quarta-feira, 19 de maio de 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Para ter um vislumbre da magnífica Exposição do Mundo Português (1940) e da agitação cosmopolita de Lisboa, durante a II Guerra Mundial, vale a pena ver o filme «FANTASIA LUSITANA». O documentário, apenas com imagens de arquivo, tem a assinatura de João Canijo, formado em história e iniciado no cinema com realizadores como Wim Wenders ou Manoel de Oliveira.

O insólito título do filme dá voz ao propósito, marcadamente político, de denúncia e até desmontagem da propaganda do Estado Novo, apregoando uma estabilidade e exibindo uma euforia não reconhecidas por alguns dos estrangeiros que deambularam pela Lisboa dos anos 40. Pelo menos, três dos que tiveram um discurso diferente do do regime, são aqui ouvidos em voz off, transmitindo experiências pessoais interessantíssimas (creio), mas assumidamente subjectivas: Antoine de Saint-Exupéry, a filha mais velha de Thomas Mann – a actriz Erika Mann e o autor de um dos romances mais transpostos para o cinema por realizadores alemães («Berlin Alexanderplatz») – Alfred Döblin.

As discrepâncias entre os seus testemunhos –aqui quase elevados a árbitros da história– e a narrativa de Salazar é, de facto, notória mas não tem a interpretação directa e simples de um discurso de oposição ao regime. Nem mesmo indirectamente. O traço mais evidente nos seus diários é o notável distanciamento de quem se sente, por um lado triste e nada inspirado para relançar raízes longe da terra que chora e, por outro, oriundo de uma cultura diversa, que parece considerar superior (pressente-se)... A distância entre eles e o que observam é a maior, porque é a da linha do
coração, que talvez não tenha chegado a aterrar em Lisboa... sobretudo nos casos de Erika e de Exupéry. O que é perfeitamente compreensível, com vidas dilaceradas pela guerra. Foi o próprio Exupéry a escrever: «O essencial é invisível aos olhos, porque é para ser visto com o coração

O interesse das suas experiências creio advir bem menos de qualquer pretensa autoridade moral a decifrarem os factos (até porque os erros nas previsões não sugerem grande discernimento para a análise histórica), do que da riqueza da sua expressão artística, que a uma mesma realidade associam encantos ou desencantos muito seus, a revelar-nos a história de almas intensas e inquietas.

Também o
cenário não podia ser mais bonito, sob a luz quente e única de Lisboa, o rebuliço colorido, mas dorido, dos muitos estrangeiros que se cruzam nas margens do Tejo, uns sorrindo e gozando a paz e o sol, outros demasiado destroçados e perdidos para desfrutar um oásis sem bombas, outros apressando-se a atravessar o Atlântico, rumo a Nova Iorque… Tudo compreensível, tudo a história irrepetível e fantástica de cada um!


Nau de Portugal exibida na Exposição do Mundo Português, 1940.
Fotografia de: Mário Novais

Pessoalmente, diria que o exercício político, visado na Fantasia Lusitana, poderá redundar numa leitura reducionista do documentário, até pelas disparidades de opinião entre os três, além de falhas de prognóstico manifestas. O caso mais evidente é a premonição, muito repetida por Exupéry e E.Mann, de que a invasão de Portugal estaria para breve! E é, basicamente, tomados por esse temor, dado como um facto adquirido, que concebem cenários de Blitzgrieg iminente, prevendo a derrocada a que se assistiu no resto da Europa continental! Exupéry usa uma imagem espantosa, brincando com o extraordinário desfile dos figurinos da história pátria e os monumentos da grande Exposição do Mundo Português, que elogia abertamente: o exército de pedra, de Salazar, para afugentar os inimigos. Naturalmente que Erika, antecipando os bombardeamentos da Luftwaffe, apenas se declara segura na única capital europeia que resistiu aos avanços nazis: Londres. Pudera! Acresce a essa ameaça assustadora, que os embala numa agitação poética lindíssima mas febril, o sofrimento indescritível após a fuga do seu país (Erika casara-se com um inglês para facilitar a instalação naquele país; Antoine estava isolado na luta anti-nazi por se ter demarcado de De Gaulle, que os Aliados apoiavam) e o luto recente por familiares e amigos. No fundo, o afã de contradizer Salazar restringiu a escolha a testemunhos críticos e forçou a colagem política ao legítimo desabafo q.b. dorido dos três, por motivos que se prendem mais com a sua situação de vida do que com Portugal. Nunca se faz jus aos poetas quando se instrumentalizam as suas dores!

