sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Da refeição como espaço

Ernest Shackleton partiu de Plymouth para o Polo Sul a 8 de Agosto de 1914. A viagem a que ele se propunha foi um rotundo fracasso - não chegou ao destino. No entanto, toda a viagem do explorador inglês é um acto de enorme heroísmo: nas piores condições atmosféricas possíveis, sem comunicações, sem barco, com pouca comida, com uma equipa debilitada, com um frio antártico e sem cães que foram sendo abatidos por questões de necessidade, conseguiu empreender o resgate de todos. Não ficou ninguém para trás.   

No seu livro South, Shackleton descreve com pormenor técnico toda a viagem - temperaturas, coordenadas, tipo de gelo, fauna existente, meteorologia, invenções a bordo. E descreve - e é aqui que quero ater-me - as refeições. Fá-lo de uma forma detalhada: os horários, a composição, as conversas à volta do tema ou de um fogão alimentado a gordura de foca. Não fala de informação nutricional, mas de hábitos; não fala de escorbuto, mas de espaços de convívio; não fala de sobrevivência de organismos, mas da vida de uma equipa em perigo de vida; não fala de necessidades imediatas, mas de momentos tribais. A refeição é um espaço de coesão quando tudo ao redor parece desagregar-se. 

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Em A Festa de Babette, de Karen Blixen, Babette é uma cozinheira que, vítima de um infortúnio qualquer, aporta a Berlevaag, uma cidadezinha no sopé das montanhas de um fiorde norueguês. Aquela comunidade - um seita religiosa conhecida e respeitada por toda a Noruega - havia sido fundada por um deão, um profeta. E cito: os seus membros renunciavam aos prazeres deste mundo, pois a Terra, e tudo o que sobre ela existe, era quase uma ilusão e a realidade verdadeira era a Nova Jerusalém por que ansiavam. Na comunidade há duas velhas que não se falam há 40 anos, pois entre uma e outra houve destruição de herança e de noivado; dois irmãos não se falam há 45 anos; dois outros velhos suportam nos ombros o peso da culpa de um amor antigo, falso e leviano. São caras macilentas, sombrias, escuras de alma e de roupa, onde se percebe que o prazer mais não é do que pecado. 

Babette é francesa e vive na casa das filhas puritanas do deão. Ao fim de doze anos recebe uma carta de França onde é informada que recebera dez mil francos por ter acertado na lotaria. E cito de novo: qual não foi o seu espanto [das filhas do deão] quando Babette, numa noite de Setembro, veio à sala, mais humilde, ou mais contida, do que nunca, para lhes pedir que a deixassem fazer um jantar em honra do centenário do Deão.  Neste banquete, onde estão todos os velhos desavindos, Babette serve um amontillado que acompanha um sopa de tartaruga; prossegue com blinis Demidoff regados com um Veuve Cliquot que ainda persiste nas cailles en sarcophage; depois vêm as uvas, os pêssegos e os figos frescos. No fim do banquete há palavras brandas, sorrisos genuínos, olhares pacificadores. 

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Num livro há biscoitos e chá que pouco mais é do que água; há fome. Noutro livro há codornizes e vinhos raros; há abundância. E no entanto, entre South de Ernest Shackleton e A Festa de Babette, de Karen Blixen, não há diferença nenhuma. Ambos são a face de uma mesma moeda - a refeição como espaço tribal.

JdB

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