20 abril 2012

Moleskine

Livro. Leio A Grande Arte (Rubem Fonseca, Sextante Editora). Do posfácio de Mario Vargas Llosa: O assassinato de duas prostitutas no Rio de Janeiro, que, de início, parece obra de um maníaco sexual, abre uma caixa de Pandora de onde vão brotando, no decorrer de uma ação trepidante, as complexas ramificações de um tenebroso sindicato do crime. A história passas-se em boites e bares sórdidos, em sumptuosas mansões do Rio, em vilarejos da fronteira entre a Bolívia e o Brasil, onde reinam a cocaína e o crime, bem como na interminável viagem de um comboio que percorre metade do Brasil com couchettes que rangem sob o peso de casais fazendo sexo. Vale a pena ler, para quem quer entreter-se, aprender minudências sobre charutos e facas e passar um bom tempo de leitura.

Filmes. Fica o trailer abaixo. Há muito tempo que não me divertia tanto, mas devo realçar, em abono da verdade, que tenho uma irritaçãozita com filmes cómicos. Ora este não é! Ri-me até fartar, mas é um filme sério, não apalhaçado e que acaba bem. Além do mais é uma excelente alternativa ao cinema americano, cuja língua já não se pode ouvir, confesso. Quem ainda não tiver visto que vá ver e rapidamente. 4ª feira, ao jantar, uma prima (de uma idade bastante superior à minha) dizia que tinha sorrido. Afigurou-se-me curto, como manifestação de contentamento.



Estatísticas. Um estudo da Universidade Católica (Identidades Religiosas em Portugal: representações, valores e práticas, 2011) revela que existem menos católicos do que há 12 anos (79,5% contra 86,9%). Haverá, pela internet, comentários abalizados ao que isto significa. Pessoalmente não tenho informação que chegue para emitir sequer uma opinião, até porque pertenço a uma paróquia, Santo António do Estoril, onde há animação nas várias missas, agitação substancial ao nível dos jovens e da assistência aos mais necessitados, disponibilidade e proximidade dos padres. Acredito que, ao nível geral, seja preciso tudo, desde a dinamização das cerimónias à actualização da comunicação, passando pela maior militância dos católicos ou a inexistência de escândalos. Aos 79,5% é pedido que se mantenham fiéis a uma igreja imperfeita mas que faz um caminho; que defendam esta igreja como um organismo que quer comunicar uma Verdade e não angariar fiéis e que deve, por isso, modernizar-se q.b..   

Fotografias. Florença, Maio de 2011.


JdB

19 abril 2012

Deixa-me rir...

Caros Audiophiles, with apologies this week for a very brief introduction. Since I am travelling, I thought of the song Safe Travels (Don't Die) by Irish singer-songwriter Lisa Hannigan. It comes from her new CDPassenger. and captures nicely her soulful charm and quiet humour. She will be performing at Optimus Alive Oeiras in July if you are interested in exploring her music further.




Please eat your greens
and don't sit close to tv screens,
your eyes are a means to an end.
And I would be sorry if, due to your hurry,
you were hit by a lorry my friend. 
Like you always say,
Safe travels, don't die, don't die,
safe travels, don't die. 
Don't walk on ice, no matter how nice,
how sturdy, enticing it seems.
Please cross at the lights
and don't start fires or fights and
don't dabble with heights on caffeine. 
Don't swallow bleach
out on Sandymount beach,
I'm not sure I'd reach you in time my boy.
Please don't bungee jump
or ignore a strange lump
and a gasoline pump's not a toy. 
Like you always say
Safe travels, don't die...
 
 
A proxima.
 
PO

18 abril 2012

Ponto de Vírgula

Fearing to ask any more advice, she did her best alone, and discovered that something more than energy and good will is necessary to make a cook. She boiled the asparagus for an hour and was grieved to find the heads cooked off and the stalks harder than ever. The bread burned black; for the salad dressing so aggravated her that she could not make it fit to eat. The lobster was a scarlet mystery to her, but she hammered and poked till it was unshelled and its meager proportions concealed in a grove of lettuce leaves. The potatoes had to be hurried, not to keep the asparagus waiting, and were not done at the last. The blanc mange was lumpy, and the strawberries not as ripe as they looked, having been skilfully 'deaconed'.

in Mulherzinhas, Louisa May Alcott



Risotto de espargos com salmão

Ingredientes:

150 gr risotto
1/2 chavena chá vinho branco
1 lt caldo carne
espargos frescos
1 lombo grande de salmão
1 colher sopa manteiga
Azeite, cebola e alho
Queijo parmesão ralado

Preparação:

Preparar o caldo de carne, fervendo 1 Lt de água com 1 cubo de caldo knorr. Manter quente enquanto faz o risotto. Fazer um refogado, em lume brando para não queimar. Juntar os espargos e deixar cozinhar um pouco. Adicionar o risotto, deixar fritar, mexendo sempre, até ficar translúcido.