Entendamo-nos que nesta redescoberta dos discursos do Estado Novo encontramos múltiplas declarações desfasadas, slogans ridículos como o do «Dia S» em vez do Dia D e tantas outras palavras-de-ordem horrivelmente simplistas. Claro que não ficaram imunes às gaffes, ao triunfalismo, ao tom festivaleiro da gramática da propaganda política, básica e imediatista. É mais do mesmo. Mas as
fantasias e os abusos de Salazar falam por si, dispensando o contraponto de estrangeiros tão pouco sintonizados com o país acolhedor, o que está longe de ter sido a voz corrente da multidão de viajantes que se apaixonou por Lisboa, nessa mesma altura. E muitos vindos de capitais magníficas. Como não lembrar o Gulbenkian (aterrou na Portela, em 1942) ou várias famílias reais em que alguns aqui ficaram até ao final dos seus dias ou escritores e jornalistas como a suíça Anne Schwarzenbach, amiga da família Mann: «Como me senti feliz, ao percorrer, pela primeira vez, as ruelas estreitas e íngremes (da capital). (…) A branca cidade de Lisboa, banhada em luz crepuscular, deveras resplandecente com as suas igrejas, telhados, monumentos, mercados, molhes e velhos palácios

São imperdíveis os travellings pela Exposição do Mundo Português:

Porta da Fundação, da autoria de Cottinelli Telmo. Exposição do Mundo Português, 1940.


Espelho de Água e Padrão dos Descobrimentos da Exposição do Mundo Português, 1940.
Fotografia de: Mário Novais

Se quiserem descobrir a Lisboa mansa e suave que reconhecemos (aposto!) em todas as épocas da história, se quiserem ouvir artistas que olham o dia-a-dia através da sua dor mas com aquela beleza em que as lágrimas também merecem ser cantadas, Fantasia Lusitana vale bem a pena.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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FICHA TÉCNICA:
Título: FANTASIA LUSITANA
Realização : João Canijo Produção: Periferia Filmes
País: Portugal Distribuidor: Midas
Género: documentário
Ano – 2010 Duração – 64 min.

3 comentários:

Anónimo disse...

Fantástico comentário ao Fantasia Lusitana! Aposto que o viste na Cinemateca! Confesso que é o tipo de filme que não me inspira um minuto. Mas visto por ti, com os teus olhos lúcidos, interpelativos e tentativamente objectivos, até que merecia uma deslocação a essa distinta sala de cinema. As fotografias que anexaste são belíssimas, duma nitidez e pureza extraordinárias. Pensando bem, deve ter sido uma época fascinante para se viver em Lisboa. Dorida, mas muito interessante. Tantos estrangeiros, tantos olhares novos, devem ter sido um verdadeiro bálsamo na mansidão e placidez lisboetas. Como sabes, adoro fado. Mas não tenho grande paciência para as "lágrimas que também merecem ser cantadas". Obrigada, MZ. pcp

Anónimo disse...

Percebo muito bem o teu comentário, pcp, com observações óptimas. Por acaso, este filme tem estdo em cartaz no Campo Pequeno. E, apesar do tom crítico a forçar as interferências políticas, dá uma mostra interessante da Lisboa animadíssima daqueles anos. Percebe-se por que terá sido uma paixão para tantos de uma certa elite cultural europeia que aqui encontraram abrigo. Bom e as imagens da Exposição são giríssimas, como lembra quem a viu ao vivo (o q. não acontece connosco). Bjs, MZ

Anónimo disse...

O que mais aprecio no seu blog é a sua capacidade para me motivar a ver coisas que de outra forma perderia por inércia.

O que eu começo a não lhe perdoar é que não me convoque a ir vê-las consigo. Fica o aviso.

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bjs gds
jaime

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