quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Da Igreja Católica

O filme Dois Papas, de que já se falou neste estabelecimento, provoca opiniões diferentes, embora haja aspectos importantes - vistos como negativos - que suscitam uma relativa unanimidade. Mais do que falar do filme - já o fiz, numa análise pouco profunda e que foi criticada - interessava-me divagar sobre o que falam as pessoas (ou algumas pessoas) quando criticam a obra cinematográfica; o que, para essas pessoas, está por trás (ou constitui o perigo) de uma ficção sobre papas vivos, ou que imagem da Igreja se quer passar (ou se passa) quando se confrontam dois papas daquela maneira. O assunto estava relativamente arrumado dentro da minha cabeça; no entanto, aconteceu este episódio do livro escrito pelo Cardeal Robert Sarah sobre o celibato dos padres e relativamente ao qual se anunciou uma certa parceria - deliberada ou manipulada - de Bento XVI. Daí este texto.

***

Há uns meses almoçava com um amigo que é muito católico, muito conservador, muito culto e muito inteligente. A propósito de um certa dúvida disse-lhe

hoje vou jantar com um jesuíta e pergunto-lhe.

Ele respondeu numa tirada com graça

não se esqueça de perguntar depois a um padre... 

Poderia contar a visão muito oposta que amigos meus - católicos - têm relativamente a Amoris Laetitia naquilo que se cruza com a comunhão dos recasados; ou a visão muito oposta que amigos meus - católicos - têm sobre algumas ideias do Papa Francisco, desde a possibilidade de ordenação de gente madura na Amazónia até à eliminação de alguns sinais de grandeza da Igreja ou do papa. Ou, no fundo, a ideia que amigos meus - católicos - têm sobre Francisco e Bento XVI. A Igreja Católica, ao seu nível mais básico - que é o comum dos fiéis - está pejada de opiniões diferentes, por vezes muito críticas. Estou certo que a mesma Igreja, ao seu nível mais elevado, é igual - e portanto mais grave, pela sua maior visibilidade e amplitude.

Talvez haja uma certa ideia de banalização da Igreja, da sua redução a uma frivolidade sem importância, própria de um mundo desejoso de relativismo, de ódio a valores absolutos e não negociáveis. Talvez haja uma certa ideia de que toda a gente pode zurzir - e zurze - na Igreja Católica, e que toda a gente pode desdenhar a Igreja Católica, ao contrário de outras igrejas (ou religiões) onde ninguém se atreve a tocar. Haverá ainda a ideia de um ataque orquestrado à Igreja Católica, visível, sobretudo, no que surge nos orgãos de comunicação social, onde só se publica o podre, o negativo, o errado, o ligeiro, mas também noutras áreas, como no caso do filme em apreço.

Sempre tive dúvidas de que houvesse uma agenda de ataque à Igreja: teria de perceber de quem vem, quem a define, quem a controla ou gere, em que moldes se articula. Estou certo que a Igreja suscita irritações em vários graus; porém, a publicação do podre, do negativo, do errado ou do ligeiro é uma característica dos tempos modernos (aplicável a desmandos financeiros em IPSS, a pequenas corrupções de árbitros de província ou a infidelidades do jet set) e não o resultado de um ataque concertado. Publica-se o que vende - e basta, para isso, olhar a capa dos jornais ou das revistas. Numa visão muito radical, talvez não haja muita diferença entre uma primeira página que noticia o padre que roubou peças de arte sacra ou uma primeira página onde se refere (a toda a largura) um menino de dez anos que vê a mãe morrer num acidente.   

Isto não me impede da certeza de que a Igreja Católica tem inimigos; estou convicto, contudo, que os maiores inimigos da Igreja Católica estão dentro da Igreja Católica: é o triste e evitável caso do livro a duas mãos ou a quatro mãos; é o triste caso dos dinheiros do Vaticano, da corrupção, da fuga de informações, ou o vergonhoso e escandaloso caso da pedofilia; é esta certeza que todos temos de que há uma luta interna grande ao nível do topo da Igreja, com estratégias organizadas. É, numa dimensão diferente, a falta de empenho dos católicos na vida da sua paróquia ou da sua diocese, o excesso de criticismo, a incongruência entre o que defendemos e praticamos. É para estes inimigos, sobretudo mas não exclusivamente, que temos de apontar baterias.

Para mim, proteger a igreja é lutar ou rezar pela sua pureza interna; é identificar o adversário certo - não os fernandos meirelles tendenciosos ou os jornalistas à procura do escândalo, mas os inimigos internos. Proteger a igreja é militar, é estar presente, é defendê-la publicamente ou criticá-la recatadamente, é publicitar o bem que faz, colectiva ou individualmente, defender publicamente todos os papas. Proteger a igreja é discernir a diferença saudável, mas levar ao limite a ideia de obediência (o livro do Cardeal Sarah é paradigmático desta ausência de obediência filial). Proteger a igreja é identificar o que mina a sua credibilidade, o que afasta os fiéis das cerimónias, como se combate o excesso de laicismo, como se dá peso aos sacramentos.  

Os tempos não são fáceis; são tempos de muita visibilidade, de permanente escrutínio, de imediatismo e leveza excessiva. É preciso que cada um de nós, católicos, perceba como quer / pode defender a Igreja onde se revê. Talvez ajude se a Igreja (onde estou e quero estar) não cometer tantos erros. Já não vivemos, para o melhor e para o pior, o tempo da sede gestatória, do camauro orlado de arminho ou de outros sinais que evidenciavam a magnificência do cargo. Vivemos, também para o melhor e para o pior, um tempo de grande proximidade temporal: o que se faz agora sabe-se agora - ou inventa-se agora. Convém que estejamos mais atentos.      

JdB

5 comentários:

Anónimo disse...

Excelente análise!

Abr
fq

Anónimo disse...

Já lhe escrevera que o cardeal em nada me inspirava. Seria um saloio da 'Eilha'. Tal como se nota pelo currículo, com esperteza saloia que é o que rende neste paiseco.

Ando, há quase uma semana, para lhe enviar o 'link' de um 'blog' venenoso. Mas por mim, creio que quase sempre chove por inúmeras boas razões.
Aí vai:

https://chovechove.blogspot.com/2020/01/o-inefavel-e-escorregadio-tolentino.html

Perdoo para ser perdoado. Mas não olvido.

Abraço
ao

Anónimo disse...

Acerca do Cardeal Robert Sarah. Li dois livros da sua autoria. São um espanto.
Tem tido uma carreira vaticana brilhante, decidida por três Papas.
O que leio por esse mundo cristão, faz-me acreditar que o 'conselheiro' de Bento XVI meteu 'a pata na poça'.

Abraço
ao

Anónimo disse...

Voltando ao 'post'.

E se a frase tivesse sido "Hoje vou jantar um jesuíta"?

Que rica história não daria...

Abraço,
ao

JdB disse...

ao,

Agradeço a sua visita. Relativamente ao jantar, talvez este meu amigo não se importasse de deglutir um jesuíta ao jantar, não na forma de bolo, mas na forma de algo comestível e leve, muito leve, como se fossem claras em castelo que pouco mais são que ar.

Quanto ao blogue venenoso, fui visitá-lo. Houve algo que me desconfortou: uma espécie de procura do incumprimento. Identificar o erro de sintaxe, a falha de concordância, uma confusão entre palavras quase homófonas. Talvez o problema não seja exclusivamente de quem escreve, mas também de quem revê. Se o Sr. "Chuva" tiver falho de material, pode sempre visitar os meus escritos, pejados de erros...

Volte sempre.

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