sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

photomaton

nasceu nos confins do bairro, com alma de poeta e chispa de estadista.
é um senhor, dominando por igual línguas eslavas e a semântica do fado castiço. um cidadão do mundo, ansiando pelas delícias do estrangeiro, quando no bairro; e suspirando pelo bairro, quando deixa a rua que lhe calhou em sorte.
gosta de estar sempre a partir, porque aprendeu que é o caminho mais curto para chegar. de resto, gosta de caminhos longos e sinuosos - beleza óbvia não é com ele.
teve um sonho antes do tempo: fundir o bairro, fazê-lo passar pelo forno, com o tempero de cravo-bem-temperado. "slow food & slow living", talvez..sujeitinho metafórico, podia ter sido amigo do antónio variações. leu os dadaístas, os surrealistas, os modernistas, os futuristas. depois esqueceu-se do que leu, e começou a ler as páginas amarelas dos jornais herdados. descobriu cedo que as notícias de ontem serão as de amanhã e pôs de lado os jornais. ficou-se pela poesia e pela música. nunca se arrependeu.
não gosta de política, nem de trabalho, que é uma forma suja de fazer política. é um "dandy" intemporal, alguém que se passeia em traje domingueiro pelas quarta-feiras da vida.
gosta de tudo e gosta de todos, até prova em contrário. daqueles que pensam por si, gosta ainda mais. certo dia, trocou as suas gatinhas por dois sem-abrigo que ainda sabiam multiplicar de cabeça e tinham remotamente ouvido falar de kafka. achou que era um acto de elegância divina - é um esteta.
quando olha à sua volta, perde o apetite. por isso é um tipo elegante, dir-se-ia um homem de bom corte. come pouco, é frugal, guarda-se para os amanhãs que cantam - e que, alguém lhe jurou em menino, hão-de-vir.
personagem barroco - logo ele que em tempos achava-se mais do género helénico, fazendo do bairro a sua acrópole -, certa vez, mudou-se por um dia para a zona do coliseu - sempre era uma aproximação ao esplendor de roma. depois chateou-se e acendou o segundo cigarro (nunca fumou o primeiro). olhou o céu em fogo e incendiou-se por dentro. foi assim que, desde esse dia, não mais saiu do bairro. lembra-se bem do sabor a sonhos queimados. deixou de fumar nesse mesmo dia.
é um adepto radical de tudo o que é anacrónico, porque sabe que no passado não se encontram coisas, mas que só o mesmo lhe dá a pista decisiva para rumar para o outro lado.
gosta de poesia aplicada e de música abstracta. acha que os adjectivos estão bem assim, por isso considera-se um rapazola conservador - num tempo de mudança ousa a constância.

não existe, mas se existisse seria uma boa razão para se existir também. sujeitinho lúcido e de bom-gosto, irritante e irradiante,
visto de relance através de uma janela de fevereiro.

gi

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