17 novembro 2012

Imagens dos dias que correm

(chama-se "Le rire" e foi enviado por um querido amigo)

Pensamentos impensados

Acordo, esse aborto
Vi, na TV, escrita a palavra "direto"; não vejo razão para abrir o E; temos loreto, gaveto, coreto, etc.

Justiça
Os assaltante de Multibanco que se deparam com notas inutilizadas deveriam ser indemnizados: os explosivos estão caros.

Investigação
Já se sabe como se chamam os habitantes das Ilhas Desertas: são os desertores.

Líricos
Os cantores, cantam. 
E os cantadores? Cantadam?

Drogas
Heroína faz-me lembrar S. Joana d'Arc.
Cocaína lembra-me um cocabichinhos

Ouvido na telefonia
Amor não é o que nos tira o fôlego; isso é asma.

SdB (I)

16 novembro 2012

aos meus poetas


Manuel de Freitas,
Rui Pires Cabral,
José Miguel Silva

nomes que iluminam
as noites dos
meus dias.

sem vós,
como desataria a língua
como apagaria os  surdos incêndios
como salvaria a negra península
que é meu coração?

brindo, pois,
aos meus poetas,
sentado em pleno Estádio,
bebericando moscatéis que zumbem.

e a vida?
pergunta, lá fora, quem passa.

a vida?, respondo:
a vida fica para outra vida.

gi.

15 novembro 2012

Anúncios dos dias que correm


Deixa-me rir...

Caros Audiophiles, this week I present an almost unknown electric violinist, Ed Alleyne-Johnson, who nevertheless has been recording and performing (he loves to busk in city streets around the world) for more than twenty years. 

I was listening to the late night radio a few nights ago and by chance the DJ played a piece of his music. Apparently, like me, some of the listeners had not heard his music for many years, and were thrilled to be reminded. Most listeners, like you I imagine, had never heard of him or his music, but evidently some also were curious to hear for the first time - "who is this guy?, what is this music called?, how can we find his music?" they emailed and tweeted to the radio station.

EAJ designed and built his own purple coloured 5-string (not the usual 4-string) electric violin. His CD recordings are totally 'live' performances, with no backing tapes, overdubs or re-mixing; instead he uses pedals to create music loops and delays and special effects. He sounds somewhere between Pachelbel's Canon and Mike Oldfield's electronica.

The DJ announced that it is the 20th anniversary of his CD Purple Electric Violin Concerto which is now to be re-promoted.
Perhaps Ed Alleyne-Johnson's time has finally arrived. Or maybe there is good reason why he will remain more or less a cult unknown.

You decide!




A proxima.
PO

14 novembro 2012

Ponto de Vírgula

Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por quê, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena.
Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal.
in Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust
fotografia de Dinah Fried, 'Fictitious Dishes'


Madalenas

Ingredientes

200 grs de açúcar
200 grs de farinha
180 grs de manteiga
5 ovos
raspa de 1 limão
1 colher de chá de fermento

Preparação

Numa tigela bata os ovos com o açúcar até ficar espumoso, vá deitando aos poucos a farinha onde misturou o fermento, mexendo sempre, acrescente a raspa do limão e, por fim, a manteiga derretida. 
Deixe repousar a massa 20 minutos. Encha as formas untadas com manteiga e polvilhadas com farinha até 3/4 da capacidade e leve a cozer cerca de 15 minutos em forno médio.

Nota: receita tirada daqui

MFM

13 novembro 2012

O Capacho


Entrei em casa de Josephine pela primeira vez já no final de Outubro. Gatteville le Phare estava quase deserta, açoitada por um vento norte, húmido, forte e constante, oriundo da escuridão do Canal da Mancha. No céu, tapado com um manto espesso de nuvens baixas e negras que pressagiava chuva, não se via uma estrela, Do mar, uma negritude persistente, vencida esparsamente pelo ciclo ritmado e luminoso do farol local. Perdi-me numa deambulação desorientada pela vila deserta até descortinar o meu destino. À porta, dois vasos grandes com flores locais, despidas na sua nudez outonal. Por cima, um candeeiro baloiçando desenfreado, espalhando uma luz errática pelo alpendre. Tudo parecia triste e lúgubre à excepção de um tapete grande, cor-de-rosa, em formato de meia lua, onde se tinham desenhado rosas num tom desmaiado mas bonito. Acanhei-me de limpar os pés ao único elemento que derramava um pouco de alegria naquela tristeza nocturna.