Adicionar o salmão em cubos e o vinho branco. Quando evaporar, ir juntando aos poucos o caldo de carne, deixando sempre ser absorvido pelo arroz, antes de deitar mais um pouco, até cozinhar a gosto, mexendo sempre.

Quando cozinhado envolver um pouco de manteiga e queijo parmesão ralado. Servir de imediato.

Nota: receita tirada daqui

MFM

17 abril 2012

Duas últimas

Não sei se nasci com tendências para a auto-formatação se a vida nas suas múltiplas facetas - educação recebida, profissional de fábrica e, posteriormente,  isolado em casa - me empurrou para isso. Sei que gosto de regras, de rotinas, de coisas certas, de ausência de surpresas; tenho uma relação crescentemente conflituosa com os imprevistos e com a insegurança. Como todos os feitios, vou presumir que o meu não é indiscutivelmente bom nem indiscutivelmente mau. É assim - ou tornou-se assim. Alego que sou muito engenheiro, muito conservador e muito capricorniano e talvez me perdoem esta fatalidade...

Domingo passado acompanhei duas pessoas próximas à quinta de um amigo comum. Filhos ambos de gente que já era amiga entre si, mantivemos uma proximidade de verão há talvez 40 anos. O tempo esboroou-a. Reencontrei-o há dois anos e reconhecemos-nos quase imediatamente. O conjunto intersecção dos nossos caminhos é pouco mais do que diminuto. De facto, em termos de opções, de modelo e de gestão de vida pouco temos em comum, mas sobram-nos referências sociais e memórias que sempre nos ligam. Até na arquitectura do espaço que ele construiu para viver há um mundo que nos diferencia. No entanto - e apesar de todas estas diferenças - gostei muito de lá ir. Talvez me digam que gostei, não apesar das diferenças, mas por causa das diferenças.  


Bebemos fernet branco e chá, comemos bolo de maçã e de cenoura, conversámos sobre a morte e a simbologia das caveiras, recuei décadas ao ver fotografias dos Pais do anfitrião, observámos com indiferença um gato preto que entrou por uma janela e se passeou pelo lava-loiças enquanto dois ou três cães deambulavam por ali; havia uma garrafa de oxigénio que alguém pousava para poder fumar um cigarro, pinhas num fogão de cozinha que deitava calor, patos de plástico numa imobilidade de lago, regadores velhos pendurados sem esquadria nem lógica, bocados de boneco calçados com botas numa simulação de cadáver à sombra de uma árvore. E tantos outros pormenores que dariam uma crónica de tamanho maior.

Há sempre o desafio de não ver a diferença, mas apreciar também a diferença, encontrar a beleza em cada jogo que nos é revelado. De uma certa forma (mesmo que só eu entenda o raciocínio) respirei ali o mesmo ar da minha escrita nostálgica - a ausência de preconceitos, a paz e o sossego invejáveis, ainda que não isentos de agruras, com que tudo fluía. Talvez houvesse energia positiva, simplicidade, bucolismo, silêncio de uma paisagem onde não se vislumbra correria, betão, ruído, tensões de pontualidade. Se alguém me perguntasse o que fizemos, responderia enigmaticamente: estávamos

Deixo-vos com uma música que nos acompanhou durante uma parte da tarde. Seguramente que não a conseguiríamos ouvir na formatação confortável das nossas casas ou das nossas vidas. Ali fazia todo o sentido, porque a diferença era a única coisa que se mantinha igual.

Jdb, escrevendo hoje talvez mais encriptadamente.

