quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Largo da Boa-Hora

Este meu Largo também tem horas de trânsito de veículos, precisamente os movimentos daquelas furgonetas de cor amarelada, todas fechadas, opacas, com as suas estridentes sirenes e que transportam os que saem do tribunal condenados à perda da liberdade.
Esses condenados fazem a viagem a caminho do degredo. Durante tempos por vezes bem longos estarão isolados do seu mundo, do seu habitat, dos seus amores e afectos, das suas companhias, das suas vivências, profissões e de todo o mais que forma a livre existência do ser humano.
Vão suportar uma vida definida pelo estigma de ser castigo e formatada na ambição da sociedade de ser meio de recuperação e regeneração.
Vão ser desnudados e despojados de tudo quanto não seja essencial à sobrevivência, identidade de reclusos.
Vão ficar sós, permanentemente confrontados consigo próprios, numa intimidade e introspecção inevitáveis - porque a isso condenados - em solidão imposta pelas grades e pelo abandono dos que ficaram do lado de fora e antes os preenchiam.
A cada passagem de um carro celular pelo meu banco sei que ali vai um desgraçado a quem as voltas da vida o levaram a destruir tempo da sua vida.
A sociedade, pelo braço do direito penal, é dura, cobra pelos crimes o bem mais precioso do delinquente, precisamente a existência. Cada sentença de condenação é uma acha na fogueira que queimará uma parte do viver do condenado. Encurtar a vida na proporção do mal cometido é a regra.
Entre o fechar do ferrolho no encarcerar, e o seu abrir no libertar, não sucederá mais do que irreparável desperdício de vida.
Esta introdução não é para tratar, e muito menos valorar, o tema da prisão penal ou do prisioneiro igualmente penal. Esses temas poderão um dia ser reflectidos, não hoje.
Se iniciei este escrito por essa temática, é porque pretendo abordar, com auxílio dessa imagem, repito extrema, uma outra realidade que sucede e que aqui partilho pelas suas inesperadas semelhanças.
Deste meu banco, como já disse, vejo também a Rua Nova do Almada, e a verdade é que por essa desfilam viaturas de outro tipo, cor, marca e modelo, mas que nem por isso deixam de ser, afinal, carros celulares.
Efectivamente, passam constantemente automóveis de luxo, de marcas nobres, dispendiosas, que, nalguns casos, tal como os outros carros celulares, têm por passageiros prisioneiros.
Esses são os condenados pela ambição do sucesso a todo o custo, da notoriedade convenientemente publicitada, da riqueza acumulada para ser ostentada, da concorrência, da melhor performance.
São aqueles cujos carros celulares os transportam de cela em cela, num trânsito carcerário bem demarcado e conhecido, cujo epicentro é a empresa onde dirigem, e as delegações os restaurantes e clubes onde agenciam, negoceiam e se exibem, a casa onde pernoitam e os poisos e equipamentos onde fingem lazer.
O seu delito foi erigirem o sucesso profissional, a notoriedade, a riqueza como objectivo primordial das suas vidas. Construíram-se e aperfeiçoaram-se como máquinas para essa realização, e desconstruíram tudo o que neles pudesse ser empecilho, óbice, dificuldade à plenitude desse fim.
Livraram-se de tudo o que não contribuísse, essencial e eficazmente, para o fim da “glória”; reduziram todo o seu espectro luminoso a um foco incidente sobre o “relatório e contas”, cuja excelência de resultados e retorno ao accionista decreta e proclama o êxito atingido, a meta conseguida.
A pena por tal delito é as suas vidas terem-se convertido numa escravatura ao serviço do soberano “objectivos “, vigiadas pelos carcereiros “orçamento e plano de actividades”
Não pensam, não sentem, não vivem mais do que o serviço ao soberano escolhido, com temor e subserviência aos carcereiros que os guardam.
Recebem as muitas moedas combinadas, a menção e reconhecimento da nomenclatura, o aplauso dos pares, a reverência daqueles a quem venceram e a admiração daqueles que conduzem.
Mas nem por isso deixam de ser prisioneiros, a cumprir em cada dia a respectiva pena.
São quotidianos alucinados, de imensa dureza, de enorme trabalho, de plena dedicação, de profundos estudos e análises, de muitas e difíceis decisões, de opções de risco, de apostas, de intuições, de reportes e outras sindicâncias, de comparações e medições, de empenhos e compromissos. São dias seguidos de dias, e mais dias, de altíssima pressão, sempre em carga, sempre em produção, sempre em acção, sempre contra o tempo.
O encargo do sucesso é a grilheta que os amarra e paralisa, impedindo-os sequer de ter a veleidade de viverem as outras dimensões da essência humana.
Trazem sempre uma calculadora para acertar uma conta, mas nunca um lenço para enxugar uma lágrima de quem precise, porque próprias já não têm.
Tal como os desvalidos condenados pelo tribunal, perderam a liberdade de viverem, de verem, de sentirem o tanto que a humanidade e o mundo têm para revelar e desfrutar. Perdem as vivências e experiências alternativas, complementares, acessórias que a vida tem para propiciar e que podem ser somadas e convividas, desde que haja oportunidade, disponibilidade, atitude, para tanto, ou seja, desde que haja liberdade.
Em cada materialidade conseguida esvai-se uma oportunidade de espiritualidade, porque ninguém tem o dom da ubiquidade. Não é possível estar centrado “no caixa” e “na alma” ao mesmo tempo, e se somos só caixeiros nunca podemos ser poetas.
E toda essa perda de vivência e espiritualidade, todo esse alheamento do que não é focado ao objectivo master do sucesso, endurece, desumaniza, torna empedernido.
Em suma, tal como com os sentenciados penais, encurtar a vida na proporção da gravidade e culpa do êxito alcançado é a regra.
Também para estes, entre o fechar do ferrolho no encarcerar e o seu abrir no libertar - se este chegar a acontecer - não sucederá mais do que irreparável desperdício de vida.
Por tudo isto vou passar a desejar sorte, quer quando passarem as furgonetas com os presos penais, quer os carros com os presos sociais, e, sobretudo, pedir que nenhum deles tome consciência da brevidade do seu tempo, do seu efémero, quer de obra quer de vida.
Para ambos a minha compaixão.