(Antoine LeBon, Um Outono no fim do mundo, 1958, Edições Largo da Boa-Hora)     

Um capacho será apenas um capacho? Num certo sentido, o da procura individual do equilíbrio das formas e das cores que condiciona as opções e revela escolhas, nada dirá mais sobre o mistério de uma casa onde se penetra pela primeira vez do que o capacho à entrada. Noutra perspectiva, a que é objecto desta reflexão, o capacho tem uma dimensão figurativa que congrega mitos à escala global, como se fossemos todos iguais, independentemente de latitudes, geografias humanas, divindades adoradas.

A definição encontrada nos dicionários é manifestamente curta, reduzindo o artigo em apreço ao utilitarismo das mercadorias vulgares: tapete de esparto a que se limpa o calçado. Numa tentativa de redenção da secura linguística, o dicionário ainda nos proporciona um sentido figurado para a palavra – pessoa servil. Não obstante, a conotação excessivamente negativa destas definições remete o artigo para um estatuto que o impede, algum dia, de alcandorar-se a objecto de estudo e reflexão.

Há uma limitação intelectual – talvez seja correcto dizer-se sensorial – na redução do capacho à sua funcionalidade mais estrita. Na soleira de uma porta o capacho é mais do que um objecto, devendo ser visto como a representação material de uma fronteira que liga, numa primeira fase, o exterior ao interior e, numa fase posterior, a sua inversa.

A limpeza dos sapatos num capacho é mais do que o esfregar intenso, ritmado e em sentidos opostos de uma sola numa superfície rugosa, com o objectivo de remover sujidade indesejável. Este acto, valorizado nos dias de hoje por quem procura apenas uma visão asséptica da vida, tem uma conotação  profunda e que nos remete para dimensões mais vastas do nosso colectivo. Anne Deschamps, uma francesa dos finais do séc. XIX, esposa de um missionário escocês no oriente longínquo, escreveria a um dos seus irmãos:

(...) todos limpam os sapatos num tapete à entrada, ainda que depois se descalcem para entrar. John explicou-me o simbolismo: “entra-se num lar e deixamos o que é exterior no exterior. Entra-se puro, sem influências externas que prejudiquem a harmonia portas adentro”.

Muitos exemplos poderiam ser dados para justificar este desejo de promover o capacho, artigo tão profusamente maltratado, a um estatuto mais condigno com a sua verdadeira raison d’être. A natureza forçosamente curta deste pequeno texto não o permite, no entanto. Não podemos, apesar das limitações de espaço, deixar de referir o significado do capacho no movimento de saída, isto é, do interior doméstico para o exterior mundano. Culturas há – e referimos novamente Anne Deschamps – que olham este movimento de forma diversa.

À saída os habitantes locais contornam o capacho, não porque este esteja sujo, mas porque está repleto de tudo o que para eles significa desequilíbrio da Terra, dos elementos, da sua ligação ao divino – e que pode trazer infortúnios indomáveis.

Deixei a citação da Bíblia – o livro dos livros – para o fim, porque é revelador de um outro ponto de vista. Repare-se na cultura substancialmente diferente da que Anne Deschamps encontrou no oriente, onde o seu marido revelava Jesus aos pagãos:

Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado: 
nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto; 
que fossem calçados com sandálias, 
e não levassem duas túnicas. 
E disse-lhes também:
 «Em qualquer casa em que entrardes ficai nela até partirdes dali.
 E se não fordes recebidos numa localidade,
 se os habitantes não vos ouvirem, 
ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés
 como testemunho contra eles».
 (Marcos 6, 8-11).

