segunda-feira, 28 de junho de 2010

Histórias para o dia de hoje...

Muito começou em Smir, no Club Med, no ano de 2000. A vida era fagueira e as preocupações relativamente poucas. Os anos que se seguiram foram intensos, e eu devo muito à família da RJ, a quem dedico este post. Quando dei por mim escrevíamos um livro a meias. Um dia, em 2006 talvez, ofereci-lhe um pequenino conto de que publico parte. Era uma altura em que a alma mística que punha nos textos era superior à qualidade com que o fazia. Eu sei porque o publico, e a RJ sabe porque o lê. Há muitas formas de dizer obrigado.

JdB

(...)

- Aonde ides, Senhora?

Deus Nosso Senhor perguntava com ar ligeiro, um leve rodopiar de corpo, um breve trinado na voz, um discreto menear de braços.

- Hoje é dia de Escola dos Anjos, Senhor. Vamos na letra R e prometi que falaria sobre Santa Rita de Cássia.

- Pois muito bem. Cá vos espero. Sinto que hoje acontecerá alguma coisa. SERÁ PORQUE É VÉSPERA DE DIA DE S. PEDRO?

O Pai voltou as costas, um riso reprimido a custo, a bondade toda reflectida naquela graçola.

Maria dirigiu-se para a sala de aula onde a esperava uma infinidade de anjos. À medida que se aproximava sentia o ruído a crescer, um ruído todo feito de alegria e satisfação, inundado de amor e bem-estar.

- Boooooom diiiiiiiiiiaaaaaaa, Mãe!

Maria começou a contar, para ver se faltaria alguém: 1, 2, 3, ,... 280660..., 12325908..., 917290366,... ∞.

- Estão cá todos – disse com um ar satisfeito.

- Mãe, Mãe, que dia é hoje?

- Porque queres saber, meu anjo?

Madalena não respondeu, mostrando um sorriso tão doce que enterneceria qualquer um, encolhendo os ombros como que a dizer que não tinha uma resposta muito certa – ou se calhar não a queria partilhar. Ainda...

- O Nosso Pai diz que é véspera do dia de S. Pedro, mas eu acho que há mais... Vamos falar de Santa Rita de Cássia, e vou ler-vos a história dela.

Como sabeis, meus anjinhos, ‘Santa Rita nasceu em 1381, em Itália. Foi baptizada com o nome Margherita, o que originou a abreviatura de Rita pela qual é conhecida em todo mundo católico. Abalada pela morte do marido e dos filhos, quis recolher-se ao convento das agostinianas de Cássia, mas não foi aceite. Rezou, então, fervorosamente aos santos de sua devoção: São João Baptista, Santo Agostinho e São Nicolau de Tolentino. Contam os biógrafos que estes santos arrombaram as portas do convento e a fizeram entrar. Por 14 anos, até à sua morte, trouxe na testa um estigma, associando-se assim à paixão de Cristo. Morreu no mosteiro de Cássia em 1457 e foi canonizada em 1900. São-lhe atribuídos tantos e tão extraordinários milagres que é tida por advogada das causas perdidas e a santa do impossível’.

Como sempre, os anjos não perdiam uma palavra do que Maria contava, absorvidas pela sua entoação, pelo texto mágico, pela mensagem.

- Mãe, Mãe, que dia é hoje?

Nossa Senhora preparava-se para responder quando um choro de criança pequena a interrompeu. Numa fracção de segundo todos os anjos estavam debruçados do Alto, deleitados com aquela rapariga que acabara de nascer. Como se chamaria, teria um bom coração, seria amiga dos outros, estaria sempre pronta para ajudar, iria conseguir adivinhar quando os outros precisassem dela, será que alguém lhe escreveria coisas com alma – versos ou contos? Tantas perguntas, tantas dúvidas – será que alguém tinha certezas?

A um canto, Madalena sorria, já não de doçura, mas de alegria quase incontida. Agora sim, a pergunta dela tinha resposta e o seu mundo na terra estaria mais protegido, teria outra felicidade. Viu aquilo que mais ninguém via, com uns olhos – como alguém diria num ano difícil – ‘profundos como a noite mas brilhantes como estrelas’. Sentiu, na suavidade da sua infantilidade, mas no predestinação do seu percurso, que no Céu não havia Ontem nem Amanhã, Nunca ou Sempre. No Céu o tempo fluía com uma leveza tal que a Eternidade estava ali à mão de cada um, o Infinito era já agora, Passado e Futuro coincidiam no tempo presente. Madalena olhou para a Frente, a vista absorta na Distância, o coração inundado de uma Confiança só acessível a quem tem um íntimo puro, uma alma sossegada, um caminho de Fé.

Viu a sua vida e a daqueles que lhe povoavam os sentimentos, que lhe tinham dado o amor de que ela se lembrava, lhe tinham segurado a mão quando ela partia. Viu, lado a lado, o Sofrimento e a Alegria, a Solidão e a Companhia, a Pergunta e a Resposta. Viu pessoas que surgiam, outras que desapareciam, outras ainda que permaneciam. Viu pessoas muito especiais, daquelas que estavam sempre presentes – mais em espírito do que em corpo -, e que diziam palavras bonitas mesmo que nem todos as ouvissem. Viu ainda duas pessoas, por quem ela nutria um afecto especial, que conversavam muito sem nunca se verem.

Ao pé de si, os outros anjos continuavam as perguntas: quem é, como se chama, que profissão vai ter, com quem vai casar, quantos filhos vai ter. Ao seu lado, numa presença que nunca faltava mesmo que nem sempre se sentisse, Maria e o Pai Eterno davam as mãos a Madalena. Todos sabiam já que dia era aquele, porque se tinha falado de Santo Irineu, de Santa Rita de Cássia, de 1960. Era dia 28 de Junho, dia de todas as alegrias, momento de todas as esperanças. Madalena levantou-se, debruçou-se do Alto e, perante a surpresa de todos, sorriu-se com o bebé como se se conhecessem de toda a vida. Acenou, atirou-lhe um beijo e uma rosa (será que alguém saberia porquê?) e disse com um ar de profundo agradecimento: Olá Quatro Letras!

Tudo estava bem.

4 comentários:

Anónimo disse...

A-D-O-R-O estes seus textos. São únicos, invulgares, especialíssimos. Os outros são giros, divertidos, bem escritos. Estes são para agradecer .... porque elevam. Bjs. pcp

Ana LA disse...

Um beijo aos dois.

Anónimo disse...

Querido João,
Estou mesmo comovida, enternecida com este conto inspirado e consolador. São estas palavras que nos dão alento e nos ajudam a dar outro sentido à vida. Obrigada por relembrar tempos tão duros como reveladores.
Conto com a sua inspiração para continuar a dar cor aos anos que vão passando...
Beijinhos redobrados,
RJ

Anónimo disse...

Gostei muito, embora nem tudo me seja perceptivel.
Um abraço,
fq

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