quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Textos dos dias que correm *

O Palácio da Pena (de si mesmo)

O Palácio da Pena, na Serra de Sintra, recebe à volta de 2 milhões de visitantes por ano, entre portugueses e estrangeiros. E ninguém fica desiludido: o bilhete abre-nos a porta do passado e transporta-nos para um mundo de fantasia carregado de emoções. Os roteiros falam mesmo deste monumento como de uma “cenografia”.

Chama-se “da Pena” devido ao local onde o palácio foi construído, o “Monte da Pena”. Esta “pena” deve ter sido simplesmente a de algum pássaro – real ou lendário – que por lá tenha passado. Mas, em português, a palavra “pena” tem dois sentidos; há uma outra “pena”, a de nós mesmos, sobre a qual podemos construir uma espécie de palácio encantado. Para lá vivermos fechados. Porque a pena de nós mesmos é um espaço tentador do qual por vezes não apetece sair. Está cheio de corredores compridos, portas antigas e altas varandas de onde se vê o mundo à distância, a partir de cima. Nos pátios deste palácio há fontes de pedra que jorram sem cessar uma espécie de água cristalina. Delas se bebem emoções fortes que nos fazem sentir especiais, diferentes, únicos, injustiçados. E quem delas bebe não percebe que está a beber veneno…

Várias vezes tenho repetido uma ideia, que devo ter ouvido algures: estaríamos ricos se, cada vez que nos queixamos, colocássemos 10 cêntimos num mealheiro. Disse isto no ano passado, nuns Exercícios Espirituais que dei a sacerdotes, um pouco antes do início da Quaresma. Um deles aproveitou a ideia e sugeriu esta prática aos seus paroquianos: que tivessem em suas casas, durante a Quaresma, umas caixas em cartolina e que deixassem lá uma moeda cada vez que se queixassem. Sugeriu ainda que, no fim da Quaresma, esse dinheiro tivesse uma determinada finalidade social. Achei genial. O hábito da queixa é uma muleta egocentrada e infantil que se apodera de nós subtilmente. Tudo serve para uma boa queixa: o calor ou o frio, o muito trabalho ou a sua ausência, as exigências da vida matrimonial ou – por outro lado – o facto de se ser solteiro ou separado, a preocupação com os filhos ou a infelicidade de não os ter tido. E quando não faz frio nem calor, não há muito trabalho nem pouco e os filhos andam nas suas vidas em velocidade de cruzeiro, aí surge a maior queixa, a da monotonia da vida, a de não acontecer “nada de especial”.

Todos temos – nas nossas histórias pessoais –  factos que cheguem e sobrem para nos queixarmos ou para nos acharmos sortudos. Creio que a pena de nós mesmos é uma decisão (embora inconsciente). Quando tentamos sustentar esta pena referimos factos, claro, mas a pena é uma decisão e uma decisão prévia à análise dos factos. A decisão refere-se ao modo como contamos a nossa vida – como uma história merecedora de comiseração ou de gratidão. Já ouvi pessoas falarem de uma sua deficiência física como uma sorte (pela quantidade de coisas boas que tiraram daí) e já ouvi pessoas queixarem-se da sua muito privilegiada situação laboral como uma infelicidade (pelo tanto que têm de trabalhar).

O exercício da queixa é muito útil para quem quiser ter pena de si mesmo mas não chega. Para se atingir uma boa pena de si é preciso chegar a pensar (e depois a dizer) que “tudo me acontece”, ou seja: é preciso chegar à vitimização. A vitimização é mais do que a queixa porque sugere alguma forma de complot cósmico contra a pessoa. Primeiro o risco no carro e a bronquiolite da miúda, depois o IRS e agora – imagine-se – as compras online que vieram trocadas!

Duas insinuações acusatórias conseguem irritar de morte a pessoa que tem pena de si mesma. A primeira é a de que ela mesma possa estar a contribuir para o seu próprio infortúnio pela sua maneira de estar na vida. (Será que o “azar” de teres tão poucos amigos não terá algo a ver com o teu apego ao sofá e à televisão? E não haverá nenhuma relação entre não encontrares trabalho e recusares-te a trabalhar fora da tua área?) A pessoa convence-se de que nunca tem culpa, que a culpa é sempre dos outros e das circunstâncias. Um “azar”. E, sendo assim, ela não tem de fazer aquilo que todos nós temos de fazer: pôr-se em questão a si mesma. A segunda insinuação irritante é a de que a vitimização pode dar jeito para alguém não ter de se incomodar com os problemas dos outros. Porque andar a chorar pelos corredores do palácio é chato mas serve bem de alibi para uma pessoa não ter de sair para fora do palácio e se preocupar com os outros. Inconscientemente, claro…

A autocomiseração é como um palácio, encantado e tentador. No entanto talvez o leitor (e eu próprio) não tenhamos propriamente um “palácio” de autocomiseração. Um palácio é uma coisa muito grande. Talvez tenhamos apenas uma moradia, um T1, um quarto, ou simplesmente um canto sombrio onde nos queixamos e vitimizamos quando estamos sozinhos. Seja como for, é difícil escapar totalmente à pena de nós mesmos seja por causa do problema dos rins, da situação de desemprego, do feitio da pessoa que vive connosco, de determinado acontecimento do passado ou do facto de – mais uma vez – não termos conseguido sair do trabalho a horas de ainda ir ao ginásio.

A pena de si é tentadora mas a fé (pelo menos a fé cristã) leva-nos por um caminho bem diferente: exige que nos questionemos a nós mesmos de uma forma séria (os famosos exames de consciência diários, por exemplo) e obriga-nos a virar-nos para os outros (“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”) em vez de nos fecharmos nos nossos palácios ou recantos de autocomiseração.

A fé cristã propõe ainda um modo de entendermos as nossas circunstâncias que torna absurda a queixa. Propõe que as entendamos como ocasiões da Graça divina, como algo que Deus aproveita para nosso bem. S. Paulo chegou a escrever que “tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” (Rom 8, 28). Esta frase tão simples leva-nos a olhar de outro modo para o que nos acontece: se algo não pudesse contribuir para o nosso bem, Deus não permitiria que acontecesse. S. Paulo não escreve que “é tudo muito bom” mas que tudo pode “contribuir” para o nosso bem. Ou seja: que, de tudo, podemos tirar bem com a Graça de Deus. E ser cristão é precisamente andar à busca desse bem, por vezes tão escondido dentro de determinados acontecimentos. Em vez de nos queixarmos.

A maneira de ver cristã não deixa muito lugar à vitimização. Afinal a verdadeira “vítima” foi Jesus e não O ouvimos a queixar-se da injustiça que Lhe fizeram. Ouvimo-Lo apenas a dizer: “Quem quiser vir comigo tome a sua cruz e siga-Me” (Mt 16, 24). Cristo não nos convida a aguentar estoicamente as dificuldades mas a aprendermos com Ele a viver o negativo que não podemos mudar: a doença que não se cura, o feitio que não se muda, o acontecimento que não se apaga… Pegamos nessa “cruz” e unimo-nos à paixão de Cristo na intimidade com Ele, na disponibilidade para aceitarmos o que Deus quiser, na confiança de que tudo terminará em bem e na decisão firme de tentarmos tirar de tudo o crescimento e o bem. Em vez de nos vitimizarmos.

* P. Nuno Tovar de Lemos, sj
Publicado pelo Ponto sj (portal dos jesuítas em Portugal) em 15 Janeiro 2020

1 comentário:

Anónimo disse...

Um texto vago, vazio, jesuítico.
ao

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