quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Espectáculos (eventualmente tristes) de dias que correrão

Colegas de faculdade desafiaram-me para uma das sessões referidas no poster abaixo. Como pode ver-se, não vou falar de ninguém. O que farei, então, para além de poder segurar um candeeiro? Declamar alguém, neste caso João de Deus. Nunca declamei na vida, aleguei, menos ainda em público. Ambos foram solícitos no elogio: o João tem uma voz óptima... E eu, mais vencido pelo desafio do que pela vaidade, acedi. 

Quando dei por mim, percebi que não conhecia nada de João de Deus. Podia ser como algumas pessoas que afirmam não conhecer nada de Augusto Gil, e contudo, quando se lhes fala no batem leve, levemente / como quem chama por mim..., já o identificam; mas de facto não era: fui ler alguns poemas de João de Deus e nada de nada de nada.  

Ao dia de hoje não faço ideia dos poemas que lerei. Neste momento acho graça ao desafio. Nas vésperas preferiria ter emigrado, pelo que vaidade é apenas uma palavra começada por 'v'... 

Sinopse da Sessão (por Miguel Tamen): 'João de Deus (1830-1896) foi o primeiro de uma longa linhagem de poetas portugueses a quem se poderia aplicar o título, em Portugal inexistente, de Poeta Laureado. Está, como os herdeiros desse título, sepultado no Panteão Nacional. Foi autor de uma Cartilha que representou para várias gerações a ideia de literacia. Fragmentos dessa cartilha e de poemas seus são ainda lembrados, às vezes de forma truncada. Irá ser tratado como poeta por mérito próprio: serão lidos vários poemas seus que mostram esse mérito.'

Alea jact est...

JdB


Melancolia

Oh dôce luz! oh lua! 
Que luz suave a tua, 
E como se insinua 
Em alma que fluctua 
De engano em desengano! 
   Oh creação sublime! 
A tua luz reprime 
As tentações do crime, 
E á dôr que nos opprime 
Abres-lhe um oceano! 

É esse céo um lago, 
E tu, reflexo vago 
D'um sol, como o que eu trago 
No seio, onde o afago, 
No seio, onde o aperto? 
   Oh luz orphã do dia! 
Que mystica harmonia 
Ha n'essa luz tão fria, 
E a sombra que me guia 
N'este areal deserto! 

Embora as nuvens trajem 
De dia outra roupagem, 
O sol, de que és imagem, 
Não tem essa linguagem 
Que encanta, que namora! 
   Fita-te a gente, estuda, 
(Sem mêdo que se illuda) 
Essa linguagem muda... 
O teu olhar ajuda... 
E a gente sente e chora! 

Ah! sempre que descrevas 
A orbita que levas, 
Confia-me o que escrevas 
De quanto vês nas trevas, 
Que a luz do sol encobre! 
   As victimas, que escutas, 
De traças mais astutas 
Que as d'essas féras brutas... 
E as lastimas, as luctas 
Da orphã e do pobre! 

João de Deus, in 'Ramo de Flores' 


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