terça-feira, 1 de junho de 2010

Barbeiro

Nunca fui daquelas crianças birrentas no barbeiro. Chegava, sentava-me na cadeira, o barbeiro pegava na tesoura e fazia o que tinha a fazer. Corte aqui, corte ali, e pronto. Não tugia nem mugia. Nem eu, nem o barbeiro.

Comecei por ir acompanhado e, eventualmente, no meu processo de emancipação passei a ir sozinho. Mas, de resto, nada mudou. Continuava a entrar mudo e a sair calado. O barbeiro nunca mudou, e o corte de cabelo também não.

No outro dia fui ao barbeiro outra vez. O corte de cabelo era urgente, o capacete que tinha na cabeça já começava a assustar. Entrei, e depois do bom-dia da praxe perguntei pelo barbeiro habitual. Estava de férias e só voltaria duas semanas depois. Eu é que não podia voltar duas semanas depois, pelo que tive de me sentar numa cadeira onde nunca me sentara e ter o cabelo cortado por um senhor que nunca mo cortara.

Depois de me sentar na cadeira o senhor pergunta-me:

E então como é que quer o cabelo?

Arregalei os olhos e fiz um ar profundamente confuso; parecia que me tinham perguntado o sentido da vida. Para qualquer outra pessoa pode ser uma pergunta completamente banal, mas a mim nunca ma tinham feito. E não tinha resposta.

Pensei em responder 'cortado', mas não me parecia que fosse uma resposta adequada para o momento. O senhor não deve ter grande sentido de humor e poderia querer vingar-se deste meu atrevimento. E ninguém quer ser o objecto de vingança de um senhor que manuseia uma tesoura com uma precisão cirúrgica.

Depois de alguns segundos de meditação respondi a seguinte pérola de sabedoria:

Olhe corte-me em cima, dos lados mais ou menos, e depois atrás...

O barbeiro não esboçou reacção, e começou com o zaca-zaca da tesoura. Fechei os olhos em pânico, e só voltei a abrir quinze minutos depois.

O cabelo estava aceitável (tanto quanto o meu mau gosto permite perceber), o que pode ser considerado um milagre. Com a resposta que dei é de admirar que não tenha ficado com um cabelo igual a um futebolista de terceira categoria.

SdB (III)

4 comentários:

Anónimo disse...

Que espectáculo de descrição! Nunca pensei que achasse tanta graça a ler uma história sobre uma ida ao barbeiro. E, confesso, fiquei hesitante em se seria novamente o JdB a escrever ou o SdB(III)! Mesmo giro! Obrigada. pcp

Ana CC disse...

Esta pode ser uma aventura verdadeiramente perigosa e radical. Já vi resultados piores e em capacetes com muitos anos de rodagem na mesma cadeira, na mesma tesoura.Adorei o texto, agora imagine o impacto da dissonância se um futebolista de 3ª categoria soubesse escrever assim. Volte sempre.

Anónimo disse...

Gosto da sua prosa fina e suave!
Abraço,
fq

Segismundo disse...

Esta ida ao barbeiro foi realmente uma aventura, e pelo que tem sido o estudo e trabalhos nos últimos dias, foi um ponto alto dos últimos tempos.

Obrigado pelos comentários,

SdB(III)

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