quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Da curiosidade


Em 1933, Patrick Leigh Fermor encetou uma viagem a pé que o levaria de Roterdão a Constantinopla. Definira regras específicas para a viagem, uma das quais passava por nunca fazer de comboio, autocarro ou carro, uma distância superior àquela que faria a pé. Ir a pé é ir a pé e, embora haja motivos que possam levar à necessidade de apanhar uma boleia, esses motivos não devem falsear a intenção primária da viagem. Leigh Fermor tinha um casaco, umas botas resistentes, uma mochila (com peças de roupa, caderno e lápis e, extraordinário! um ou outro livro de poesia) e um bordão de peregrino. E fez-se à estrada até Constantinopla.

Este parágrafo é meu, pelo que me cito a mim próprio, o que não sei se é bom. Mas entusiasmo-me e mantenho-me na auto-citação: Leigh Fermor começou culto - citava Horácio em Latim, sabia tudo sobre Berlim sem nunca ter estado em Berlim, discorria sobre obras de arte ou História - mas acabou curioso, pelo que a curiosidade foi o ponto de chegada, não o ponto de partida. Leigh Fermor cresceu enquanto andava, cresceu com os pés.

Há uma ideia luminosa por trás desta frase: a ideia de se começar culto e acabar curioso. E como há luminosidade, há avanço, não o inverso: ser-se culto é, portanto, ser-se menos que curioso, ainda que ser-se culto seja bom. Mas é melhor ser-se curioso. Ser-se coronel é bom, mas ser-se general é melhor, assumindo isto que ser-se militar, hoje, tem uma valência de dignidade que é superior à dignidade intrínseca ao corpo por baixo da farda. 

Divago. 

Ser-se culto é saber-se muito, mas pode ser, como é muito o meu caso, um exercício circense, igual ao daquelas pessoas que dizem palavras ao contrário ou fazem contas de multiplicar muito rapidamente. Sim, o ser-se culto implica interesse; mas o ser-se culto é favorecido pela memória. Retenho informação inútil - frases do Eça, letras de fados, pormenores de tempos passados. Ser-se culto é ouvir (e ler é ouvir) e fixar. Quando se é mais velho e se viu já uma parte do mundo (o que está na figura, pontilhado a encarnado, e o outro, que não se vê com os olhos), a cultura permite-nos juntar um verbo: relacionar. Ouvimos, fixamos, relacionamos. Percebemos que tudo - ou quase tudo - se pode ligar, comparar, unir.

Porém, ser-se curioso é mais; é estar aberto à novidade, é arriscar no fracasso de numa noite preenchida com um concerto maçador, é encontrar o encanto dos espaços desconhecidos, não dos familiares. É procurá-los, não porque sejam bonitos ou interessantes, mas porque são desconhecidos; ser-se curioso é dar aos olhos a possibilidade de se abrirem de espanto, quando os olhos dos outros (até os dos cultos...) se abrem num alarde de certeza. Ser curioso é usar o ponto de interrogação até que a tinta se esgote ou a voz nos doa; ser-se curioso é reconhecer na ignorância um ponto de partida, não uma dimensão de vergonha. 

A peruana Yma Sumac fez do exotismo a sua marca. Autodidacta, desenvolveu uma voz capaz de chegar às quatro oitavas, quando a maioria dos cantores apenas atinge as duas. Ela sou eu a lembrar dispersamente os versos do Carlos Conde, o prefácio de Eurico, o Presbítero que li depois do tempo em que o devia ter feito, a rir-me com amigos sobre a relíquia que o Raposão trouxe da terra santa, e que tinha odor a sensualidade e não a martírio, ou a cantar tangos com se fosse do mundo onde os cantam. 

A cultura é circo; a curiosidade é arrojo. Que eu, e os que me rodeiam, seja menos aquele, para ser mais este.

JdB 

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