segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Crónicas de um doutorando tardio

Hoje pelas 12.30h saberei a nota de um trabalho a que fiz referência num post da semana passada, sobre viagens e regresso a casa. Vou com as expectativas baixas: não conto ter uma nota fantástica, que o trabalho foi feito sob pressão do tempo. E no entanto, tenho esperança de não ficar envergonhado... Entre duas expectativas de sinal oposto alguma coisa há-de salvar-se, quanto mais não seja o feedback sobre o trabalho, sempre tão importante - e até mais do que a nota, embora este reflicta a qualidade percebida do trabalho.

À medida que ia ouvindo alguns comentários esparsos dos meus colegas sobre o próprio trabalho deles apercebei-me com mais clareza o que me diferencia deles, rapaziada na generalidade dos casos abaixo dos 30 anos. Não é o facto de todos eles terem uma cultura muito superior à minha nas Humanidades, discorrendo sobre os filósofos como eu discorreria sobre eficiência de fábricas; não é o facto de alguns terem uma excelente cabeça, com raciocínios rápidos e interessantes; não é o facto de alguns deles serem letrados ou com uma discurso eventualmente mais hermético. O que me diferencia deles é a forma como ambos - eu e o restante grupo, na sua generalidade - olhamos para o mesmo texto. Aconteceu isso no seminário sobre viagens (genericamente falando) como aconteceu isso no seminário onde abordámos (entre outros mas é esta obra que me interessa) a vida de Frei Bartolomeu dos Mártires, um dominicano português do séc. XVI, arcebispo de Braga e primaz das Espanhas, santificado há pouco tempo. 

Os meus colegas lêem uma passagem da vida do santo e identificam um poema de Virgílio, uma écloga de fulano ou um recurso estilístico de beltrano. Lêem Leigh Fermor e vem-lhes à memória os peripatéticos; lêem Naipaul ou Shackleton e encontram o filósofo não sei quantos; Lévi-Strauss lembra-lhes a antropologia, as referência à visão da felicidade deste ou do sublime daquele.

(obviamente que faço uma caricatura, mas é para se perceber o ambiente)

Eu leio todos eles e penso na vida - no despojamento do Frei Bartolomeu ou de Leigh Fermor (tão diferentes e, no entanto, tão parecidos), no conceito tão vasto de regresso a casa, nas virtudes morais e operacionais do explorador inglês, na comparação da frase de João Lobo Antunes, de que tinha sido a medicina a fazê-lo médico, e da vida de Naipaul, que se tornou natural da Trindade (de onde era, de facto, natural) quando se tornou escritor em Inglaterra. O que me interessa é a santidade, a sobrevivência, as transformações internas, as refeições como espaço de coesão, ou a ideia de fotografia como casa que se transporta numa algibeira de uma casaco comido pelo frio e pela neve. Enquanto para mim os livros são fonte de ensinamento do que sou ou do que é a espécie humana, para os outros os livros são fontes de informação ou de cultura. Obviamente que eu parto de uma realidade mais frágil: os meus colegas podem relacionar os livros com a cultura, eu não posso relacionar os livros com os filósofos.

É isto, no fundo, ainda que seja pouca coisa.

JdB

    

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