quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Largo da Boa – Hora

Passamos tempos de crise. As perdas e ruínas sucedem-se e avolumam-se, cresce a ansiedade.
Cada um teme pela sua sorte individual e espanta-se com a desdita que aflige tantos e tantos.
Pressente-se que o sistema está incontrolável, errático, em derrocada, levando na avalanche o que seja – nada já surpreende.
Há, pois, um dobrar de sinos por todos nós, que devemos ouvir, sentir e respeitar.
Nada do que sucede é novo para este meu Largo que já viu desastres colectivos de maior magnitude e consequências.
Ciclicamente, os modelos colapsam por esgotamento, exaustão, deixam de conseguir sustentar a realidade que geraram, por falência dos respectivos paradigmas. É o que vivemos.
Todavia, esta crise vai ser ultrapassada, e dela vai resultar um novo ciclo, pujante e avassalador, que vai ser pleno de sucessos e favorabilidades para os seus protagonistas.
O futuro, a médio prazo, é, assim, risonho, e não há que temer. O ser humano, quando acossado, como é o caso, tem a capacidade de encontrar o caminho que conduz a um tempo, o qual propiciará o retomar dos patamares de vida hoje comprometidos.
Infelizmente, a história da humanidade já é tão longa que não consente ilusões, não haverá uma refundação da humanidade no sentido de se criar, finalmente, um mundo definitivamente livre destes ciclos porque assente em paradigmas de valores intemporais, certos e conformes ao perpétuo bem comum. A sociedade perfeita, apesar de estar ao alcance da concepção e construção pelo Homem, nunca será erigida, porque ditames de perversidade acabam sempre por predominar e impor-se, maculando decisivamente.
Portanto, sou realista quanto ao presente, optimista quanto ao futuro, apesar de lúcido quanto à natureza do novo ciclo que vai emergir. Efectivamente, não espero senão mais um época de virtuosismo material, que não modificará definitivamente o rumo da história da humanidade.
Apesar disso, esse novo ciclo tem a probabilidade de não se esgotar nesse retomar de riqueza, podendo, para além desse reposicionamento, acontecer uma evolução positiva no sentido de a humanidade dar mais um passo no caminho da realização da sociedade universal de valores.
Tudo dependerá da forma como cada um sentir e viver este momento de crise que agora passamos, e é essa vivência que pode, efectivamente, condicionar o futuro que pretendo seja o objecto desta crónica.
Vejamos, pois, o que sinto.
Este ciclo em liquidação veio demonstrar que a riqueza material mudou de natureza, de essência.
Antes, havia um conjunto de bens, de direitos, de coisas que tinham um valor absoluto de riqueza, que eram intrinsecamente fortes, valiosos e duradouros, e cuja propriedade assegurava estatuto e dimensão de riqueza - imobiliário, matérias-primas, metais preciosos, certas moedas, acções e aplicações financeiras. Por outro lado, antes havia igualmente empresas de referência, cuja fortaleza, poder, inexpugnabilidade, eram pressupostos inquestionáveis.
Toda essa realidade se esfumou, e aprendemos que a riqueza é volátil, esteja ela assente em que valor estiver. No limite, a medida da fortuna pode variar numa noite de cem para zero, e tudo por efeito do funcionamento de mecanismos de valoração e depreciação que ninguém controla ou explica. Do mesmo modo, a sólida empresa de ontem esfuma-se num ápice.
O turbo – capitalismo, na sua derrocada, revolucionou, pois, postulados sacrossantos. A riqueza deixou de ser imune à autofagia, as empresas deixaram de ser fortalezas com empregos e estabilidade para a vida, e os sistemas de segurança social dificilmente cumprirão os respectivos compromissos, aguardando-se uma fiscalidade predadora e insaciável.
Estas constatações negativas (?), são paradoxalmente, todavia, oportunidades de libertação que podemos aproveitar para mudar as nossas vidas.
Basicamente, a minha ideia é que a cultura do ter perdeu objectivamente justificação, atenta a vulnerabilidade intrínseca dos valores detidos. Estamos, assim, libertos da forte tentação de erigir esse ter em meta de vida, favorecendo a possibilidade de abraçarmos, livres da recriminação por renunciar ao que poderia ser mais importante numa lógica de precaver o futuro – nosso e dos filhos - a cultura do ser e do viver.
Temos, assim, a possibilidade de, sem culpabilidades - por perdermos oportunidades de fortalecimento e acumulação do ter -, nos dedicarmos a uma vida mais focada e centrada na espiritualidade, no pensamento, no sentimento, no encantamento, no desfrute dos outros e da natureza, no aproveitar o que a vida a cada dia e tempo nos pode proporcionar se estivermos atentos, dispostos e aptos a vivê-la, nas suas formas e apresentações mais simples e genuínas.
Pode ter chegado o tempo de admirar e sentir a flor em vez de a colher para vender. Pode ter chegado o tempo de admirar o animal que passa sem a ganância de o abater. Pode ter chegado o tempo de conversarmos uns com os outros, partilhando mais a alma e o coração do que os feitos e conquistas; menos “Lusíadas” e mais “Cantigas de Amor”. Pode ter chegado o tempo de fazermos mais companhia uns aos outros, do que nos encontrarmos como autistas que debitam o que de sucesso fizeram. Pode ter chegado o tempo da intimidade e partilha, em vez da superficialidade em correria.
Por outro lado, esta desvalorização do ter é, igualmente, oportunidade de nos livrarmos do supérfluo que atafulha as nossas vidas, reapreciar o que temos e enquadrar esse acervo com as reais necessidades e utilidades. A hidra do consumismo, a ânsia do mais, melhor e mais moderno, o frenesim do “à la page”, podem terminar aqui e agora, pois a constatação da suficiência do que temos, aliada à indisponibilidade moral para seguir os caminhos antigos do ter, podem fazer renascer o tempo em que o tempo era medido pelo único relógio de pulso que tínhamos, e que amávamos com a força do poema: “objectos inanimados, tendes pois uma alma que se prende à nossa e nos força a amar-vos?”.
Estes tempos diferentes têm, ainda, a virtude de nos devolver ao sonho. Podemos voltar realmente a sonhar com realizações a conseguir no futuro pelo nosso esforço, empenho e perseverança. É que, na voragem em que vivíamos, o sonho estava morto, pois o que sucedia era uma catadupa de caprichos, desejos efémeros, impulsos, compulsões, tudo ao mesmo tempo, em desnorte , em urgência de ter e iminência de esquecer e desprezar.
Simplificando ideias, declaro a morte da fábula de La Fontaine: jaz a arruinada formiga pela inutilidade da sua vida, jaz a leviana cigarra pela futilidade do seu viver, nasce o ajuizado e sensível homem que do selvagem e ofuscante se liberta.

