sábado, 14 de fevereiro de 2009

DaMeGas

pena que não escreves. tenho saudades de como te amanhas com as palavras, de ter de voltar atrás para seguir em frente, a ver se te entendo, que nada me escape. deixas-me publicar-te? ao tempo que não me sacode os ombros a tua prosa. deixa-me por-te ao sol agora que anda aí e até os fundos dos blogs parece que foram a corar. cá vai, sobre a já alva beleza do Adeus, seguro de que os nossos bloyeurs hão-de gostar.

Tens o sorriso da tua mãe. Aquele mesmo que lhe vi quando pela primeira vez me descobri perdido por ela para sempre, perdido de mim, do mundo e da própria vida, amarrado sem esperança de fuga possível. Trouxe-lhe um gatito apanhado na eira, enjeitado e ramelento, faminto de leite e aconchegos e larguei-lho na bolsa da saia em pano riscado: é teu.

Tinha a tua idade e lançou-me o sorriso de perdição que me deixou dias em apertos e cuidados, que sabia eu até aí desta coisa que nos dá pelos filhos, que fica para vida, que nos tira o tino e o sono, que nos esquece de nós. Eu tinha avisos, tinha a história do mundo a falar-me desta força maior, mas, tonto, que nunca me dera para entender. Senão nesse dia ao fim da tarde, gato nas mãos, cheiro a campo vivo, a tua avó na pressa de nos ver à mesa, “para dentro, venham para dentro”, e eu caído como um tordo, desfeito pelo sorriso da tua mãe. Chamou-lhe Pirraças, e Pirraças ficou, durante anos atrás da rataria e do calor da lareira. Até que se foi sem deixar rasto, como sabem ir os gatos.

Teimosa que sempre foi, que também és, que também sou, que o diga a tua avó, que não lhe digas que o disse, que nunca mais se calará, não houve mais gato que aparecesse que não lhe chamasse Pirraças. Que é assim a vida, que o mundo se faz e refaz, teimava, que por aqui andamos hoje, que amanhã nos vamos, que o momento nos faz melhores ou piores para sempre, que sozinhos nada somos, que mais vale a história que se vive e que se conta, que se ensina, do que a história que se cala, que se chora às escuras. Que se tem de partilhar tudo, que esmiuçar lamentos, que largar amarguras calcadas, culpas de outros entregues a quem pertencem. E eu, ensinado a calar, a respeitar, a não apontar, a que acima não se questiona, a que os pais tudo sabem, a que tudo nos fizeram pelo bem que era para nós, a ouvi-la, a vê-la, a já não ver nela a menina da saia em pano riscado, até que ela sorria e, que sei eu, que sabe lá ela…

Que terá razão. Que estes tempos não se entendem. Eu não os entendo. Não me ensinaram a esperá-los. Não sei como os viveria se fossem meus. E o que menos entendo é que o sorriso dela tenha a força de os viver, de lhes sobreviver, de continuar em ti. Qual Pirraças. Quem lhe terá dado o sorriso? Que terá sido do Pirraças?

Para que havia ela de se pôr logo a querer tudo naquele rompante, fazer-se à vida, um dia com a saia em pano riscado, a cheirar a bolo roubado antes do lanche, no outro porta fora, mala aviada, curso a meio, o rapaz à espera, que não ma roubava, que era emprestada que a levava, que o ganhava a ele, que não a perdia. Que, perdido, estava ele, estivesse certo, ela que vertesse uma lágrima que fosse, que perdesse o meu sorriso, que viesse largar-me amarguras com culpas de outros, de outro, dele.

Que sabíamos lá nós da vida dela, que prá semana talvez viesse num pulo, que talvez desse, que não sabia, que era uma lufa-lufa, que eram outros os tempos.

Que tu vinhas aí. Que a desculpasse. Que tinha o meu sorriso a falar-lhe desta força maior, mas, tonta, que nunca lhe dera para entender. Que soubera ela até aí desta coisa que nos dá pelos filhos, que fica para vida, que nos tira o tino e o sono, que nos esquece de nós. Que tem medo. Por ti. Por este mundo. Por ti neste mundo. E a tua avó na pressa de nos ver à mesa, “venham cá para fora, venham cá para fora”. Vamos lá Pirraças. Como se fosse esta a primeira vez que o mundo sabe desta coisa que nos dá pelos filhos. Como se o mundo não se desfizesse e refizesse. Sempre.

Luisa Jacobetty

7 comentários:

Anónimo disse...

terá sido um gás que se lhe deu ? daqueles que nos deixam zonzos e entontecidos ? lolol Espero que a Jacobetty tenha ouvido o seu pedido "da-me gás" e lho tenha dado em ambundância, para eu poder ter o privilégio de voltar a ler a DaLheGás em primeira mão :-) k egoista eu, hem ? (também eu, hoje, tive de voltar atrás a ver se entendia... também o fiz, incontáveis vezes, quando li Cem Anos de Solidão do GGM" .
Bj DáLhe, DáMe, DàNos and so on ...

Anónimo disse...

Um mimo esta história da família, contada pela avó (?)na voz do pai
(será que li bem? -"tenho saudades de como te amanhas com as palavras, de ter de voltar atrás para seguir em frente, a ver se te entendo"...)
e que ternura o encanto e delírio do pai pela sua amada, e pelo seu sorriso de perdição que então deixava em apertos e cuidados...ainda há disto?
ainda há esta ternura, este enlevo, esta cerimónia, este cuidado, este fugir (grávida) com o bem amado? esta força maior que nos dá pelos filhos!
ainda há amores de perdição?

e o Pirraças, que é feito desse carente remelento? contas feitas, pirraças também,
"tens o sorriso da tua mãe".

também fazes alguém perder-se por ele?

(ainda bem que escreves, agora na alva beleza deste Adeus. DaMeMais...)

DaLheGas disse...

Pois é Maf, tenho andado a Nitro que o gás não acompanha a velocidade estonteante dos meus dias. Naquela sexta, como em todas as ocasiões de aflição, uma estrela a iluminou-me o caminho :) Beijos

DaLheGas disse...

há-de haver a. ainda que ela não volte a escrever, ainda que você desconfie, ainda que o mundo se desfaça. talvez eu me refaça. há-de haver a. Beijos

Anónimo disse...

há-de haver, sim...ainda que o mundo se desfaça e nos embrulhe na torrente, há-de ver...algum bom pedaço de nós sobreviverá para o ver e sentir...há-de haver, sim...

beijos e abraços

Anónimo disse...

xiii DaLheGas, a confusão que aqui foste lançar... E, se sou eu que me amanho com as palavras, p'ra que tenhas de voltar atrás para seguir em frente, a ver se me entendes, olha que tu, embrulhas, embrulhas, e fazes esticar... :)
L.J.

DaLheGas disse...

é dar lastro

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