segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Moleskine

Tratamentos
Um amigo da minha idade e cujo ar não é infantil, segue um tratamento no IPO. Esta 6ªfeira uma enfermeira dirigiu-se-lhe, admito que com competência e dedicação: o amiguinho vai almoçar? No dia em que fui à Câmara Municipal de Lisboa representar a Acreditar, a senhora da recepção, armada da sua maior simpatia, tratou-me por você. Um dia depois, um médico competente e jovem, armado também da sua maior disponibilidade, tratou o meu pai, com 92 anos, por você
As três histórias acima têm importância nula quando se fala de eficácia nos diversos serviços referidos: todos, na medida da sua esfera de actuação, foram irrepreensíveis. Mas não se trata um doente por amiguinho nem um senhor de 92 anos por você. Sobretudo quando há uma alternativa simples: o tratamento por senhor.  
Eu sei que estas histórias são velhas e desinteressantes, mas há um elemento de descortesia - não intencional - que é evitável. Porquê o você e o senhor João, ou senhor António quando nas cidades há uma tradição de tratamento pelo apelido?

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Cinemateca
Almoço na Cinemateca com amigos, de pois de uma visita - que recomendo fortemente - à Fundação Medeiros e Almeida, pese embora não ter tido inveja por 99% das peças expostas. Tudo é muito bom - mas de um gosto que me é muito duvidoso. Regresso à Cinemateca. Há um grupo que chega depois de nós: num instante sentam-se numa mesa o Francisco Louçã, o José Manuel Pureza, o Fernando Rosas e a Caterina Martins, acompanhados de duas senhoras que não identifiquei. 
Duas notas para fechar a curiosidade: (i) um perigoso assassino (há 100 anos poderia ser um perigoso anarquista), com uma bomba só, tinha pela frente a enorme possibilidade de decapitar a clique pensante do Bloco de Esquerda. (ii) Confesso que quis escutar a conversa deste grupo. Não para descortinar segredos de Estado, mas para perceber de que falavam entre si: da conquista do poder, da alteração da lei laboral, da Mariana Mortágua ou, muito simplesmente, de sopas da Bimby, do último livro deste ou daquele escritor, ou das dificuldades conjugais de algum deles? Terá esta gente conversas ligeiras?

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Buenos Aires, Maio 2017

Livros
Leio dois livros em simultâneo (normalmente não o faço, mas o tipo de livros que é permite-o): Crónicas: Imagens Proféticas e Outras (1º volume), de João Bénard da Costa, e Pó, Cinza e Recordações, de J. Rentes de Carvalho. O primeiro, como o próprio nome indica, é uma colectânea de crónicas publicadas no Público; o outro, um diário do escritor. 
Não comparo estilos. Vou presumir que J Bénard da Costa não era escritor, e J Rentes de Carvalho é. Por outro lado, nunca conheci nem um nem outro pessoalmente, tendo uma memória esbatida - se não mesmo nula - de alguma coisa que o director da Cinemateca tenha dito em televisão. J Rentes de Carvalho caracteriza-se várias vezes: pouco social, pouco paciente, apreciador da sua solidão. Bénard da Costa não se caracteriza. E no entanto, não seria preciso o escritor falar de si para se perceber o que é: a diarística revela secura, pouca emoção. Pelo contrário as crónicas de Bérnard da Costa têm algo de luminoso, fale ele e cinema ou de um quadro com que se cruzou em Itália. Tem uma escrita bonita e suave. Talvez a escrita revele o que ele era...

Exposição
Ao longo de um ano João Alvim, um amigo relativamente recente, pintou 18 retratos, sendo que um era de um amigo, e os outros 17 de amigos, também, mas comensais numa confraria que se junta uma vez por mês para almoçar. Não resisto a transcrever uma parte da texto que acompanha a exposição, intitulada "Do ver ao olhar, retratos", porque, de facto, pintar um retrato não é só pintar um retrato:  Ver é aquilo que no homem é mecânico. Olhar é discernir, perscrutar, interpretar. Do ver ao olhar, do animal ao ser humano, da máquina ao sentimento, a distância é a mesma. 
Retratar pode ser reproduzir com mestria: uma testa alta, um nariz adunco, umas orelhas assimétricas. A tela reproduz o que todos vemos. Mas retratar pode ser olhar para alguém e descobrir nesse alguém o visível e o invisível, fazer do rosto que sorri ou olha em frente não uma pessoa apenas, mas o lugar geométrico de humores, de felicidades e desejos, de angústias e memórias. Retratar pode ser só ver, mas também pode ser construir, decifrar. O artista pinta, não o que vê, mas o que descortina quando olha - encontra um traço de carácter onde outros vêem apenas uns olhos castanhos, percebe uma fragilidade onde outros detectam apenas uma boca bem desenhada.
O que une estes dezoito retratos? Um olhar imediato verá o óbvio: figuras masculinas, todas. Anatomias díspares, assemelhando-se, no entanto, naquilo que une a espécie humana. Dezoito pessoas que formam, na singularidade de cada quadro, um universo próprio, que estabelece com os outros um conjunto não inteiramente disjunto. Dos dezoito, dezassete juntam-se regularmente numa tertúlia a que chamaram "8 de Janeiro", unidos por factores diversos que agregam subconjuntos: passados partilhados, amizades duradouras, percursos académicos comuns, memórias de tempos e de lugares, que quase todos habitam no concelho de Cascais. Acima de tudo une-os, aos dezassete, o gosto da companhia mútua, o prazer da conversa e da gargalhada ou ainda, e sobretudo, esta ideia milenar de que à mesa de uma refeição não se envelhece. 
Desta exposição não constam dezoito retratos. Esta exposição compõe-se de dezoito olhares. Foi isso que fez o pintor, para quem o pincel e a tinta e a tela não foram mais do que extensões dos olhos e da alma com que viu cada um deles.  

JdB

1 comentário:

Anónimo disse...

Pensei: vai,,, não vai... Aí vai:
Tem que se educar o povo e não será no velho estilo do MRPP.

Quando alguém me trata por «amigo» respondo logo «eu não sou seu amigo e não o conheço de lado algum».

Dos 'call centers', quando me tratam por «senhor Alfredo, respondo logo que «Alfredo é o homem do talho. Eu sou Rocha». Então olham de novo para o écran e passam para «Dr Rocha». Logo emendo que «'doutor' é graxa reles pois há por aí muito doutor asno. Sou Rocha e ponto». Em geral tenho a calma de inquirir, antes destas desconversas, se estão a gravar a chamada e aconselhou-os a gravarem.

Abraço, Senhor, Professor, Doutor, Engenheiro... JdB

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