Ver um capacho é ver um símbolo, o espaço medial entre uma casa, no que isso tem de espaço de protecção, e o mundo que a rodeia, ameaçador e violento. Tal como a letra que está no meio de uma palavra, o capacho está no centro de um mundo global que se divide em duas partes distintas e desiguais, porventura antagónicas.

O capacho não é um artigo, mas uma alegoria.

(Jorge Antunes, in Devaneios de uma 2ª feira à tarde, Edições Campos Velhos, 2012).

12 novembro 2012

Fotografias dos dias que correm

(sim, sim, é isso que já sabem: o iphone, a hora matutina, o paredão do estoril, um dia destes...)

Fórmula para o caos


Imaginem que Xana, uma personalidade de esquerda, ateia, dirigente sindical, veterana das manifestações que por ai proliferam, que ostenta um visual ao estilo Occupy Wall Steet, com cabelo encarnado, diversos piercings, t-shirt com a famosa e comercial cara de Che Guevara e com tendência para não deixar os outros falar é convidada a participar num debate na televisão em horário nobre. Xana, quando desafiada pela moderadora a comentar a pobreza e as camadas sociais que a enfrentam, começa a vociferar verdades absolutas (Xana é adepta do Socialismo Cientifico de Marx, se cientifico, portanto, infalível) sobre esse flagelo. Mas Xana não considera importante falar sobre o combate à pobreza, prefere o combate à riqueza. Xana vê nos ricos a razão de existir dos pobres. Defende a repressão fiscal sobre as fortunas e o grande capital. Sobre os pobres Xana fala com sabedoria. Xana, qual educadora da classe operária, conhece todos os sentimentos dos pobres. E porque os conhece? Porque é munida de uma infinita sensibilidade social. Com uma resposta dessa magnitude, a moderadora demonstra um enternecimento atroz. Não poderia fazer outra coisa!

Agora imaginem que Isabel Jonet, pessoa que, sem nunca ter feito combate político, é reconhecidamente conservadora, católica, apelido estrangeiro, com voz serena e que fala sem ódio a qualquer tipo de classe está a debater na televisão. É-lhe colocada a mesma pergunta que havia sido a Xana. Isabel, usufruindo do seu direito de opinião, considera que existe um determinado grupo de pessoas (agora) carenciadas que deveriam reaprender a viver com o que têm. Que uma hierarquização das prioridades é imprescindível, que os bens básicos se sobrepõem aos produtos supérfluos. A moderadora, com ar intrigado, pergunta a Isabel Jonet se esta tem conhecimento das recentes estatísticas sobre a pobreza e as carências alimentares dos portugueses? Isabel responde, com a habitual serenidade, que conhece porque, já que o tema era esse, vê-se na obrigação de divulgar que é há mais de vinte anos máxima responsável do Banco Alimentar contra a fome. Instituição essa que ajuda 330 mil pessoas anualmente. A moderadora não se mostra esclarecida com a resposta. As redes sociais apelam à demissão de Isabel Jonet por esta não ter sensibilidade social.

Pedro Castelo Branco

11 novembro 2012

Domingo ….. Se Fores à Missa!

Provérbios de São Martinho
·       Por S. Martinho semeia fava e o linho.
·       Se o Inverno não erra o caminho, tê-lo-ei pelo S. Martinho.
·       Se queres pasmar o teu vizinho, lavra, sacha e esterca pelo S. Martinho.
·       No dia de S. Martinho, vai à adega e prova o vinho.
·       No dia de S. Martinho, castanhas, pão e vinho.
·       No dia de S. Martinho com duas castanhas se faz um magustinho.
·       Dia de S. Martinho, fura o teu pipinho.
·       Dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho.
·       Pelo S. Martinho, todo o mosto é bom vinho.

