quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Vai um gin do Peter’s?

PRESÉPIO DO SÉC. XXI ESTÁ EM PARIS E CONTÉM SEGREDO NA ESTRELA  

Desde há anos que uma das mais sofisticadas paróquias de Paris – La Madeleine – convida artistas contemporâneos a expor uma versão renovada do presépio, revisto pelo olhar do nosso tempo. Este ano, o casal de artistas plásticos Pascale e Damien Peyret foi convidado a partilhar a sua experiência de Natal com o paroquianos e inúmeros visitantes do conhecido templo parisiense.  

Com enorme originalidade, os Peyret expuseram a Natividade numa linha narrativa, salpicando-a de imagens. A onda, em papel esbranquiçado, jorra de uma das poderosas colunas da Madeleine, remetendo para a coluna da «Anunciação» de Fra Angelico, que prefigura o próprio Cristo. É desse alfa da instalação (e da Criação) que irrompe um rolo turbulento, que se contorce até pousar sobre as magníficas lajes do chão de mármore. Aquele contorcionismo exuberante representa a nossa época conturbada, repleta de incertezas e ameaças. 


Partindo da coluna, a primeira imagem projectada é a estrela de um vitral gótico alemão do séc.XV [do acervo do Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque], que dá o nome ao presépio: «UNE ÉTOILE DANSANTE». Mais do que coreográfico, o título da Estrela Que Dança cita directamente o grande e polémico e louco filósofo alemão Friedrich Nietzsche, nesta frase espantosa: «É necessário levar o caos dentro de si para ser capaz de gerar uma estrela dançante» [in «Assim falava Zarathoustra»]. A estrela luminosa emerge assim do âmago do coração humano, para daí salpicar de luz e vida o cosmos escuro e infinito, ligando a humanidade à imensidão da abóbada celeste.  Toda a metáfora expõe, na perfeição, a sede de infinito e de eternidade que habita o ser humano.  

No presépio contemporâneo: no lajeado, a imagem do Bebé recortada sobre ouro ressalta como um medalhão icónico e provém do políptico pintado no atelier de Rogier van der Weyden (1399-1464). Acima de Jesus, descortina-se a figura de um dos Magos – Melchior, extraída de uma tela anónima, quatrocentista – a apontar para a estrela dançante, que ressoa no ceú e no íntimo do ser humano, segundo a sugestiva concepção de Nietzsche.  


Mais pormenores adensam a eloquente obra dos Peyreut, explicada no seu portal [https://fragmentsdesens.com/une-etoile-dansante/], onde consta também o elenco das telas clássicas evocadas na sua narrativa. Das lindíssimas citações seleccionadas pelo casal de artistas francês, talvez seja o filósofo alemão de oitocentos a tocar mais fundo no sentido ulterior do Natal. Em 1864, gravou esta súplica no seu estilo intenso e reivindicativo: «Elevo, só, minhas mãos… ‘Ao Deus desconhecido’...  Eu quero Te conhecer, desconhecido. Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida. Tu, o incompreensível, mas meu semelhante» (1864). Tal como na estrela, também no Deus desconhecido reconhecia semelhança, pois sentia-O ecoar no lugar mais íntimo do seu ser... e de todo o ser humano.

Outro artista-escritor francês, herói da Resistência durante a Segunda Guerra e premiado pela Academia Francesa pelo seu romance «Le Drame des Romanov» -- o marquês Michel de Saint-Pierre (1916-1987) – deixou uma reflexão que também remete para o mistério da Gruta de Belém: «Deus ama-nos tal como somos, mas continua a olhar-nos como nos desejou.» Que estranho Alguém sonhar para nós muito acima dos nossos melhores sonhos! Dados a confundir o que somos com o que desejaríamos ser por dificuldade em amar o que existe, é insólito descobrir Alguém disposto a amar o que calha sermos e sabe onde poderíamos chegar, mas vamos adiando. 

Que estranho Alguém aceitar o instante do presente onde é raro estarmos, esgueirando-nos para tempos moldáveis aos subjectivismos – passado e futuro – enquanto o nosso horizonte de vida, hoje, fica à mercê de um contínuo de boas e más escolhas, sem especial lógica nem total noção de que o tempo é dom, mas fugaz. 

E se esse Alguém, que decidiu nascer num lugar inóspito, quiser ficar connosco para sempre? Será a realidade boa e mansa – ao jeito dessa Presença –, que melhor nos pode acompanhar no Novo Ano. Continuação de B O A S--F E S T A S a todos e FELIZ 2020,

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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