossem calçados com sandálias,
e
não levassem duas túnicas.
E disse-lhes também:
«Em qualquer casa em que
entrardes ficai nela até partirdes dali.
E se não fordes recebidos numa localidade,
se
os habitantes não vos ouvirem,
ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés
como
testemunho contra eles».
(Marcos 6, 8-11).
Ver um capacho é ver um símbolo,
o espaço medial entre uma casa, no que isso tem de espaço de protecção, e o
mundo que a rodeia, ameaçador e violento. Tal como a letra que está no meio de uma
palavra, o capacho está no centro de um mundo global que se divide em duas
partes distintas e desiguais, porventura antagónicas.
O capacho não é um
artigo, mas uma alegoria.
(Jorge Antunes, in Devaneios de uma 2ª feira à tarde, Edições Campos Velhos, 2012).
12 novembro 2012
Fotografias dos dias que correm
Fórmula para o caos
Imaginem que Xana, uma personalidade de esquerda, ateia, dirigente sindical, veterana das manifestações que por ai proliferam, que ostenta um visual ao estilo Occupy Wall Steet, com cabelo encarnado, diversos piercings, t-shirt com a famosa e comercial cara de Che Guevara e com tendência para não deixar os outros falar é convidada a participar num debate na televisão em horário nobre. Xana, quando desafiada pela moderadora a comentar a pobreza e as camadas sociais que a enfrentam, começa a vociferar verdades absolutas (Xana é adepta do Socialismo Cientifico de Marx, se cientifico, portanto, infalível) sobre esse flagelo. Mas Xana não considera importante falar sobre o combate à pobreza, prefere o combate à riqueza. Xana vê nos ricos a razão de existir dos pobres. Defende a repressão fiscal sobre as fortunas e o grande capital. Sobre os pobres Xana fala com sabedoria. Xana, qual educadora da classe operária, conhece todos os sentimentos dos pobres. E porque os conhece? Porque é munida de uma infinita sensibilidade social. Com uma resposta dessa magnitude, a moderadora demonstra um enternecimento atroz. Não poderia fazer outra coisa!
Agora imaginem que Isabel Jonet, pessoa que, sem nunca ter feito combate político, é reconhecidamente conservadora, católica, apelido estrangeiro, com voz serena e que fala sem ódio a qualquer tipo de classe está a debater na televisão. É-lhe colocada a mesma pergunta que havia sido a Xana. Isabel, usufruindo do seu direito de opinião, considera que existe um determinado grupo de pessoas (agora) carenciadas que deveriam reaprender a viver com o que têm. Que uma hierarquização das prioridades é imprescindível, que os bens básicos se sobrepõem aos produtos supérfluos. A moderadora, com ar intrigado, pergunta a Isabel Jonet se esta tem conhecimento das recentes estatísticas sobre a pobreza e as carências alimentares dos portugueses? Isabel responde, com a habitual serenidade, que conhece porque, já que o tema era esse, vê-se na obrigação de divulgar que é há mais de vinte anos máxima responsável do Banco Alimentar contra a fome. Instituição essa que ajuda 330 mil pessoas anualmente. A moderadora não se mostra esclarecida com a resposta. As redes sociais apelam à demissão de Isabel Jonet por esta não ter sensibilidade social.
Pedro Castelo Branco
11 novembro 2012
Domingo ….. Se Fores à Missa!
Provérbios de São Martinho
·
Por S. Martinho semeia fava e o linho.
·
Se o Inverno não erra o caminho,
tê-lo-ei pelo S. Martinho.
·
Se queres pasmar o teu vizinho, lavra,
sacha e esterca pelo S. Martinho.
·
No dia de S. Martinho, vai à adega e
prova o vinho.
·
No dia de S. Martinho, castanhas, pão e
vinho.
·
No dia de S. Martinho com duas castanhas
se faz um magustinho.
·
Dia de S. Martinho, fura o teu pipinho.
·
Dia de S. Martinho, lume, castanhas e
vinho.
·
Pelo S. Martinho, todo o mosto é bom
vinho.
Hoje é Domingo e cabe-me a mim a
tarefa de comentar o Evangelho.
Mas, hoje, também é dia de São
Martinho; conta a lenda que, certo dia, um dia um soldado romano chamado Martinho,
estava a caminho da sua terra natal. O tempo estava muito frio e Martinho
encontrou um mendigo cheio de frio que lhe pediu esmola. Martinho rasgou a sua
capa em duas e deu uma ao mendigo. De repente o frio parou e o tempo aqueceu.