Hoje é Domingo e cabe-me a mim a tarefa de comentar o Evangelho. 
Mas, hoje, também é dia de São Martinho;  conta a lenda que, certo dia, um dia um soldado romano chamado Martinho, estava a caminho da sua terra natal. O tempo estava muito frio e Martinho encontrou um mendigo cheio de frio que lhe pediu esmola. Martinho rasgou a sua capa em duas e deu uma ao mendigo. De repente o frio parou e o tempo aqueceu. Este acontecimento acredita-se que tenha sido a recompensa por Martinho ter sido bom para com o mendigo…  (coincidência, ou não, o certo é que, por norma, na véspera e no Dia de São Martinho o tempo melhora e o sol aparece …. é o Verão de São Martinho).

A lenda de São Martinho e a leitura de hoje estão intimamente ligadas, pois falam-nos de caridade e de  generosidade.  Poder-se-á dizer que “generosidade” é quando damos uma esmola, tirada daquilo que nos sobra, tal como fizeram os ricos deste texto; mas “caridade” é quando damos daquilo que é mesmo nosso, tal como fez esta pobre viúva. 
Não há nada de mal em sermos só generosos, muito pelo contrário, a generosidade é uma virtude universal e quem a pratica denota bons sentimentos, preocupação pelos mais necessitados ou, no minimo, interesse em contribuir para uma sociedade melhor. Mas a caridade, sinónimo de amor, vai para além do significado secular da palavra generosidade. 
Caridade é amor pelo próximo, seja ele conhecido ou desconhecido, é dádiva, é entrega a uma causa e essa causa é o amor.

Domingo, Se Fores à Missa …… Sê Caridoso!

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos.

Naquele tempo, Jesus ensinava a multidão, dizendo:
 «Acautelai-vos dos escribas, que gostam de exibir longas vestes, de receber cumprimentos nas praças, de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes. Devoram as casas das viúvas, com pretexto de fazerem longas rezas. Estes receberão uma sentença mais severa».
Jesus sentou-Se em frente da arca do tesouro a observar como a multidão deitava o dinheiro na caixa.
Muitos ricos deitavam quantias avultadas.
Veio uma pobre viúva e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante.
Jesus chamou os discípulos e disse-lhes:
«Em verdade vos digo: Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros.
Eles deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver».

10 novembro 2012

Pensamentos impensados


Paleta de cores 
Os censores, no tempo de Mussolini, usavam lápis-lazuli.

Linguajares
Os americanos acham que leite de cabra, em francês, se diz Chevrolet.

Voracidade
Os ingleses, quando querem que alguém coma rapidamente, dizem faz-te ao fud.

Desporto
Pergunta: em que posição está o Sporting?
Resposta: de gatas.

Relatividades
Quando comparadas com os Himalaias, as conversas sobre a Serra de Estrela têm pouco relevo.

SdB (I)

08 novembro 2012

Da criatividade ao balcão

(fotografia enviada por mão amiga a propósito deste post)

Raramente entro numa pastelaria. Interdito que estou, por motivos ponderais, ao convívio íntimo com a doçaria, e tendo uma relação com a bebida café que se resume a chamar-lhe um líquido que me sobe a tensão, muito pouco me leva a esse segmento do canal horeca. Em bom rigor, nada me leva, a não ser a fome (um estado permanente) ou um estudo sociológico que, estou certo, outros antes de mim fizeram com garbo e saber superiores aos meus.

Há muito que perdi a ingenuidade – não o tipo de ingenuidade de que estarão a pensar - mas outra, bem menos interessante, e que diz respeito à bica. Esta bebida deixou de ser uma infusão para passar a ser uma criatividade. Eu explico:

Há alguns meses, espojava eu o meu corpo farto e cansado numa cadeira de esplanada quando ouvi uma senhora nova pedir ao empregado: traga-me um descafeinado em chávena escaldada, pingado com espuma de leite. Quando dei por mim estava a hiperventilar, como diz uma amiga. O empregado manteve-se tranquilo e obsequioso, como se escutasse uma trivialidade de todos os dias. Ao fim de cinco minutos o pedido foi aviado, sem que tivesse havido reclamação. Das duas uma: ou estava em conformidade ou a senhora não percebeu o que deglutiu.