     

16 abril 2012

Fórmula para o caos


A recente noticia que deu conta de que o carro onde seguia Mário Soares foi apanhado a 199 km/h na auto-estrada gerou muita polémica. Não só pela infracção em si, mas também porque Soares terá dito ao agente da GNR, utilizando alguns impropérios pelo meio, que "...seria o Estado a pagar a multa! ". Obviamente que se trata de uma situação com relativa gravidade. Num país com escassos recursos, não parece razoável todas as benesses de que dispõem os anteriores inquilinos do Palácio de Belém. Porém, e apesar do deleite com que os portugueses assistem a este tipo episódios, como se isso lhes trouxesse algum alento para enfrentar a crise, todas as semanas deparamos-nos com coisas bastante mais gravosas ditas e escritas por Mário Soares. Sou daqueles que não deixa de ler, nomeadamente à terça-feira, o artigo que Soares escreve no Diário de Noticias. Também foi com bastante entusiasmo que li o seu último livro (uma espécie de auto-biografia política). Apesar de tudo quanto lhe Portugal lhe deve, nem tudo é aceitável. São muitas as contradições e imprecisões com que nos brinda. Vejamos:

“É neste contexto que o actual Presidente de França, Nicolas Sarkozy, reacionário de raiz, volátil e oportunista, vai disputar em França um novo mandato, tendo como principal rival François Hollande, socialista convicto, inimigo do economicismo financeiro e partidário do Estado social, que - diga-se - deu à Europa quatro décadas de paz, de justiça social, de pleno emprego e de bem-estar.
Curiosamente, Nicolas Sarkozy, tornou-se, com o avolumar da crise e talvez das dificuldades de França, numa espécie de assessor da Senhora Merkel, que, vinda da Alemanha comunista e depois aliada do partido neoliberal de extrema direita, tem vindo a travar a necessária evolução europeia, procurando "germanizá-la", ao seu gosto, como se isso fosse possível. Não creio que seja. A União Europeia, governada esmagadoramente por partidos populares ultraconservadores, está em descrédito profundo e, como disseram Helmut Schmidt e Jacques Delors, "à beira do abismo". É imprescindível evitar esse enorme risco. “

Este excerto é retirado do artigo de opinião no DN de 20 de Março de 2012. Segundo Soares, parece que Sarkozy é " um reaccionário de raiz, volátil e oportunista ". Pois eu pensava que os reaccionários eram aqueles que Mário Soares havia combatido antes do 25 de Abril. Aqueles que preconizavam um Estado totalitário, sem liberdade e sem divisão tripartida de poderes soberanos. É isso que se passa actualmente em França? 
Também o FDP (partido liberal da Alemanha) é descrito como "... de extrema direita." Soares, como anterior primeiro-ministro e Presidente da República tem obrigação de conhecer todo o apoio que a Fundação Nauman (órgão do FDP) prestou a Portugal nos anos posteriores ao PREC. Tratou-se não só de uma ajuda financeira, mas também de promoção da democracia. 
 “ Esquecem-se de que a China - apesar de ser hoje a segunda economia mundial - continua a ter um regime totalitário, puro e duro. E, excluída a Coreia do Norte, por enquanto não tem tido relações muito amigáveis com os seus vizinhos asiáticos, como o Japão, o Vietname, a Índia e mesmo Taiwan.
Por mim, que tenho vindo a observar com atenção a interessante e original evolução da China, pelo menos desde Tiananmen, sempre considerei que o cocktail entre um regime comunista dogmático, reconhecidamente duro, e uma economia neoliberal de capitalismo selvagem não pode - em princípio - dar nada de bom. As duas ideologias, o marxismo e o neoliberalismo, estão ambas em decadência. Mais o marxismo leninista do que o capitalismo de casino, é certo. Mas lá chegará, com pouca distância, o desgaste e a inevitável destruição de ambos. É uma questão de tempo. “

Este excerto é retirado do artigo escrito por Mário Soares no dia 27 de Março de 2012. Começa bem, ao denunciar a totalitarismo e opressão de que se reveste o regime chinês. Contudo, no segundo parágrafo alega que "as duas ideologias, o marxismo e o neoliberalismo, estão ambas em decadência." Não consigo perceber como é que um governo pode ser, em simultâneo, marxista e neoliberal. É um mix que desconheço em absoluto. Pode ser, e é mesmo o que parece ser, que Soares tenha confundido o marxismo com o totalitarismo. Mas ai incorre noutra falha. A ditadura é um regime. Como o é a democracia. Mas o neoliberalismo não é um regime, é um modelo. Modelo esse que a esmagadora maioria dos eleitores europeus votaram nos últimos tempos. E é esse um dos pilares da Democracia.

