segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Moleskine *

The opposite of love is not hate, it's indifference. The opposite of art is not ugliness, it's indifference. The opposite of faith is not heresy, it's indifference. And the opposite of life is not death, it's indifference. 

(Elie Wiesel)

***

Jacob Berkovits nasceria em 1929 em Nagyvarad, já depois do tratado de Trianon atribuir a pertença da localidade à Roménia. Os marcos principais da sua vida pareceram aconchegar-se no abraço cronológico do seu amigo Elie Wiesel, compatriota e parceiro de sobrevivência do holocausto. Em 2008, poucos meses antes de morrer, Jacob escreveria à sua mulher Hanna: o destino foi-me favorável. Vim ao mundo depois de Elie, pois não seria merecedor da alegria de o ver nascer; parto antes dele, pois não teria a coragem de o ver morrer.  

No primeiro aniversário da sua morte, em boa hora a Universidade de Telavive decidiu editar as cartas do professor de Física Quântica, publicadas posteriormente em francês. Correndo o risco da imprecisão que sempre advém de uma tradução livre - e forçosamente inexacta - de sentimentos alheios, transcrevo partes de uma delas:

Meu querido Elie,

Já vi o suficiente, já falei o suficiente, precisava de mais uma vida para ouvir o suficiente. 

(...)

Um dia, nas margens do Mar Morto tentei comparar, por puro exercício académico, a nossa alma a um corpo mergulhado naquela imensidão líquida onde, como sabes, tudo morre e nada flutua. Não consegui. Por mais que quisesse pensar que a nossa bondade está sempre à tona de água, que nunca desaparece nas profundezas do mar, sugada por uma escuridão onde o Amor e a Compaixão são inexistentes, não consegui. O Mar Morto não representa o mundo em que vivemos, porque para todos nós há uma linha de água de onde subimos e descemos em função do que somos, do que queremos fazer da vida, e do ânimo com que perseguimos os nossos sonhos. A vida é uma faca, Elie, que nos serve, se a agarramos pelo cabo, ou que nos corta, se lhe pegamos pela lâmina.

(...)

Estou perigosamente agarrado ao pormenor. Mencionam-me os alunos mais novos uma frase dupla muito em voga: o amor - ou o diabo - estão no detalhe. Não me parece, Elie, que a conjunção seja "ou", porque quero crer que ambos residem lá em permanência, seguramente numa convivência pouco pacífica, e prontos a irromper ao menor sinal. Sei do que falo: um pormenor ínfimo de um trecho musical comove-me; um olhar indecifrável de um personagem secundário intriga-me; um veio de madeira desigual numa moldura bonita prende-me a atenção; um copo desalinhado numa perfeição de mesa desfoca-me do que é importante. O detalhe é-me mais afectivo do que cerebral; por vezes é apenas o direito inalienável à minha individualidade, uma forma de expressar que sou único, porque aquele pormenor, disponível para todos, só eu vi, só eu apreciei, só eu lhe encontrei um encanto, tantas e tantas vezes ridículo.

(...)        

Em Outubro fui fazer uma palestra à Faculdade de Medicina. Eram alunos do primeiro ano, alguns com um evidente desejo de mudar o mundo, inundados de energia e de convicção. Para eles, a profissão de médico é o casamento perfeito entre o sucesso e o desejo de ajudar quem sofre. No período final, quando aos estudantes é dada a oportunidade de inquirirem o palestrante, uma rapariga levantou-se. Era alta, magra e bonita, com uns cabelos escuros a emoldurar uns olhos verdes, um porte simultaneamente altivo e acolhedor, de quem sabe que o maior calor e o maior frio convivem dentro de nós à espera de se revelar. Perguntou-me:

- Diga-me, professor Berkovits. Se tivesse de manter apenas um dos sentidos, qual é que escolheria?

Sabes, Elie... Durante alguns segundos não soube o que responder a este desafio tão difícil. Mesmo que a pergunta fosse académica, uma vez que a possibilidade de isso acontecer é quase nula, como devia responder-lhe? Falar, ver, ouvir, tocar, cheirar? Do que conseguiríamos prescindir, nós que já passámos pelo horror dos horrores, que sentimos a bestialidade humana a conviver com a generosidade comovente, que aguçámos os nossos sentidos para sobreviver, para amar - mas também para odiar - para olhar por cima do arame farpado e da indignidade na procura da esperança? 

- A sua pergunta é difícil, menina. Com a minha idade todos os sentidos vão perdendo o seu fulgor...  Mas não posso fugir à sua interrogação. Talvez optasse pelo sentido da audição. 

 - E porquê, professor Berkovits?

- Para a ouvir a si talvez, com tudo o que teria para me ensinar, para ouvir os outros, para ouvir todos aqueles que fizeram e farão de mim o que eu sou. Para me comover com uma frase escutada a que mais ninguém prestou atenção, para me descansar com a voz certa dos amigos fiéis, para me encher de nostalgia com o som triste do violoncelo, para ouvir a minha própria voz interior a pedir-me mais uma vida para ouvir o suficiente...

(...)  

JdB  

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* publicado originalmente a 17.01.2013

1 comentário:

Anónimo disse...

Entre tanta coisa que passa pela nossa relação com o mundo, escolho:

«Para me comover com uma frase escutada a que mais ninguém prestou atenção»

Porque estou completamente de acordo.

Abraço,
ao

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