Das raras vezes que vou a uma pastelaria ou estabelecimento comercial semelhante e peço, com a voz projectada que Deus me deu e a multinacional ajudou a desenvolver, uma bica, tenho sempre a sensação de que falta alguma coisa. No fundo, como se levasse para o leito uma rapariga estonteante de beleza e sensualidade e olvidasse, a tapar-me uns artelhos elegantes, uma peúgas pretas e esbambeadas. Fico sempre na expectativa que o empregado me questione, com o sorriso ingénuo de quem acha que o cliente tem sempre razão: e como quer o seu cafezinho?  De facto, se nos perguntam se desejamos a carne mal passada e a água fresca, porque não inquirir, com a mesma solicitude, quais as fantasias que queremos associados ao café?

A cerveja quer-se gelada, o chá quer-se quente (ou frio, dependente da estação do ano), o vinho tinto bebe-se à temperatura especificada pelo enólogo, os sumos apreciam-se frescos ou naturais. No ramo das bebidas – pelo menos destas que mencionei – tudo parece ser simples, pobremente simples. Um café curto sem bisgóia (será que se percebe que a bisgóia não veio?) ou mesmo um café em chávena escaldada com um pingo de leite quente, ou ainda outras variantes em chávena fria, sem princípio ou sem fim, são requisitos que elevam a bica a uma espécie de olimpo das poções quotidianas. Confesso que nunca ouvi questionar-se o pedido, por mais bizarro que possa parecer, pelo que deduzo que nos cursos do iefp estas matérias são tratadas com desvelo e sapiência. Em última análise, o único risco que o cliente corre, com tanto licenciado no desemprego, é o balconista perguntar, confiante e sabedor: peço desculpa, mas sou muito engenheiro. Importa-se de definir o que é leite quente?

Associado a esta temática do café encontramos ainda duas: a forma individual, própria e constante como cada um de nós rasga o pacotinho de açúcar, despeja parte ou a totalidade do conteúdo e se desfaz dele; por último, o mistério que está por trás das pessoas que se assoam e olham com um ar curioso para o lenço, como que a procurar uma parte do cerebelo que tenha acompanhado o muco nasal. Falaremos disso um dia mais tarde, que agora tenho mais do que fazer.

JdB  

07 novembro 2012

Diário de uma astróloga – [38] –7 de Novembro de 2012

“Quando não quero que falem comigo digo que sou escorpião”

O sol entrou em Escorpião a 23 de Outubro e aí permanecerá até 22 de Novembro. É um dos meus signos favoritos, e estou contra corrente nesta escolha, porque a maior parte das pessoas tem uma reacção de retraimento, de desconfiança, de cautela, ao ouvir falar dos nativos de Escorpião.

A palavra evoca imagens do animal propriamente dito, feio, negro, escondido debaixo das pedras, movimentando-se sub-repticiamente e cuja mordidela é perigosa ou mortal. Essas imagens constroem o estereótipo do signo de Escorpião, e são tão fortes que mesmo os astrólogos, que deviam saber a diferença entre arquétipo e estereótipo, reagem dessa maneira. Digo isto porque já testei. Nas conferências astrológicas é costume escrever no “badge”, além do nome, os signos do Sol e da Lua. Eu tenho uma dupla dose de Gémeos, o mais comunicativo do Zodíaco, e astrólogos desconhecidos dirigem-se naturalmente a mim para trocar impressões. Um dia experimentei mudar de signo para o Escorpião. Ninguém sorriu, ninguém me dirigiu a palavra. Assim, quando quero que me deixem em paz, afirmo-me como Escorpião.

Mas essa imagem do animal predatório faz parte do arquétipo ou não? Quando falo de arquétipo refiro-me não só às pessoas que têm o Sol e/ou vários planetas em Escorpião, como às que têm o planeta regente Plutão em posição de destaque ou uma casa 8 repleta.

No campo da literatura, a resposta é sim. Mary Shelley, criadora de Frankenstein, tem Plutão em destaque no meio do céu, Bram Stoker escreveu “Drácula”, tendo o Sol e Lua em Escorpião, e Anne Rice, autora das “Vampire Chronicles” tem Vénus e Mercúrio nesse signo.

