quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Largo da Boa – Hora

JdB é o editor deste blogue.
JdB é um Homem, um escritor, um intelectual, profundamente devoto à fé católica, crivo que lhe é essencial à lide com a vida, tendo, inclusive, uma fortíssima vocação missionária.
JdB é um Homem confrontado e comprovado pela vida. Não é um amador ou académico, sabe do que fala, quando fala e, sobretudo, o que cala.
JdB tem o meu respeito e admiração. Num plano afectivo e íntimo tem a minha fraternidade, patamar maior da amizade.
Sabia e esperava forte reacção ao meu texto sobre o Perdão, publicado a 21 de Janeiro e replicado a 25 pelo JdB.
Ao escrevê-lo, pressenti logo o caminho de divergência que estava a abrir, adivinhei imediatamente que o meu pragmatismo fosse chocar o idealismo que enferma a convicção de vida e de fé de muitos (para que saibam, minha também, porque sou católico e não esqueço essa condição, omito-a quando escrevo, para tentar ser mais abrangente).
Só que este Largo da Boa-Hora não é o da vida idealizada, divinizada. É um espaço onde corre o rio das vivências reais, bordejado e limitado pelas margens do possível, do alcançável, do exequível. Este largo é um leito da vida real com todas as suas grandezas e misérias. Aqui trespassa a condição humana na sua dimensão de verdade, na sua beleza mas, também, na sua fealdade.
No plano dos princípios sei o laudo que merece e acompanho em aplauso o que o JdB me replicou. Tudo o que ele escreve e transmite tem a minha adesão sincera, só que….
Para muitos de nós não estamos a tratar de teorias, de filosofias, estamos a tratar de realidades actuais, vivas, presentes que nos acompanham no dia-a-dia.
O meu texto é dirigido aos que sofrem agressões violentas, definitivas, que lhes alteram, ou alteraram irremediavelmente, vidas e afectos. Agressões essas que têm um culpado, um comportamento agressor e depois uma perenidade de acção lesiva, sem remorso, contrição, piedade ou tentativa de reparo do mal causado.
Todos aqueles que se confrontaram com o mal humano têm inevitavelmente que resolver o dilema entre o perdão e outra qualquer forma de, em bondade e em paz, seguirem as suas vidas.
Escrevi para aqueles que sabem, sentem, têm a certeza que não podem, não conseguem, não acham sequer justo conceder o perdão. Mais, não saberiam o que fazer com ele.
Escrevi para aqueles que são coerentes e que entendem – como eu – que o perdão não é um desculpar do coração em ordem à santidade, mas um “apagão” do acontecido, um esquecimento de tudo o que passou, com o consequente retomar de todos os laços anteriores ao mal causado.
É precisamente na coerência da absoluta exigência cumulativa entre o perdão e o refazer do antes que esbarram as minhas objecções sobre a sua possibilidade e viabilidade.
Quem defende o perdão (entenda-se como acto não sujeito a prévias condições e requisitos do agressor, tal como exaustivamente descrevi) portanto, como acto de bondade, de santidade, unilateral, provindo exclusivamente do coração de cada um, tem de defender o corolário lógico e necessário, precisamente o prosseguimento como se nada houvera sucedido.
Poderá este cenário de unilateralidade e prosseguimento do passado, sem mácula do tempo que o destruiu, ser regra, ser motivação de vida, ser ambição, ser até dever de cristão ou homem bom?
Mantenho, o meu não.
É no refazer que assenta a impossibilidade. Não é possível na maioria das vezes esse refazer, e essa impossibilidade inquina de morte a predisposição antecedente do coração, dos sentimentos, que iam no sentido de ”perdoar”.
O perdão unilateral, como acto íntimo e secreto, é um acto voluntarioso mas inconsequente, se não for seguido da “tábua rasa” do que aconteceu. Digam-me, olhos nos olhos, de verdade, quantas vezes conseguimos essa dupla vertente do perdão: absolver e dar lugar ao faltoso no paraíso das nossas existências.
É que o perdão é muito exigente e, daí, a minha cautela. Exige – concedo – um acto de amor, bondade, unilateral de desculpa, de apagamento, de exoneração, mas exige muito mais, exige o que Deus dá: precisamente o direito de se sentar à Sua direita como qualquer outro justo ou arrependido.
Quem acompanhar o JdB no dever e vocação do perdão, está disposto a sentar à sua direita o perdoado? Responda cada um.
Ora, neste contexto de realidade, eu defendi e defendo que a alternativa à impossibilidade de sentar à direita o perdoado, para o homem bom, é renunciar à vingança, à perseguição, ao rancor.
Mas disse mais, e escapou ao JdB, disse que esse mesmo homem bom, a partir dessa renúncia, pode e deve trilhar caminhos de compreensão, de pacificação, de harmonia, de entendimento, que não reconstroem o perdido e passado, mas serão bases de sã, saudável e cristã, convivência.
A minha mensagem era simples e mantenho-a: aquilo que puder ser perdoado, perdoa-se, mas não tenhamos ilusões, pois raras serão as situações. O que não puder ser perdoado, tenta-se enquadrar na condição humana e luta-se, sem rancor, para que subsistam pontes mínimas de contacto, de vivência, de cordialidade, que farão um caminho novo. Mas, e finalmente, não lutemos contra moinhos de vento nem nos violentemos, quando o mal é mal e quer subsistir, não nos percamos no ódio, refugiemo-nos, protejamo-nos, no entregar o mal ao nada, à não existência, extirpando-o da vida, do coração, embarcando-o na barca do Gil Vicente.
Recuso-me a hipocrisias. Recuso-me a actos inconsequentes. Restam-me, pois, os patamares do possível, num caminho de paz comigo e com os outros.
Desculpem-me, os que me lêem, por insistir. É que sinto que este tema é muito mais preocupante e pertinente do que pode parecer numa primeira análise. As vidas de todos têm episódios em que este tema se reflecte, e casos há em que o dramatismo da situação é imenso, importando saber lidar com ela com realismo e com bondade, mas sem utopias, sob pena, se seguirmos certos paradigmas – certos na essência, mas incompletos na formulação – de nos encontramos perdidos num vendaval e tormento de culpas por aquilo que não fizemos, e às vezes tão tarde que a morte já cortou cerce a possibilidade de alternativas.
Não escrevo este texto em salutar e alegre disputa com o JdB – como habitualmente – escrevo com a incompetência e impotência de não conseguir vencer os seus doutos argumentos que, de tão conceptualmente certos e lógicos, podem ter inutilizado uma janela de bem e realidade que quis abrir, no meu texto, para quem sofre.
Quis dizer a esses o que fazer para seguir, como eu faço. Nada mais, nada menos
Obrigado JdB, como sempre, porque tudo o que dizes no texto de 25.01, é certo e belo, apenas … ficou curto.

