segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Do sexo nos recasados

Foi com alegria altruísta que recebi a notícia, de que dei conta aqui na passada 5ªfeira, que o Patriarca estabelecera orientações para admissão de “recasados” aos sacramentos, em alguns casos. Se a memória não me falha, é a terceira diocese, depois de Viseu e Braga (não sei qual foi a primeira). 

A expressão alegria altruísta não é uma construção meramente evangélica. Perto de mim, alguns amigos verão com bons olhos um caminho possível. Ou porque a declaração de nulidade não é aplicável, ou porque estes casais entendem não ir por esse caminho, a Igreja abre portas a um percurso de discernimento que, nalguns casos, poderá dar acesso a dois sacramentos que estão vedados aos casais recasados: a reconciliação e a comunhão. Como já aqui escrevi uma vez, estes casais de que sou amigos merecem-no: depois de primeiras relações (de um, de outro ou de ambos) que não correram bem, as segundas relações impuseram-se como a relação mais forte e mais duradoura: nasceram filhos, educaram-se filhos, lutou-se pelo projecto com unhas e dentes, não se desistiu, manteve-se uma prática religiosa com uma dimensão de dor, porque privada de uma parte sacramental importante e integral. Alguns casais optaram por seguir a consciência e comungam; outros optaram pela regra, e não o fazem.

A notícia deu azo a muitas notícias (e a repetição é propositada). Os jornalistas, essa classe profissional que tem tanto de elevação como de baixeza, pegou por aquilo que vende: não sendo o assassinato à machadada, não sendo a pequena corrupção do autarca desconhecido, não sendo a infidelidade do actor de telenovela, sexo e Igreja Católica é uma combinação que estimula os sentimentos mais desinteressantes, levianos - mas também reles - da opinião pública. Por outro lado, a Igreja (à qual pertenço e quero pertencer) tem uma capacidade ilimitada para se meter por caminhos difíceis quando fala do corpo. São séculos e séculos de diabolização do sexo ou do prazer, como se a satisfação que um casal sente na intimidade do acto sexual fosse infinitamente mais pecaminosa do que o prazer que esse mesmo casal sentirá a deglutir uma chanfana de cabra ou uma cabeça de garoupa. 

Sempre que falo ou penso neste tema dos recasados vem-me à ideia dois ou três casais próximos: não lhes conhecendo, obviamente, a vida íntima, estou certo de que são iguais a todos os outros. A intimidade serviu para o aumento da família, mas a intimidade serviu também para o prazer. Deitaram-se e beijaram-se e acariciaram-se. Talvez uma ou outra vez tivesse sido um acto mais carnal, porque somos seres humanos com necessidades; mas, estou certo, na maior parte das vezes foi um acto de amor, praticado por duas pessoas que se amam e que prometeram, na intimidade das suas consciências e frente a Deus sem um padre como testemunha, defender aquele (segundo) projecto contra todos os inimigos. Dar-se uma conotação negativa à vida sexual é dar-se uma conotação negativa à necessidade de equilíbrio de casais mais ou menos jovens, na força da vida ou num certo ocaso da vida. 

A Igreja lida mal com o corpo, fruto de uma tradição de séculos. O mundo mudou. Sexo é uma palavra com quatro letras, prazer tem mais duas. Pode pecar-se mais frente a uma parrilhada de marisco do que frente ao corpo desnudo da pessoa de quem se ama. Os jornalistas querem sangue, e o sangue está na relação da Igreja com o sexo, na incoerência do que defende e nos telhados de vidro que tem. Sou católico e, nalguns casos, lamento ver a Igreja em que acredito defender o indefensável - não porque deva estar em cima da onda mas porque, de facto, há posições que fazem pouco sentido hoje em dia. Com alguma classe jornalística que temos, a Igreja pôs-se a jeito, mesmo que as notícias de alguns jornais pecassem pela pela superficialidade.

Espero que este caminho seja irreversível, mesmo sabendo que deixa fracturas pelo caminho, que expõe o Papa a correntes muito antagonistas, como se nós, membros desta Igreja, nos esquecêssemos da presença do Espírito Santo na eleição, o que transforma aquele processo não 100% controlável pela vontade humana. E espero, daqui a uma semana ou daqui a um ano, ver alguns casais, de quem sou amigo, a comungar. E que a vida íntima deles seja a que entenderem ter, que não é isso que interrompe o caminho da santidade. 

JdB       

1 comentário:

Anónimo disse...

"E que a vida íntima deles seja a que entenderem ter" clap clap clap! Bom texto e ainda melhor análise.
Foi a única vez que vi este tema ser falado com equilíbrio.

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