Este acontecimento acredita-se que tenha sido a recompensa por Martinho ter
sido bom para com o mendigo… (coincidência, ou não, o certo é que, por
norma, na véspera e no Dia de São Martinho o tempo melhora e o sol aparece …. é
o Verão de São Martinho).
A lenda de
São Martinho e a leitura de hoje estão intimamente ligadas, pois falam-nos de
caridade e de generosidade. Poder-se-á dizer que “generosidade” é quando
damos uma esmola, tirada daquilo que nos sobra, tal como fizeram os ricos deste
texto; mas “caridade” é quando damos daquilo que é mesmo nosso, tal como fez
esta pobre viúva.
Não há nada
de mal em sermos só generosos, muito pelo contrário, a generosidade é uma
virtude universal e quem a pratica denota bons sentimentos, preocupação pelos
mais necessitados ou, no minimo, interesse em contribuir para uma sociedade
melhor. Mas a caridade, sinónimo de amor, vai para além do significado secular
da palavra generosidade.
Caridade é
amor pelo próximo, seja ele conhecido ou desconhecido, é dádiva, é entrega a
uma causa e essa causa é o amor.
Domingo, Se
Fores à Missa …… Sê Caridoso!
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo
São Marcos.
Naquele
tempo, Jesus ensinava a multidão, dizendo:
«Acautelai-vos dos escribas, que gostam de
exibir longas vestes, de receber cumprimentos nas praças, de ocupar os
primeiros assentos nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes. Devoram
as casas das viúvas, com pretexto de fazerem longas rezas. Estes receberão uma
sentença mais severa».
Jesus
sentou-Se em frente da arca do tesouro a observar como a multidão deitava o
dinheiro na caixa.
Muitos ricos
deitavam quantias avultadas.
Veio uma
pobre viúva e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante.
Jesus chamou
os discípulos e disse-lhes:
«Em verdade
vos digo: Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros.
Eles
deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que
tinha, tudo o que possuía para viver».
10 novembro 2012
Pensamentos impensados
Paleta de cores
Os censores, no tempo de Mussolini, usavam lápis-lazuli.
Linguajares
Os americanos acham que leite de cabra, em francês, se diz Chevrolet.
Voracidade
Os ingleses, quando querem que alguém coma rapidamente, dizem faz-te ao fud.
Desporto
Pergunta: em que posição está o Sporting?
Resposta: de gatas.
Relatividades
Quando comparadas com os Himalaias, as conversas sobre a Serra de Estrela têm pouco relevo.
SdB (I)
09 novembro 2012
08 novembro 2012
Da criatividade ao balcão
(fotografia enviada por mão amiga a propósito deste post)
Raramente entro numa pastelaria. Interdito que estou, por motivos ponderais, ao convívio íntimo com a doçaria, e tendo uma relação com a bebida café que se resume a chamar-lhe um líquido que me sobe a tensão, muito pouco me leva a esse segmento do canal horeca. Em bom rigor, nada me leva, a não ser a fome (um estado permanente) ou um estudo sociológico que, estou certo, outros antes de mim fizeram com garbo e saber superiores aos meus.
Há muito que perdi a ingenuidade – não o tipo de ingenuidade de que
estarão a pensar - mas outra, bem menos interessante, e que diz respeito à bica. Esta bebida deixou de ser uma
infusão para passar a ser uma criatividade. Eu explico:
Há alguns meses, espojava eu o meu corpo farto e cansado numa cadeira
de esplanada quando ouvi uma senhora nova pedir ao empregado: traga-me um descafeinado em chávena
escaldada, pingado com espuma de leite. Quando dei por mim estava a
hiperventilar, como diz uma amiga. O empregado manteve-se tranquilo e
obsequioso, como se escutasse uma trivialidade de todos os dias. Ao fim de cinco minutos o pedido foi aviado, sem que tivesse havido reclamação. Das duas uma: ou estava em conformidade ou a senhora não percebeu o que deglutiu.
Das raras vezes que vou a uma pastelaria ou estabelecimento comercial
semelhante e peço, com a voz projectada que Deus me deu e a multinacional
ajudou a desenvolver, uma bica, tenho
sempre a sensação de que falta alguma coisa. No fundo, como se levasse para o
leito uma rapariga estonteante de beleza e sensualidade e olvidasse, a tapar-me
uns artelhos elegantes, uma peúgas pretas e esbambeadas. Fico sempre na expectativa que o empregado me questione, com o sorriso ingénuo de quem acha que o cliente tem sempre razão: e como quer o seu cafezinho?