Pedro Castelo Branco

15 abril 2012

Domingo da Divina Misericórdia


(...) A misericórdia é, propriamente, aquele ponto da revelação que Jesus Cristo faz de si mesmo e do mistério de Deus onde Ele entra totalmente em ruptura com as medidas do mundo. A misericórdia é a coisa que o mundo tem mais dificuldade em aceitar na proposta cristã.
A misericórdia é diferente do perdão. A misericórdia é um coração que olha para mim e me acha miserável e que, reconhecendo-me miserável, me trata com amor. Não me trata segundo a minha miséria, mas segundo a Sua misericórdia.
O perdão ainda tem uma certa proporção. A ideia de perdão tem em si a ideia de mudança, de emenda, de arrependimento, de reparação. É uma coisa que ainda se controla, que se pode pesar, que pode ter uma medida, que pode ter alguma proporcionalidade.
A misericórdia é o olhar que olha para o ladrão que acabou de dizer que merece aquela morte ignominiosa e Lhe pede: “Jesus lembra-te de mim” e lhe dá, fora de toda a proporção e de todo o mérito, a recompensa: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”.
A misericórdia não mede, não calcula, não pesa, não entra em linha de conta com o cálculo que eu faço acerca de mim próprio, não se adequa à medida que eu faço de mim. A misericórdia é este amor que entra por mim adentro e me mude e me transforma.
A misericórdia é a única coisa que, verdadeiramente, torna o homem capaz de grandeza. Porque o liberta completamente do cálculo, do seu e do alheio, da medida, do tomar o pulso à sua própria capacidade.

(Directo ao Assunto, Padre João Seabra, Editora Lucerna, 2003)

Domingo ........ Se Fores à Missa!


No Domingo passado assisti à Missa de Páscoa no CUPAV e na homilia, o Pe. Carlos Azevedo, falou no Cristo Ressuscitado e no que Ele representa, ou deveria representar, para cada um de nós.

Com a Ressurreição, começou um novo modo de existência para Jesus Cristo. A partir desse momento, já não será mais possível conhecê-l’O através dos meios humanos. Tem que se passar da visão à fé. Se repararem, em todas os textos onde aparece Cristo Ressuscitado, a sua forma física deixou de ser reconhecível por todos aqueles que o conheceram tão bem: Maria Madalena, no sepulcro, achou que Ele era um jardineiro. Os discípulos de Emauz caminharam com Ele uma distância de cerca de 15 Kms até O reconhecerem. Os outros discípulos, fechados à chave dentro de casa, só o reconheceram porque Ele anunciou “a Paz esteja convosco” e porque partiu o pão e distribuiu-o como era Seu hábito.. Oito dias depois, Pedro e Simão só irão reconhecer pela forma como os ajuda na pescaria. Ou seja, todas as pessoas que o conheceram em vida, só o reconhecem, após a ressurreição, através de algum gesto ou de alguma palavra e não através dos seus traços físicos.

Esta reflexão fez-me realizar que o Cristo Ressuscitado de há 2.000 anos é, também, e afinal, o mesmo Cristo Ressuscitado de hoje. Este Cristo Ressuscitado está em cada um de nós e, através de pequenos gestos, através de palavras ou de um simples olhar, também nós podemos reconhecê-l’O no nosso irmão, nos nossos filhos, no namorado ou na namorada, no colega de trabalho, no marido ou na mulher. E, mais importante ainda, realizei também que os outros poderão ver Cristo Ressuscitado em mim. Isso traz-nos uma responsabilidade acrescida, pensar que podemos ser espelho de Cristo Ressuscitado.....

Domingo, Se Fores à Missa ......... Procura o Cristo Ressuscitado.

Maf

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos». Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa, e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!». Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.


14 abril 2012

Pensamentos impensados


Nau Catrineta
Portugal já teve uma bela marinha mercante; hoje, a nossa marinha não é marcante.
 