O significado astrológico de Escorpião não se limita à noção de monstro. TRANSFORMACAO é a palavra-chave, isto é, em termos metafóricos, o ciclo da morte e ressurreição. Psicologicamente só acontece quando confrontamos e integramos o nosso monstro pessoal, o que sucede normalmente em tempos de crise.  Para muitos que já passaram por épocas assim sabem que é como descer aos infernos. Plutão na mitologia grega era Hades, senhor das trevas e do mundo subterrâneo, dono de tudo o que está escondido.

Depois da transformação, tal como a fénix que renasce das cinzas, tornamo-nos mais íntegros, mais autênticos, e ganhamos força. Podemos voar mais alto não estando presos por inibições, complexos, medos; deitámos fora o que já não serve. O poder da regeneração permite-nos ter outra visão do mundo e de nos próprios. Por isso, antigamente, a constelação de escorpião era representada por uma águia, animal com uma visão aguda e mais alargada.

O símbolo da águia aparece noutros contextos. Na carta “Le Monde” do Tarot estão representados os quatros signos fixos do zodíaco: Touro, Leão, Aquário e Escorpião como águia. Na catedral de Orvieto em Itália estes quatro símbolos estão presentes na fachada frontal.

Escorpião é um signo fixo e, como tal, pretende impor a sua vontade aos outros o que lhe dá uma reputação de manipulador e controlador. Por outro lado têm uma persistência e lealdade a toda a prova e estão no seu melhor quando conseguem transformar a vida dos outros.

Escorpião é um signo de água e, portanto, ligado ao mundo das emoções. É muito mais intenso do que os outros signos de água Caranguejo e Peixes. As emoções mais intensas da nossa vida estão ligadas a processos de morte e renascimento, de crise e de paixão, e todas estas situações caiem dentro do arquétipo escorpionico. Incluo também o erotismo e sexo; de uma forma positiva temos o sexo orgásmico, a fantástica união entre duas pessoas que se amam intensamente (não é por acaso que se diz “fazer amor”) mas, numa expressão negativa, temos a pornografia e as perversões.

O cinema adora este arquétipo, sobretudo no género “Atracção Fatal”, mas o personagem escorpionico mais famoso não tem nada a ver com sexo. Darth Vader, do Star Wars, inicia a sua vida como Jedi, mas entregou-se ao mundo das trevas por não ter sido capaz de integrar desgostos e perdas. Tornou-se péssimo mas, no fim da vida, dá-se uma transformação, ao sacrificar-se pelo seu filho Luke Skywalker. Antes de morrer renasce como Anakin, o Jedi bom, e retira a sua mascara.

Mas a melhor forma de intuir as características de Escorpião é através da música. Aqui ficam três sugestões:

O final dramático da ópera “Tristão e Isolda” de Wagner  “Liebestod”  (AmorMorte). 



O ballet Romeu e Julieta, de Prokofiev, que retrata os Montagues e os Capuletos num confronto implacavelmente negro antevendo o drama que todos conhecemos.



“El amor brujo”, de Manuel de Falla, onde sedução, perigo, mistério se confundem.




Luiza Azancot

06 novembro 2012

sob o céu que nos protege




paisagens incandescentes ardem
na ponta dos dedos e dos teus cabelos

eu preciso dos dedos, de todos os dedos
eu preciso de todos, dos dedos de todos

eu preciso dos tolos e dos seus dedos
- de todos, os mais belos


gi.

05 novembro 2012

Vai um gin do Peter’s?

Ao ritmo da Yessian Music, «FLYING OVER AMERICA» percorre em minutos os EUA, transmitindo toda a modernidade e brio patriótico que se cultiva do lado de lá do Atlântico.