De facto, se nos perguntam se desejamos a carne mal passada e a água
fresca, porque não inquirir, com a mesma solicitude, quais as fantasias que
queremos associados ao café?
A cerveja quer-se gelada, o chá quer-se quente (ou frio, dependente da
estação do ano), o vinho tinto bebe-se à temperatura especificada pelo enólogo, os sumos apreciam-se frescos ou naturais. No ramo das bebidas – pelo menos destas que mencionei –
tudo parece ser simples, pobremente simples. Um café curto sem bisgóia (será que se percebe que a bisgóia não
veio?) ou mesmo um café em chávena escaldada com um pingo de leite quente, ou ainda outras variantes em chávena fria, sem princípio ou sem fim,
são requisitos que elevam a bica a uma espécie de olimpo das poções quotidianas. Confesso que nunca ouvi questionar-se o pedido, por mais bizarro que possa parecer, pelo que deduzo que nos cursos do iefp estas matérias são tratadas com desvelo e sapiência. Em última análise, o único risco que o cliente corre, com tanto licenciado no desemprego, é o balconista perguntar, confiante e sabedor: peço desculpa, mas sou muito engenheiro. Importa-se de definir o que é
leite quente?
Associado a esta temática do café encontramos ainda duas: a forma
individual, própria e constante como cada um de nós rasga o pacotinho de açúcar,
despeja parte ou a totalidade do conteúdo e se desfaz dele; por último, o
mistério que está por trás das pessoas que se assoam e olham com um ar curioso
para o lenço, como que a procurar uma parte do cerebelo que tenha
acompanhado o muco nasal. Falaremos disso um dia mais tarde, que agora tenho
mais do que fazer.
JdB
07 novembro 2012
Diário de uma astróloga – [38] –7 de Novembro de 2012
“Quando não quero que falem comigo digo que sou escorpião”
O sol entrou
em Escorpião a 23 de Outubro e aí permanecerá até 22 de Novembro. É um dos meus
signos favoritos, e estou contra corrente nesta escolha, porque a maior parte
das pessoas tem uma reacção de retraimento, de desconfiança, de cautela, ao
ouvir falar dos nativos de Escorpião.
A palavra evoca
imagens do animal propriamente dito, feio, negro, escondido debaixo das pedras,
movimentando-se sub-repticiamente e cuja mordidela é perigosa ou mortal. Essas
imagens constroem o estereótipo do signo de Escorpião, e são tão fortes que
mesmo os astrólogos, que deviam saber a diferença entre arquétipo e estereótipo,
reagem dessa maneira. Digo isto porque já testei. Nas conferências astrológicas
é costume escrever no “badge”, além do nome, os signos do Sol e da Lua. Eu
tenho uma dupla dose de Gémeos, o mais comunicativo do Zodíaco, e astrólogos desconhecidos
dirigem-se naturalmente a mim para trocar impressões. Um dia experimentei mudar
de signo para o Escorpião. Ninguém sorriu, ninguém me dirigiu a palavra. Assim, quando quero que me deixem em paz, afirmo-me como Escorpião.
Mas essa
imagem do animal predatório faz parte do arquétipo ou não? Quando falo de arquétipo
refiro-me não só às pessoas que têm o Sol e/ou vários planetas em Escorpião,
como às que têm o planeta regente Plutão em posição de destaque ou uma casa 8 repleta.
No campo da
literatura, a resposta é sim. Mary Shelley, criadora de Frankenstein, tem Plutão
em destaque no meio do céu, Bram Stoker escreveu “Drácula”, tendo o Sol e Lua em Escorpião, e Anne
Rice, autora das “Vampire Chronicles” tem Vénus e Mercúrio nesse signo.
O significado astrológico
de Escorpião não se limita à noção de monstro. TRANSFORMACAO é a palavra-chave,
isto é, em termos metafóricos, o ciclo da morte e ressurreição. Psicologicamente
só acontece quando confrontamos e integramos o nosso monstro pessoal, o que sucede
normalmente em tempos de crise. Para
muitos que já passaram por épocas assim sabem que é como descer aos infernos.
Plutão na mitologia grega era Hades, senhor das trevas e do mundo subterrâneo,
dono de tudo o que está escondido.
