06 março 2009

diana of love


[frame de 'the man from london', um filme de béla tarr ]

estávamos em londres naquele dia de setembro
em que foi a enterrar a princesa do povo. não havia
barulho nos passeios, não havia casa aberta
onde pudéssemos comprar qualquer coisa
para merendar na relva de st james ou kensington
gardens: os próprios parques tinham mergulhado
num lutuoso torpor. sentados à sombra, nós os dois

estávamos exactamente a meio da nossa história.
para trás, a lenta cadeia de acasos que culminou
no encontro a desoras sob os astros duma gruta;
pela frente, todos os maus passos que, somados,
haveriam de ditar o nosso fim. mas nessa tarde
de sol e silêncio, enquanto a inglaterra chorava
aquela que na morte teve o nome do amor,

estávamos juntos ainda – e sei que fomos felizes
na cidade mais triste do mundo. era sábado,
uma mulher que passava vendeu-me um ramo
de rosmaninho (for remembrance, dear): largos meses
murchou numa gaveta. e quando dele me desfiz
já não era um memento por diana, mas o último
vestígio de um amor tão morto quanto ela.

rui pires cabral

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