segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Poeta (sugerido) para o dia de hoje

Ainda Não

Ainda não 
não há dinheiro para partir de vez 
não há espaço de mais para ficar 
ainda não se pode abrir uma veia 
e morrer antes de alguém chegar 

ainda não há uma flor na boca 
para os poetas que estão aqui de passagem 
e outra escarlate na alma 
para os postos à margem 

ainda não há nada no pulmão direito 
ainda não se respira como devia ser 
ainda não é por isso que choramos às vezes 
e que outras somos heróis a valer 

ainda não é a pátria que é uma maçada 
nem estar deste lado que custa a cabeça 
ainda não há uma escada e outra escada depois 
para descer à frente de quem quer que desça 

ainda não há camas só para pesadelos 
ainda não se ama só no chão 
ainda não há uma granada 
ainda não há um coração 

António José Forte, in 'Uma Faca nos Dentes'

***

Retrato do Artista em Cão Jovem

Com o focinho entre dois olhos muito grandes 
por trás de lágrimas maiores 
este é de todos o teu melhor retrato 
o de cão jovem a que só falta falar 
o de cão através da cidade 
com uma dor adolescente 
de esquina para esquina cada vez maior 
latindo docemente a cada lua 
voltando o focinho a cada esperança 
ainda sem dentes para as piores surpresas 
mas avançando a passo firme 
ao encontro dos alimentos 

aqui estás tal qual 
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava 
o cão de circo para os domingos da família 
o cão vadio dos outros dias da semana 
o cão de sempre 
cada vez que há um cão jovem 
neste local da terra 

António José Forte, in '40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes numa Girándola Implacável e Outros Poemas'

***

Um Homem

De repente 
como uma flor violenta 
um homem com uma bomba à altura do peito 
e que chora convulsivamente 
um homem belo minúsculo 
como uma estrela cadente 
e que sangra 
como uma estátua jacente 
esmagada sob as asas do crepúsculo 
um homem com uma bomba 
como uma rosa na boca 
negra surpreendente 
e à espera da festa louca 
onde o coração lhe rebente 
um homem de face aguda 
e uma bomba 
cega 
surda 
muda 

António José Forte, in 'Uma Faca nos Dentes'

1 comentário:

Anónimo disse...

obrigado

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