Rimas sem fim
O trabalho é filho da labuta
O esperto é filho da astuta
O maestro é filho da batuta
A salada é filha da fruta
A espeleologia é filha da gruta
O anão é filho da diminuta
A nódoa negra é filha da luta
A "secreta" é filha da escuta
 
Sim e não
Manuel Alegre escreveu há sempre alguém que diz não.
Por que razão Elizabeth Taylor, Henrique VIII e Charlie Chaplin casaram tantas vezes? Porque há sempre alguém que diz sim.
 
Almirantes
O toiro bravo, no campo, é um animal doméstico; já na praça torna-se uma verdadeira fera (quando não é manso). A única explicação para a mudança de atitude é terem ouvido o Almirante Pinheiro de Azevedo quando disse não gosto de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia, pá.
 
Pitonisa de Boliqueime
Não percebo a pachorra que têm os jornalistas quando fazem perguntas ao Dr. Cavaco Silva, sabendo que 95% das respostas são o Presidente não comenta ou o Presidente não se pronuncia.
Deixo aqui algumas sugestões de perguntas a fazer à "Esfinge":
Acredita no Pai Natal?
Tem licença da caça aos gambusinos?
O Pinóquio consegue meter o dedo no nariz quando este lhe cresce?
Que dia é hoje? (Arriscam-se a que o Dr. Cavaco diga:O Presidente não comenta o
Calendário Gregoriano).

SdB (I)
 

12 abril 2012

Campanhas dos dias que correm



Moleskine


Durante muito tempo foi apenas o Miguel, sendo que a palavra a itálico se refere a uma dimensão a ser explicada não tarda um instante. Era um homem reconhecidamente bonito, com um cabelo forte, negro, ondulado e abundante a encimar uns olhos muito verdes, quase transparentes. Além de tudo era alto e bem constituído fisicamente, o que reforçava a certeza da injustiça terrena: uns são quase tudo, outros são pouco mais do que nada.
Por volta dos 30 anos, o advérbio apenas viria a ser substituído pelo substantivo padre – ambas as expressões a itálico, revelando, porém, realidades profundamente diferentes. Poupemos na caracterização da melena negra e do inegável corpore sano, porque a mudança de estatuto não implica alterações obrigatórias de carácter físico. Percebeu-se então o que já se suspeitava: tudo lhe assentava bem, fosse um polo coçado e umas calças de ganga velhas, um casaco de bom corte, uma camisa azul riscada com um cabeção – ou mesmo uns paramentos antigos debruados a ouro fino.
Num dia de Maio, com um sol intenso bafejado por uma brisa suave, Matilde entrou na igreja onde o Padre Miguel era prior, solicitando a resolução de um assunto que de momento não se considera relevante. Tinha uma elegância fina, um conhecimento profundo do que era e do que vestia, e uns óculos escuros de marca. Havia naquele corpo, esguio sem ser magro, alto sem ser desconforme, uma consciência clara que podia traduzir-se (digo eu, que não lhe perguntei) numa frase simples: sou respeitadora da igreja, mas sou mulher. A generosidade do decote e o tamanho da saia estavam na fronteira certa, porque a elegância e o respeito não circulam no espaço shengen.
Quem observou o diálogo entre o prior e a dama revela factos: um aperto de mão forte, uns dedos femininamente esguios assentes num antebraço musculado, sorrisos e silêncios, o olhar dela que não se fixou no dele, as frases educadas que revelam uma despedida amistosa. Há depois o que a pretensa virtude qualificou no domínio do subjectivo - ou da maledicência: a desadequação da roupa e do contacto físico, umas gargalhadas demasiadas, uns óculos escuros inapropriados, uma desconfiança materializada em o que vai sair daqui? 
Durante algumas semanas as conversas entre Matilde e o Padre Miguel continuaram com uma regularidade, feita não só de dias e horas marcadas, como também de adereços: o cabeção e a camisa riscada, os óculos escuros e a elegância feminina, o riso e a conversa prolongada. Uma mudança, para alguns nada despicienda, provocou uma alteração ao nível da sintaxe. A partir de um dado momento já não se perguntava o que iria sair dali (interrogação) mas sabia-se que algo iria sair dali (exclamação). De facto, ambos os interlocutores se despediram com um beijo, o que configurava uma qualquer intimidade.
Em Setembro, a paróquia do Padre Miguel organizou uma conferência cujo título (tal como o assunto de Matilde) não se considera relevante, até por ser na linha de tantas outras. Cadeiras dispostas em semicírculo, a da elegância feminina e dos óculos escuros no lado oposto da do cabeção e da cabeleira negra e abundante - frente a frente portanto, como se fossem dois toldos nas extremas de uma enseada. Naquele momento ninguém quis arriscar se as posições mútuas se deviam a acaso, se a estratégia. A sala em redor foi-se compondo com paroquianos numa ocupação gradual – e nem sempre pontual – dos espaços vazios. No curtíssimo intervalo assistiu-se, então, ao inimaginável: frente ao prior, Matilde atirava beijos, abria sorrisinhos marotos, estirava os lábios em boquinhas sensuais, acenava adeuses cúmplices. Pela assembleia perpassou uma guerra interior na qual se digladiavam os bons costumes da santa madre igreja e o erotismo mais descabido e público. 
No fim da palestra, no preciso instante em que algumas pessoas mais acaloradas se enchiam de furor virtuoso e avançavam para uma flagrante indignação, Matilde levantou-se, abriu os braços e, olhando para o prior, caminhou numa direcção ligeiramente desviada. Vítima de um tropeção, agarrou-se a custo a uma cadeira de madeira com estofos de napa preta. Os óculos escuros misteriosos, imagem de marca da sua elegância feminina, voaram pela sala, indiferentes ao recinto, ao público, à dona, ao decoro. O espanto foi total: Matilde tinha um olho violentamente assimétrico e que a forçava a olhar para a direita quando queria ir em frente, ou a olhar em frente se queria ir para a esquerda. Passou a dois metros do prior mas ainda teve tempo para lhe dizer:
- Quer conhecer o meu noivo que está aqui atrás de si? É o oftalmologista de que lhe falei.