ATM

3 comentários:

Anónimo disse...

Concordo plenamente.
Está bom para o "destorce".!!!

Anónimo disse...

A História é sábia. Através do seus ciclos em espiral tem tentado ensinar aos Homens os verdadeiros valores da vida.
O Homem parece não querer perceber estes sinais.....
Temos que nos Alegrar da nossa vida, que já passou mais tempo do que julgamos.
Dar um sorriso para quem o recebe, é, como receber a esperança no futuro. Pois, o amor dá-se, não se vende nem se troca.
É tão bom receber uma lambidela do nosso cão.
Amor puro.....

Anónimo disse...

ATM, desculpe este comentário já tardio. Contudo, Ter e Ser, a velha discussão. Ter torna-nos comparáveis, mensuráveis, entidades de corpo e posse. A abordagem reflexiva de classificação, categorização e valorização, permite a comparabilidade e a identificação das diferenças e semelhanças entre a diversidade dos seres e contextos em que estes estão inseridos. Aqui somos uma entidade com uma natureza concreta, tangível, passível de ser relacionada com outras, somos um subsistema do sistema global que é a sociedade.
Se por outro lado, se quisermos ser apenas, então, passamos a ser um sistema de conhecimentos, construído pelos membros que o partilham. Somos uma realidade simbólica, socialmente construída, uma metáfora que está centrada nos processos e no sentido das interacções com uma comunidade comunicativa, com funções expressivas que estão na origem da construção do sentido e do mundo que é partilhado pelos seus membros. Apesar de tudo, estes pontos de vista, se bem que distintos na sua forma e conteúdo, não são contraditórios nem incompatíveis. Deixando de lado as questões epistemológicas e metodológicas, o olhar sobre o ter e o ser pode ser distinto e nunca é inocente, mas não tenho receio em afirmar que se por um lado temos , por outro, somos . Com efeito, se cada um de nós tem um percurso histórico que nos diferencia e identifica a um nível mais profundo, somos também ser, carregado de simbologias e de sentido que se manifestam através de um diversificado e intrincado conjunto de práticas relacionais. Por isso, diremos que todos temos e somos. Volte sempre

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