segunda-feira, 30 de abril de 2018

Poemas dos dias que correm

Taviani

ali por mil novecentos e oitenta e tal
o cinema salvava miúdos com fome de mundo.
entre ciclos na televisão, cinemas de província
e ocasionais saltadas ao grande carrossel,
olhos espantados por espantoso espanto
descobriam pepitas de ouro puro ouro.

tanto devemos aos irmãos ali de cima.
por exemplo: aquele filme que juramos ter visto,
mas de cujo rasto ninguém mais soube,
em que descobrimos, maravilhados,
que o cinema vitalista e pagão, telúrico,
era bem mais do que kitsch e folclore.

por entre as historietas, a vossa infindável 
ternura pelos homens - mesmo se pobres diabos -
encerrava uma daquelas lições para a vida:
todos merecem a sua oportunidade na vida
de todos os demais  - coisa não pouca,
se pensarmos cuidadosamente, com amor. 

a vós, irmãos, e ao corvo que atravessa o filme,
devo aquela coisa que só a infância tem:
o esbugalhado sorriso perante continentes a brilhar,
catedrais inteiras reflectidas nas íris de irmãos
(como nós) de irmãos mais sábios (como vós).
ergo-vos o meu copo de vinho antigo futuro.

a terra tremia. e era delícia. tudo na vida.
película impossível tornada tangível realidade.

gi.

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