ATM

3 comentários:

Anónimo disse...

Vou contar uma história, ATM - posso? Um dia, era o meu filho Salvador pequeno - seis, sete anos - e brincava na rua com um skate. Um delinquente aproximou-se e pediu-lho, certamente por se tratar de um modelo caro e cobiçável. Ele negou-se e o matulão não fez mais nada: agarrou na carabina que trazia e atirou-lhe um chumbo ao olho, a menos de meio metro de distância. O Salvador ficou cego de sangue e de facto: perdeu 80% de visão do olho direito e ficou impedido, por muitos anos, de fazer desportos radicais, sendo que, incluído nestes, estava o seu querido futebol (!) Enfim: São José com ele, operação delicadíssima de olho retirado em cima da banca, um plano de dois meses de idas a Coimbra para recuperação, polícia em cima do parvalhão, e, no dia seguinte, quando ia a sair de casa, o pai do rapaz barrou-me o caminho para me pedir que eu desistisse da queixa. Era um homem humilde e vinha destroçado, com a cara plissada de amargura: «Sabe? Ele não regula...» E beijando-me as mãos: «Rogo-lhe, minha senhora...» Já não me lembro bem: «Mantivémos a queixa por questões de responsabilidade cívica, somente: amanhã estaria a fazer o mesmo a outra criança. Mas, apesar de quase deixar cego o meu filho, reparei que nem o meu marido nem eu guardámos raiva alguma àquele infeliz: tínhamo-lo perdoado. E assim vejo o verdadeiro perdão: não como um dever religioso ou uma questão moral, antes como um reflexo que, partindo de um conhecimento vasto do comportamento humano, releva o homem dos seus impulsos mais obscuros. Até porque os também sentimos, não é?

Anónimo disse...

Vou contar uma história, ATM - posso? Um dia, era o meu filho Salvador pequeno - seis, sete anos - e brincava na rua com um skate. Um delinquente aproximou-se e pediu-lho, certamente por se tratar de um modelo caro e cobiçável. Ele negou-se e o matulão não fez mais nada: agarrou na carabina que trazia e atirou-lhe um chumbo ao olho, a menos de meio metro de distância. O Salvador ficou cego de sangue e de facto: perdeu 80% de visão do olho direito e ficou impedido, por muitos anos, de fazer desportos radicais, sendo que, incluído nestes, estava o seu querido futebol (!) Enfim: São José com ele, operação delicadíssima de olho retirado em cima da banca, um plano de dois meses de idas a Coimbra para recuperação, polícia em cima do parvalhão, e, no dia seguinte, quando ia a sair de casa, o pai do rapaz barrou-me o caminho para me pedir que eu desistisse da queixa. Era um homem humilde e vinha destroçado, com a cara plissada de amargura: «Sabe? Ele não regula...» E beijando-me as mãos: «Rogo-lhe, minha senhora...» Já não me lembro bem: «Mantivémos a queixa por questões de responsabilidade cívica, somente: amanhã estaria a fazer o mesmo a outra criança. Mas, apesar de quase deixar cego o meu filho, reparei que nem o meu marido nem eu guardámos raiva alguma àquele infeliz: tínhamo-lo perdoado. E assim vejo o verdadeiro perdão: não como um dever religioso ou uma questão moral, antes como um reflexo que, partindo de um conhecimento vasto do comportamento humano, releva o homem dos seus impulsos mais obscuros. Até porque os também sentimos, não é? Rita Ferro

Anónimo disse...

Parabéns ATM e JdB,
Foi com imenso prazer que li uma "disputa", entre 2 pessoas inteligentes e bem educadas, que se respeitam e que escrevem tão bem.
Na minha opinião, e penso que seja a mesma do ATM, há 1 perdão dificil de conceder. É aquele que por vários motivos temos que conceder, não pelo divino, mas pelo terreno, a pessoas "cáusticas" que nos fazem sempre mal, que nem percebem porque não conseguimos dar-lhes o nosso perdão.
Considero, que por vezes o melhor perdão, é a indiferença, que também pode ser considerado como um grande acto de perdão e de amor.

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