Depois da transformação,
tal como a fénix que renasce das cinzas, tornamo-nos mais íntegros, mais autênticos, e ganhamos força. Podemos voar mais alto não estando presos por inibições, complexos,
medos; deitámos fora o que já não serve. O poder da regeneração permite-nos ter
outra visão do mundo e de nos próprios. Por isso, antigamente, a constelação de escorpião
era representada por uma águia, animal com uma visão aguda e mais alargada.
O símbolo da águia
aparece noutros contextos. Na carta “Le Monde” do Tarot estão representados os
quatros signos fixos do zodíaco: Touro, Leão, Aquário e Escorpião como águia. Na
catedral de Orvieto em Itália estes quatro símbolos estão presentes na fachada
frontal.
Escorpião é um
signo fixo e, como tal, pretende impor a sua vontade aos outros o que lhe dá uma reputação
de manipulador e controlador. Por outro lado têm uma persistência e lealdade a
toda a prova e estão no seu melhor quando conseguem transformar a vida dos
outros.
Escorpião é um signo de água e, portanto, ligado ao mundo das emoções. É muito mais intenso do que os outros signos de água Caranguejo e Peixes. As emoções mais intensas da nossa vida estão ligadas a processos de morte e renascimento, de crise e de paixão, e todas estas situações caiem dentro do arquétipo escorpionico. Incluo também o erotismo e sexo; de uma forma positiva temos o sexo orgásmico, a fantástica união entre duas pessoas que se amam intensamente (não é por acaso que se diz “fazer amor”) mas, numa expressão negativa, temos a pornografia e as perversões.
O cinema adora este arquétipo, sobretudo no género “Atracção Fatal”, mas o personagem escorpionico mais famoso não tem nada a ver com sexo. Darth Vader, do Star Wars, inicia a sua vida como Jedi, mas entregou-se ao mundo das trevas por não ter sido capaz de integrar desgostos e perdas. Tornou-se péssimo mas, no fim da vida, dá-se uma transformação, ao sacrificar-se pelo seu filho Luke Skywalker. Antes de morrer renasce como Anakin, o Jedi bom, e retira a sua mascara.
Mas a melhor forma de intuir as características de Escorpião é através da música. Aqui ficam três sugestões:
O final dramático da ópera “Tristão e Isolda” de Wagner “Liebestod” (AmorMorte).
Escorpião é um signo de água e, portanto, ligado ao mundo das emoções. É muito mais intenso do que os outros signos de água Caranguejo e Peixes. As emoções mais intensas da nossa vida estão ligadas a processos de morte e renascimento, de crise e de paixão, e todas estas situações caiem dentro do arquétipo escorpionico. Incluo também o erotismo e sexo; de uma forma positiva temos o sexo orgásmico, a fantástica união entre duas pessoas que se amam intensamente (não é por acaso que se diz “fazer amor”) mas, numa expressão negativa, temos a pornografia e as perversões.
O cinema adora este arquétipo, sobretudo no género “Atracção Fatal”, mas o personagem escorpionico mais famoso não tem nada a ver com sexo. Darth Vader, do Star Wars, inicia a sua vida como Jedi, mas entregou-se ao mundo das trevas por não ter sido capaz de integrar desgostos e perdas. Tornou-se péssimo mas, no fim da vida, dá-se uma transformação, ao sacrificar-se pelo seu filho Luke Skywalker. Antes de morrer renasce como Anakin, o Jedi bom, e retira a sua mascara.
Mas a melhor forma de intuir as características de Escorpião é através da música. Aqui ficam três sugestões:
O final dramático da ópera “Tristão e Isolda” de Wagner “Liebestod” (AmorMorte).
O ballet Romeu e Julieta, de Prokofiev, que retrata os Montagues e os Capuletos num confronto implacavelmente negro antevendo o drama que todos conhecemos.
“El amor brujo”, de Manuel de Falla, onde sedução, perigo, mistério se confundem.
Luiza Azancot
06 novembro 2012
sob o céu que nos protege
paisagens incandescentes ardem
na ponta dos dedos e dos teus cabelos
eu preciso dos dedos, de todos os dedos
eu preciso de todos, dos dedos de todos
eu preciso dos tolos e dos seus dedos
- de todos, os mais belos
- de todos, os mais belos
gi.
05 novembro 2012
Vai um gin do Peter’s?
Ao ritmo da Yessian
Music, «FLYING OVER AMERICA» percorre em minutos os EUA, transmitindo toda a
modernidade e brio patriótico que se cultiva do lado de lá do Atlântico.