ATM

3 comentários:

Anónimo disse...

ATM, este texto nem parece seu. Tão determinista, tão redutor. Lembrei-me do JB quando no domingo diz "Tudo seria mais simples se tivéssemos o tal segundo olhar, acompanhado de uma ou duas perguntas simples: o que motivará tal proceder? Será que o meu juízo não é precipitado?"
O que está por detrás desta forma de viver? Não seremos todos nós que promovemos este caminho?
Volte sempre.

Anónimo disse...

ATM, este seu texto, leva-me a pensar nas palavras proferidas por Louise de Vilmorin, "Há pessoas
tão inconformadas que detestam o que têm, choram o que tiveram, receiam o que terão e esquecem-se de viver.
Os "presos" somos todos nós pois a indeferença e a ganância, faz parte dos nossos dias.
Predicados estes, que levam os "presos" em carros celulares, os outros em carros bons.
Ao ponto de entrarmos num autocarro e nem dizermos BOM DIA, ao condutor que nos guia e que nos serve e as pessoas que lá vão dentro têm as caras tão cerradas que parece que vão para a forca.
Assim se vive....

AJ disse...

É dificil passar ao lado do esplendor desta escrita do ATM, cujo maior mérito, mérito eminentemente filosofico-pedagógico e em jeito de amadurecimento daria para concluir :«He came to the river.The river was there.» Nada mais nos é indicado mas o essencial ficou dito. O resto, que não é pouco, ficará cargo da escolha cada um.

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