Sobre a América e a sua hegemonia civilizacional através do cinema discorria há dias Eduardo Lourenço(1), numa entrevista onde sublinhou o impacto da produção de Hollywood para a cultura hodierna. Algo redutor, mas ainda assim q.b. interpelativo:

«Até que ponto é americano?
Sou americano pela influência que em todas as coisas teve sobre mim o cinema. É, certamente, a arma mais eficaz e extraordinária que a humanidade produziu para impor um modelo, um comportamento, de uma parte mínima dela, de uma pequena elite concentrada. Hollywood é o resultado de uma gente que veio de sítios precisos da Europa e ali inventaram uma máquina de divertimento irresistível. É a maior máquina de publicidade e de publicidade política.


Propaganda?
Sim. Teve eficácia porque os valores defendidos encontraram eco. A França (…) inventou o cinema, que foi levado para os EUA. Não é por acaso que o primeiro grande filme produzido em Hollywood foi «O Nascimento de Uma Nação». O Homero dessa nova cultura mundial foi o cinema e o assunto são os próprios EUA. Sem cessar, os EUA estão a ser reinventados nas suas diversas figurações de país, mesmo cheio de problemas, mas há sempre um discurso sobre isso. A grande invenção dos EUA foi a própria mitificação muito importante como fundadora. As imagens funcionam sem cessar.(…) Eles podem fazer isso porque acreditam realmente nisso. (…)
O cinema tem uma lógica interna, chega a todo o lado. É como a Coca-Cola, se consumirmos ficamos aditos. (…) (É) uma coisa de uma popularidade intensa porque (é) participada. As pessoas reúnem-se para celebrar qualquer coisa. Não é preciso que ninguém nos venha pregar nada. E o facto de o prazer que se tem nisso ser uma resposta a um problema, talvez o mais sério da humanidade: o tédio.»

Embora as observações do filósofo português apenas realcem a vertente lúdica da sétima arte – que está bem longe de esgotar o alcance profundíssimo do cinema – têm a graça de assinalar a repercussão do produto mais internacional dos Estados Unidos, atingindo os lugares mais recônditos do mundo.

Voltando à viagem em avioneta (com o link no final), percorremos num voo rasante o caleidoscópio de paisagens que compõem a super-potência desta época.

Começamos em Manhattan, num travelling de aproximação à estátua da Liberdade – símbolo maior da pátria do melting pot, onde tantos emigrantes encontraram um porto de abrigo e uma nova oportunidade para singrar na vida. Para a maioria, o primeiro embate em terras do tio Sam foi, precisamente, à vista desta enorme figura de pedra empunhando um facho luminoso. Aliás, logo a seguir ao célebre 11 de Setembro (2011), a net foi invadida de cartoons com este ícone de  Manhattan, que  personifica os princípios fundadores da nação. Bem poderia ser o próximo alvo dos terroristas: 




Modelo muçulmano vs occidental da Estátua

Depois, sobrevoamos a capital política – Washinghton D.C. Seguem-se as montanhas com as célebres figuras dos primeiros presidentes americanos esculpidas na rocha, numa versão ultramoderna das esfinges dos faraós.

Avançamos, em seguida, para o Mississipi, onde ainda hoje se respira o ambiente maravilhosamente narrado por Mark Twain nas incansáveis aventuras de Tom Swayer.

Chegados aos grandes canyons, esgueiramo-nos por aquelas gargantas estreitas de terra encarniçada e árida, onde os cowboys precisavam de ser mais rápidos do que a própria sombra. Nos antípodas estão os picos de neve, algures em Vermont ou na célebre estância de sky de Aspen, ou na montanha mais alta do país – a atracção dos alpinistas que apreciam o risco – o McKinley.

Concluímos a sobrevoar Las Vegas, entre arranha-céus arrojadíssimos e uma réplica da Torre Eiffel num ambiente urbanístico de vanguarda, pouco a ver com Paris ou as demais metrópoles europeias, que respiram muitos séculos de história.

Vale a pena a viagem por esta nação que reúne povos e costumes de muitas origens, como mosaico, em ponto mais pequeno, da imensa diversidade que habita o planeta:


  
Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Segunda)
_____________
(1)  «Sou um nómada», por Isabel Lucas, Montepio, nº 7, série II, Lisboa, Outono de 2012, pp. 32-38.

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