terça-feira, 21 de agosto de 2012

Moleskine

Regressei de três dias soberbamente passados no Castelo do Bode, em casa do MMP. Já tinha estado algumas vezes na barragem, mas não com este vagar. O sítio é fantástico de largueza de vistas, silêncio, mar chão, vegetação envolvente. É, de facto, um lugar quase paradisíaco.


Embora houvesse alguma juventude envolvida neste grupo excursionista, uma das tardes ficou reservada para os cotas. Subimos até Dornes, numa viagem de quase uma hora a uma velocidade que permite a conversa e o conforto. Já me tinham falado neste percurso e, na realidade, vale a pena, porque se apanha a barragem na sua quase totalidade, com as inúmeras enseadas, os pinheiros a caírem quase no mar, os penhascos, as casas escondidas no arvoredo, o silêncio vencido pelo som esparso dos barcos, uma água mansa e transparente cuja profundidade chega a ultrapassar os 90 metros!

No regresso, o comandante da embarcação reduziu a velocidade e, durante um bom bocado de tempo, cinco adultos cantaram e agitaram-se ao som de Simon e Garfunkel, no memorável concerto que deram no Central Park, a 19 de Setembro de 1981. (Estive com os meus amigos fq e JdC em NY nesse mesmo ano, um mês antes, talvez. Soubéssemos nós do concerto - a internet estava então ao nível do Nautilus, de Julio Verne - e talvez tivéssemos assistido.) Aquele troço foi verdadeiramente avassalador. Nada da quietude ambiente foi perturbada mas, pelo contrário, desfrutou-se de tudo - e a música assumiu foros de catarse. The Sound of Silence parece-me uma escolha adequada...



De noite a animação turística foi bem diferente. Barreiras, uma localidade do concelho de Tomar, vivia as suas festas anuais em honra de Santa Luzia. Há quem tenha fetiches com sado-masoquismo, gente vestida de cabedal, lingerie sensual ou kilts colegiais. Eu é mais rifas... Onde há rifas eu estou, a esbanjar as minhas parcas economias na demanda de um alguidar cor de rosa, de uma bandolete para o cabelo, de uma inutilidade em plástico ou de um terço a cheirar a rosas enjoativas. Gastei 5 euros 5, e tudo me saiu branco...

Pela meia-noite o palco principal da localidade encheu-se de uma gente entusiasmada para ouvir a actuação dos HF5 (parece-me). Num instante havia gente a dançar. Rapazes com raparigas, homens com mulheres, avós com netas, mulheres com mulheres. Estava ali o esplendor da genuína festa popular, onde uma dança ritmada executada por dois elementos do sexo feminino não dá azo a coscuvilhices sobre a orientação sexual das ditas. Vi gente jovem, gente bonita, gente muito feia. Questiono-me sempre, quando me deparo de forma pouco cristã com pessoas esteticamente mais preguiçosas, o que é o dia a dia delas: do que gostam, o que as comove, de que riem, o que vêem na televisão, como fazem amor, como manifestam a ternura...


A banda começou com um tema de rock pesado que não conhecia. À frente do palco um enorme e surpreendente espaço vazio. Seguiu-se um tema do Saturday Night Fever. A ocupação não se alterou até que o vocalista se atirou àquilo que eu chamaria rock pimba. Aí foi um furor de dança (eu incluído, para compensar a frustração da rifa...) que não mais parou até nos virmos embora. Parece que o espectáculo terminou pelas 6 da manhã.

Deixo-vos com um momento alto da noite, aqui imortalizado por Quim Barreiros. Quem não gosta do brioche da Sofia? 



JdB

PS: e vai daqui um abraço de agradecimento ao MMP pela simpatia e amabilidade com que nos recebeu e acrescentou alguns centímetros à minha cintura que já foi industrial. 

1 comentário:

Ana CC disse...

Sessenhor, férias à maneira.
A graça, a arte e leveza com que passa do silêncio da barragem para a excitação do brioche da sofia, continua a comover-me.

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