Sobre a América e a sua
hegemonia civilizacional através do cinema discorria há dias Eduardo Lourenço(1), numa
entrevista onde sublinhou o impacto da produção de Hollywood para a cultura
hodierna. Algo redutor, mas ainda assim q.b. interpelativo:
«Até que ponto é americano?
Sou americano pela influência que em todas as coisas teve sobre mim o
cinema. É, certamente, a arma mais eficaz e extraordinária que a humanidade
produziu para impor um modelo, um comportamento, de uma parte mínima dela, de
uma pequena elite concentrada. Hollywood é o resultado de uma gente que veio de
sítios precisos da Europa e ali inventaram uma máquina de divertimento
irresistível. É a maior máquina de publicidade e de publicidade política.
Propaganda?
Sim. Teve eficácia porque os valores defendidos encontraram eco. A França (…)
inventou o cinema, que foi levado para os EUA. Não é por acaso que o primeiro
grande filme produzido em Hollywood foi «O Nascimento de Uma Nação». O Homero
dessa nova cultura mundial foi o cinema e o assunto são os próprios EUA. Sem
cessar, os EUA estão a ser reinventados nas suas diversas figurações de país,
mesmo cheio de problemas, mas há sempre um discurso sobre isso. A grande
invenção dos EUA foi a própria mitificação muito importante como fundadora. As
imagens funcionam sem cessar.(…) Eles podem fazer isso porque acreditam realmente
nisso. (…)
O cinema tem uma lógica interna, chega a todo o lado. É como a Coca-Cola,
se consumirmos ficamos aditos. (…) (É) uma coisa de uma popularidade intensa
porque (é) participada. As pessoas reúnem-se para celebrar qualquer coisa. Não
é preciso que ninguém nos venha pregar nada. E o facto de o prazer que se tem
nisso ser uma resposta a um problema, talvez o mais sério da humanidade: o
tédio.»
Embora as observações
do filósofo português apenas realcem a vertente lúdica da sétima arte – que
está bem longe de esgotar o alcance profundíssimo do cinema – têm a graça de
assinalar a repercussão do produto mais internacional dos Estados Unidos,
atingindo os lugares mais recônditos do mundo.
Voltando à viagem em avioneta
(com o link no final), percorremos num voo rasante o caleidoscópio de paisagens
que compõem a super-potência desta época.
Começamos em Manhattan,
num travelling de aproximação à estátua da Liberdade – símbolo maior da pátria
do melting pot, onde tantos
emigrantes encontraram um porto de abrigo e uma nova oportunidade para singrar
na vida. Para a maioria, o primeiro embate em terras do tio Sam foi,
precisamente, à vista desta enorme figura de pedra empunhando um facho
luminoso. Aliás, logo a seguir ao célebre 11 de Setembro (2011), a net foi
invadida de cartoons com este ícone de
Manhattan, que personifica os
princípios fundadores da nação. Bem poderia ser o próximo alvo dos terroristas:
Depois, sobrevoamos a
capital política – Washinghton D.C. Seguem-se as montanhas com as célebres
figuras dos primeiros presidentes americanos esculpidas na rocha, numa versão
ultramoderna das esfinges dos faraós.
Avançamos, em seguida, para
o Mississipi, onde ainda hoje se respira o ambiente maravilhosamente narrado
por Mark Twain nas incansáveis aventuras de Tom Swayer.
Chegados aos grandes
canyons, esgueiramo-nos por aquelas gargantas estreitas de terra encarniçada e
árida, onde os cowboys precisavam de ser
mais rápidos do que a própria sombra. Nos antípodas estão os picos de neve,
algures em Vermont ou na célebre estância de sky de Aspen, ou na montanha mais
alta do país – a atracção dos alpinistas que apreciam o risco – o McKinley.
Concluímos a sobrevoar Las
Vegas, entre arranha-céus arrojadíssimos e uma réplica da Torre Eiffel num
ambiente urbanístico de vanguarda, pouco a ver com Paris ou as demais
metrópoles europeias, que respiram muitos séculos de história.
Vale a pena a viagem
por esta nação que reúne povos e costumes de muitas origens, como mosaico, em
ponto mais pequeno, da imensa diversidade que habita o planeta:
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico,
para daqui a 2 semanas, numa Segunda)
_____________
(1) «Sou um nómada», por
Isabel Lucas, Montepio, nº 7,
série II, Lisboa, Outono de 2012, pp. 32-38.
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