JdB    

11 abril 2012

Diário de uma astróloga – [23] – 11 de Abril de 2012

Marte retrógrado

No próximo dia 14, o planeta Marte retoma a seu movimento directo. Pelo menos parece que desta vez nenhum pais começou uma guerra! Passo a explicar a razão do meu alívio.
O planeta Marte completa a sua órbita à volta do Sol em 688 dias, mas uma vez cada dois anos, visto a partir da Terra, “parece” que diminui de velocidade até ficar parado (na gíria astrológica usamos o termo estacionário) e depois “parece” que anda para trás (movimento retrógrado). Ao fim de dois meses e meio, fica novamente quase parado e depois retoma a sua órbita habitual dirigindo-se para Este. Marte este ano tem estado a “andar” no sentido contrário desde 24 de Janeiro. 
O planeta foi baptizado com o nome do deus romano da guerra, possivelmente porque tem uma aparência vermelha, a cor do sangue. O Marte mitológico era valente e corajoso e tinha como companheiros Hons (honra) e Virtu (virtude). Os romanos consideravam-no tão importante que deram o seu nome ao mês de Março, mês em que o Sol entra em Carneiro, signo regido por Marte. 

Marte e as suas luas

Os deuses romanos têm a sua origem na mitologia grega, onde Marte se chamava Ares e tinha uma narrativa muito mais brutal. Andava sempre acompanhado de Deimos (medo) e Phobos (pânico), aliás os nomes que os astrónomos do séc. XIX escolheram para as suas duas luas. A irmã gémea de Ares chamava-se Eris (discórdia). Tinha outra irmã, mais civilizada mas também guerreira, Athena, que o descreve como uma coisa raivosa, vinda do mal.  Não sei explicar porque é que Marte teve um “upgrade” na transição da Grécia para Roma, mas para perceber a sua energia acho que é necessário incorporar o aspecto nobre e o aspecto feroz. A guerra tem, com certeza, estas duas facetas.
Em termos da consciência humana, Marte ficou relacionado com os militares e a guerra. Por exemplo, o “Champ de Mars” em Paris é ao lado da Ecole Militaire e “Campo Marzio” em Roma era a zona onde se faziam exercícios militares.
Em termos históricos, tem-se verificado que as guerras que começam quando Marte está retrógrado ou estacionário, têm péssimos resultados para o agressor. Quem começa perde!
Conhecem o episódio em que Páris de Tróia raptou Helena, a mulher do rei de Esparta? Esta agressão instigada por Eris deu origem a uma guerra mítica descrita por Homero. O deus Marte estava do lado dos troianos, a sua irmã Atena do lado dos Gregos e a coisa não correu bem para os troianos, o que me leva a pensar que o planeta Marte estava retrógrado. Infelizmente temos outros exemplos mais recentes:


“Ares e Athena”   Jacques-Louis David  (1748-1825)                   “Paris e Helena” (detalhe)  

MARTE RETRÓGRADO
                                  

22 Junho – 24 Agosto de 1939: Hitler tinha marcado a invasão da Polónia para 26 de Agosto. Acabou por se realizar a 1 de Setembro, com Marte praticamente estacionário. 
28 Janeiro – 19 Abril de 1965: o Vietname já era teatro de guerra há muito tempo, mas o início oficial do envolvimento americano no terreno foi a a 8 de Março, quando Lyndon Johnson envia 3.500 “marines”. 
16 Janeiro – 6 Abril de 1980: a Rússia já tinha uma presença no Afeganistão a pedido do governo local em 1978, mas decide passar para uma luta armada activa nos princípios de 1980. 
20 Fevereiro – 11 de Maio de 1982: a Argentina invade as Ilhas Maldivas / Falkland no dia 2 de Abril.
2 Janeiro – 24 Março  de 1995: a Rússia invade a Chechénia em Dezembro de 1994 com Marte estacionário. A guerrilha local reage, os Russos vão-se embora e Yeltsin declara que a Chechénia poderia tornar-se num segundo Vietname. E tinha razão! 


A actual guerra no Afeganistão começou em Outubro de 2001 com Marte directo, mas Obama oficializa a política de intensificação da presença militar e reforço das hostilidades no discurso anual “State of the Union”, a 27 de Janeiro de 2010. E Marte estava retrógrado desde o dia 9 de Janeiro. A única questão é quando é que os americanos percebem o que Yeltsin percebeu.
Em termos pessoais, Marte não só explica como gerimos situações de conflito, mas também como criamos o nosso espaço próprio, de quanta autonomia precisamos, como iniciamos projectos e como sentimos a nossa sexualidade. Tem um âmbito mais lato do que a guerra. Dependendo do nosso Marte natal e em que parte da carta transita Marte retrógrado, podemos, neste período, sentir a sua energia intensificada, como que sob pressão. Lutamos connosco próprios e pessoalizamos as nossas quezílias. Velhos rancores tornam à superfície. A regra para aproveitar os períodos de Marte retrógrado é: rever, redefinir os projectos em curso, reexaminar a nossa vida sexual, reconsiderar donde vem a raiva e também de onde vem a coragem. E sobretudo não entrar em guerra!

           
Luiza Azancot


10 abril 2012

Duas últimas

Hoje o post talvez saia ligeiramente kitsch. Ele há dias em que a imaginação é menor e eu andei por aqui, por alturas da hora de almoço, estrelando dois-ovos-dois e pensando comigo próprio no que havia de por que surpreendesse positivamente os meus leitores fiéis e, por isso mesmo, surpreendentes - quando não surpreendidos. Nada me saiu, até porque terei de escrever um texto para a próxima 5ªfeira e os meus já de si escassos neurónios (imaginativos e outros) estão em estágio. Há dúvidas quanto à convocatória de qualquer um deles...

Fui buscar uma música muito bonita (ao que parece criada para efeitos de prática da técnica) e superiormente interpretada à guitarra por Pepe Romero. Depois, agarrei numa versão cantada pela Nana Moskouri que tinha ouvido há muitos anos e incluí-a também, para dar o ar que me esforcei muito para este post... Ou para que o primeiro vídeo saia mais reforçado, pois então. Digamos que os vídeos convidam a sentidos diferentes: o primeiro pode ouvir-se de olhos fechados, o segundo pode ver-se com os ouvidos tapados. Neste esplendor de imaginação que por vezes me assalta, até vou admitir que a versão da Nana Moskouri seja virtualmente inaudível. O que diria o señor Francisco Tárrega se a ouvisse?   

Recuerdos de Alhambra, no meu caso particular com referência apenas ao compositor de Vila-Real. Há muito tempo que ando para visitar o local mas o tempo ainda não chegou, provavelmente por inércia e desorganização próprias. A ver vamos se ainda é este ano. Só depois poderei ter recuerdos...

O texto está fraquito, não está? Mas pode ser interessante ver-se o que a criatividade pode fazer de uma obra bonita. Só este último argumento pode justificar o tempo que aqui perderão...

JdB




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