segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, 1 de Fevereiro

A Olga é muito alta e magra. Tem uns cabelos castanhos que lhe escorrem, direitos, pelos ombros, e uns olhos esverdeados escuros. É bonita; tem pose, tem pinta, tem presença, e a sua passagem pela sala deixa um rasto de qualquer coisa. Talvez vestígios, que são mais estimulantes do que provas. Conto dela, desta operária da Fábrica da Ilusão, o pouco que sei. Não só o que me foi relatado por ela, pela Dra. Clara, pelas colegas, mas também pela minha própria intuição. Neste diário íntimo, a que só o Fábio tem acesso, é relevante a verdade exacta dos factos? Redijo um escrito íntimo, não um relatório de auditoria.

Olga vem de Moscovo e é culta, com uma formação superior em Línguas. A sua bisavó foi criada dos czares Nicolau e Alexandra até à Revolução de Outubro e, pela sua juventude, beleza e elegância, uma espécie de protegida da czarina. Acompanhou-a no Palácio de Inverno, em S. Petersburgo, assim como em Tsarkoye Selo, para onde o Czar de todas as Rússias se mudou depois do equívoco trágico do domingo sangrento.

A rapariga ainda conviveu, num modesto andar na capital russa, com a bisavó, uma senhora idosa mas lúcida, que lhe relatou acontecimentos da época, desde a presença misteriosa e controversa de Grigori Yefimovich Rasputin junto dos czares, até às noites mágicas da poesia de Pushkin e caviar ao som plangente e introspectivo da música de Tchaikovsky.

Para efeitos de caracterização desta operária, importa ressaltar-lhe alguns pormenores que a distinguem, por exemplo, das brasileiras. Olga é culta, e muitos garantem que ela tem uma sombra, uma nota dissonante, uma estranheza no seu comportamento: Olga recita em russo durante o tempo que está com o cliente, não se furtando nunca às exigências de quem lhe paga. Há cavalheiros que suplicam por esta rapariga, porque algo naquele olhar claro e aparentemente luminoso, que reflecte a estepe, a neve, o misticismo, os encanta e os eleva a prazeres pouco suspeitados.

Olga entra no quarto entoando, na sua língua original, uns versos de Bulat Okudjava. Traduziu-os para mim – unicamente para mim - nesta vontade de manter reserva da sua intimidade:

Oh, meu Deus e meu Senhor,
Meu deusinho de olhos verdes!
Enquanto a Terra ainda gira
- do que a própria se admira -,
Enquanto a terra ainda tem
Algum tempo e algum fogo,
Deus, dá a todos um pouco…
E não te esqueças de mim

Para alguns clientes, estes versos que ninguém conhece, recitados num idioma que ninguém entende, substituem os preliminares mais entusiasmantes. Olga despe-se com vagar, revirando os olhos a cada linha, torcendo as mãos a cada pausa, fitando, por vezes, um olhar fundo no seu parceiro. Só os mais atentos percebem que o olhar não se detém neles, mas os atravessa, naquela orgulhosa indiferença russa de quem se sente continente próprio, porque à Europa e à Ásia só os liga um capricho geográfico.

De quando em quando recita Pasternak. As costas voltadas para quem a acompanha, leva uma mão à garganta e soluça uma quadra dramática, enquanto solta botões que abrem portas àquele corpo esbelto - ainda que enigmático.

Ah, se eu antes soubera desta sina,
Quando me preparava para a estreia,
Que há morte nestas linhas - assassinas!,
Como um golpe de sangue na traqueia

Terminado o tempo contratuado, Olga tapa uma nudez eslava e altiva, muito clara. Compõe os cabelos longos, apanhando-os num rabo de cavalo displicente, mas com uma elegância de que poucas se podem envaidecer. Sentada na cama, segurando um lençol por cima do peito, fixa um ponto no infinito, por cima do cliente, e repete sempre o mesmo diálogo que só a mim identificou. Para muitos, aquelas palavras incompreensíveis são um hino ao amor. Para quem sabe, não são mais do que as últimas linhas d' A morte de Ivan Ilitch.

- Acabou! - disse alguém por cima dele.
Ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. «Acabou a morte - disse para si. - Já não existe.»
Sorveu o ar, deteve-se a meio da respiração, esticou-se e morreu.

Por vezes chora, por vezes sorri melancolicamente. Os mais ignorantes acham que é emoção e timidez. Mas eu sei que não é, porque imagino o que lhe vai na alma. Olga recita os russos - os da terra dela - não para alarde de erudição, não para alimentação de um fetiche, mas para poder voltar no dia seguinte a esta Fábrica da Ilusão. Para poder sobreviver.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

1 comentário:

Anónimo disse...

Ah, Escritor, que te agigantas!

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